Arquivo de Julho, 2004

:: reminder

Filmes para alugar esta semana no blockbuster:

O Cume de Dante, Mississipi em Chamas, Vulcão, Quo Vadis..

Darfur – Sudão: Um lugar do outro mundo

Àqueles que se colocam à margem do problema e lhe chamam guerra religiosa, devemos recordar os números da pior crise humanitária no mundo:

  1. milhões de deslocados
  2. centenas de milhar de refugiados
  3. dezenas de milhar de assassinados

O Nuno Guerreiro chamou mais uma vez à atenção para esta catástrofe.

Pede-nos que publiquemos um post, uma simples foto sobre Darfur, para que a mensagem passe!

Permito-me recordar até onde é capaz de ir a estupidez dos homens!

the show must go on..

No Jornal Nacional da TVI de ontem vi uma das inúmeras reportagens que se têm feito nos últimos dias sobre o país a arder.

O repórter surge de rompante frente à câmara, supostamente ainda em off, a perguntar ao cameraman qualquer coisa como “este plano é bom?”.

O objectivo era estimular o espectador para o perigo que ele corria ao fazer a reportagem, perigosamente perto das chamas que atravessavam  a estrada.

No ano passado, ou há dois anos, já não me recordo, A Alta Autoridade para a Comunicação Social recomendava aos órgãos de comunicação social alguma moderação na apresentação das imagens sobre os incêndios, para não despertar ainda mais os pirómanos espalhados pelo território nacional.

Andam a dormir?!

Para "A Sebastiana"

Eu construí a casa.

Fi-la primeiro de ar.

Depois hasteei a bandeira

E deixei-a pendurada

no firmamento, na estrela,

na claridade e na escuridão.

Cimento, ferro, vidro,

eram a fábula,

valiam mais que o trigo e como o ouro,

era preciso procurar e vender,

e assim chegou um camião:

desceram sacose mais sacos,

a torre agarrou-se à terra dura- mas,

não basta, disse o construtor,

falta cimento, vidro, ferro, portas ,

e nessa noite não dormi. 

Mas crescia,

cresciam as janelas

e com pouco,

com pegar no papel e trabalhar,

arremetendo-lhe com joelho e ombro

ia crescer até chegar a ser,

até poder olhar pela janela,

e parecia que com tanto saco

poderia ter tecto e subiria

e agarraria, por fim, a bandeira

que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,

às que morreram

e tinham sido arrancadas de suas casas,

portas sem parede, rachadas,

amontoadas nas demolições,

portas já sem memória,

sem recordação de chave,e disse: “Vinde

a mim, portas perdidas:

dar-vos-ei casa e parede

e mão que bate,

oscilareis de novo abrindo a alma,

velareis o sono de Matilde

com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura

chegou também lambendo as paredes,

vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa

para que se pusessem a bailar.

Assim a torre baila,

cantam as escadas e as portas,

sobe a casa até tocar o mastro,

mas falta dinheiro:faltam pregos,

faltam aldrabas, fechaduras, mármore.

Contudo, a casa

vai subindo

e algo acontece, um latejo

circula nas suas artérias:

é talvez um serrote que navega

como um peixe na água dos sonhos

ou um martelo que pica

como um pérfido pica-pau

as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,

aguenta-se nos pés,

tem roupa pendurada num andaime,

e como pelo mar a primavera

nadando como ninfa marinha

beija a areia de Valparaíso,

não pensemos mais: esta é a casa:

tudo o que lhe falta será azul,

agora só precisa de florir.

E isso é trabalho da primavera.

Pablo Neruda

com 38º é difícil suportar a roupa..

Balthus – Nude with Arms Raised, 1951

Programa do XVI Governo Constitucional

No Novo Plano de Defesa Nacional, O submarino que temos vai triplicar o número de viagens de vigilância das nossas águas, entre o Alfeite e a Baía de Cascais.

Estamos muito mais seguros!

Interrupção voluntária da pacatez..

O Programa segue dentro de momentos..

vou descansar uns dias!

300 posts.

3000 visitas, todas luminosas!

Obrigado. Até breve!

Deixo-vos com Fernando Pessoa..

Quinto Império

Vibra, clarim, cuja voz diz.

Que outrora ergueste o grito real

Por D. João, Mestre de Aviz,

E Portugal!

Vibra, grita aquele hausto fundo

Com que impeliste, como um remo,

Em El-Rei D. João Segundo

O Império extremo!

Vibra, sem lei ou com lei,

Como aclamaste outrora em vão

O morto que hoje é vivo — El-Rei

D. Sebastião!

Vibra chamando, e aqui convoca

O inteiro exército fadado

Cuja extensão os pólos toca

Do mundo dado!

Aquele exército que é feito

Do quanto em Portugal é o mundo

E enche este mundo vasto e estreito

De ser profundo.

Para a obra que há que prometer

Ao nosso esforço alado em si,

Convoco todos sem saber

(É a Hora!) aqui!

Os que, soldados da alta glória,

Deram batalhas com um nome,

E de cuia alma a voz da história

Tem sede e fome.

E os que, pequenos e mesquinhos,

No ver e crer da externa sorte,

Convoco todos sem saber

Com vida e morte.

Sim, estes, os plebeus do Império;

Heróis sem ter para quem o ser,

Chama-os aqui, ó som etéreo

Que vibra a arder!

E, se o futuro é já presente

Na visão de quem sabe ver,

Convoca aqui eternamente

Os que hão de ser!

Todos, todos! A hora passa,

O gênio colhe-a quando vai.

Vibra! