se ao menos conseguisse dormir…

Gustav Klimt – Death and Life, 1916

O relógio que está lá para trás, na casa deserta, porque todos dormem,deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite.
Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jazo na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho.
Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não consigo ter.
Tudo em meu torno é o universo nu, abstracto, feito de negações nocturnas.
Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafisico do mistério das coisas.
Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana bóiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir. Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espectáculo sem ruídos. Não tenho os olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de longe; são os candeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins abandonados da rua.
Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!… Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!… Cessar, ser incógnito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de folhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva!…
Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeixa de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho… O absurdo, a confusão, o apagamento – tudo que não fosse a vida… E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair.
Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece – não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto.
Posso deixar-me à vida, posso dormir, posso ignorar-me… E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

Os artistas da Luz

Claro que não se trata dos outros, que neste espaço não têm tempo de antena. Falo de mais uma edição do projecto Luzboa, entre 8 de Novembro de 2008 e 15 de Janeiro de 2009. O projecto será organizado pela Realizar.

Na edição de 2006, registei imagens da Blue Line, Red Line e Green Line. Este ano e por umas semanas, serão criadas atmosferas que certamente farão do próximo Natal um período mais brilhante. A Baixa e zonas adjacentes verão a luz difundir-se nos tecidos urbanos, afluindo pelas encostas até ao rio.

Luzboa ’08 destaca a arte da Luz de Itália apresentando um conjunto de instalações urbanas cedidas pelo “Luci d’Artista“, o mais importante Festival de Luz europeu, que decorre em Turim.

Lisboa recebe obras de artistas de referência como Marinella Pirelli, Piero Fogliatti, bem como um conjunto de peças históricas do coleccionador Giuseppe Panza di Biumo, numa forma única de arte: arte integrada no espaço urbano, arte acessível a todos, arte como contributo cultural para a celebração do Natal de 2008 em Lisboa.

SBSR… às moscas!

Onde se teria metido o pessoal? Pois, estavam no Alive...

Onde se teria metido o pessoal? Pois, estavam no Alive...

Os Duran Duran cumpriram o que se esperava deles; Beck tem uma miuda que toca guitarra com alma; Deram um grande concerto e ou muito me engano ou passaram despercebidos, o que não é necessariamente mau, em especial para quem lá esteve. Estando longe das minhas preferências musicais, Mika é um show em palco!

E Duram.. E Duram...

E Duram.. E Duram...

Beck, o melhor da noite

Beck, o melhor da noite

Os Digitalism, tal como Tiesto, mereciam outro horário. O som falhou, uma, duas, três vezes. O rapaz chateou-se e disse adeus.

Espero que às 5:30 da manhã estivesse presente o iluminado que organizou aquilo e que tenha aprendido a lição.

O som dos vídeos de Tiesto é mauzinho, mas foi o que se pôde arranjar… 🙂

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Tiësto no SBSR

A ver se é desta que consigo ouvir ao vivo DJ Tiesto e, se assim for, só quero estar acordado dez segundos antes do Sol nascer… para passar ao nível seguinte.

Tiësto – Elements Of Life (Ewien video)

Angoulême 2009

Em antevisão do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême – 2009, um plateau excepcional de autores configura uma das melhores edições dos últimos anos.

O australiano Shaun Tan será cabeça de cartaz, depois de ter vencido o Grande Prémio deste ano, com Là où vont nos pères (Dargaud).

As presenças anunciadas de Daniel Clowes, autor de David Boring e Ice Haven, Posy Simmonds, conceituada autora britânica e colaboradora do Guardian enquanto cartoonista, Melinda Gebbie e Alan Moore – autores de Lost Girls – explicam a grandeza do Festival no próximo ano.

Em Busca do Concerto Perdido

Michel Camilo e Tomatito mostram, com este “Two Much Love Theme” que há casamentos de conveniência muito felizes, como aqui escrevi. Desgraçadamente 😦 perdi o Concerto no CCB… schuif!

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Metropolis – Director`s Cut

O jornal alemão Die Zeit noticia a descoberta de aproximadamente 30 minutos de cenas fundamentais para que (final e ansiosamente, esperam os cinéfilos) se faça luz sobre algumas profundezas da narrativa em Metropolis de Fritz Lang, obra-prima gótico-futurista do cinema-mudo.

A Maior Força Desportiva em Portugal

O Clube do coração celebra hoje o centésimo segundo aniversário.

Nem de propósito! Em jeito de prenda, a IFFHS divulga hoje o ranking de Julho, onde o Sporting aparece como melhor português (8)

Ranking de Julho da IFFHS:

1. (1) Manchester United (Inglaterra)
2. (3) Chelsea (Inglaterra)
3. (5) Bayern Munique (Alemanha)
4. (6) Glasgow Rangers (Escócia)
5. (4) Barcelona (Espanha)
6. (7) Roma (Itália)
7. ( 8 ) Liverpool (Inglaterra)
8. (9) Arsenal (Inglaterra)
9. (2) Boca Juniors (Argentina)
10. (10) Inter (Itália)
39. (41) Sporting (Portugal)
41. (42) F.C. Porto (Portugal)
51. (50) Benfica (Portugal)
161. (169) Sp. Braga (Portugal)
307. (305) V. Setúbal (Portugal)


Mensagem do presidente do Sporting Clube de Portugal no 102.º aniversário do Clube

O Sporting Clube de Portugal cumpriu hoje, dia 1 de Julho de 2008, o seu 102.º aniversário, celebrando-se, assim, a contagem real e verdadeira de um tempo já centenário, ao longo do qual o nosso Clube soube dar exemplos elevados, muitas vezes pioneiros de novos caminhos.

Sinto uma infinita honra em presidir ao Conselho Directivo do Sporting Clube de Portugal, ciente das responsabilidades que a própria História e o futuro conferem ao cargo. Missão de enorme dificuldades que partilho com os demais membros dos órgãos sociais, bem como com todo o universo de colaboradores que, dia a dia, labutam pela continuidade dos pergaminhos e pela evolução positiva, a caminho de tempos sempre melhores.

Cento e dois anos de existência é tempo de mais para que a gesta «leonina» passe despercebida, isto é, ninguém pode ignorar o desempenho do Sporting Clube de Portugal ao longo dos anos, nas mais diversas vertentes desportivas e com a mais profunda repercussão aos níveis social e cultural, aliando a quantidade à qualidade dos serviços verdadeiramente prestados ao nosso País.

Ao longo da História do Sporting Clube de Portugal, constam milhares de títulos conquistados. Brilhantes atletas e não menos brilhantes treinadores e demais colaboradores, todos unidos em triunfos marcantes. Mas o maior título de todos é aquele que, ano após ano, o Sporting presta ao próprio Portugal inteiro, às suas gentes de tantas idades que, das mais diversas formas, desfrutam dos serviços e das emoções que orgulhosamente proporcionamos. E já lá vão 102 anos de «Esforço, Dedicação, Devoção e Glória» e bons exemplos!

Sempre defendendo os mais sãos valores desportivos, igualmente o nosso Clube é apanágio de conduta elevada, quaisquer que sejam os universos onde se mova. Desde a mais fiel interpretação do seu início, que hoje se assinala e comemora numa inédita demonstração de vitalidade ecléctica e sedutora, aos princípios que orientam o nosso caminho, sem atropelos nem falsidades, apenas iluminados e inspirados pela História (de todos quantos nos antecederam) a caminho do contínuo progresso e crescimento, de estilo frontal e cara bem levantada.

Assim, conseguiremos continuar o Sporting Clube de Portugal, dotando-o de condições para que nunca deixe de ser um dos melhores Clubes do Mundo!

Parabéns, Sporting! Parabéns, sportinguistas de todo o Mundo, aqui se incluindo, naturalmente, os Núcleos, Filiais e Delegações que, de forma tão sentida, ajudam mundo fora a elevar o bom-nome e a obra «leonina»!
Viva o Sporting Clube de Portugal!

Filipe Soares Franco

partidazo!

Uma questão de boa vizinhança. Bairrismos à parte, se não formos nós a ganhar, os meus favoritos serão sempre os latinos. Depois da Itália Campeã do Mundo em 2006, hoje a Espanha sagrou-se Campeã da Europa. Logicamente, no próximo Torneio será a nossa vez.

Quem não gosta, ou não entende o fenómeno futebol, devia ver as imagens dos reis de Espanha a saltar da cadeira quando El Niño Torres enlatou os alemães em conserva. Um pitéu.

A simplicidade da luz interior

Há luz a mais. Sou ofuscado pelo brilho efémero do que me rodeia.
Preciso alimentar a ilusão de voltar ao eu… Magia possível sem efeitos especiais.

Johannes Vermeer - The Astronomer, cerca de 1668

Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la, saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. «Qualquer estrada», disse Carlyle, «até esta estrada de Entepfhul, te leva até ao fim do mundo.» Mas a estrada de Entepfhul, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfhul; de modo que o Entepfhul, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego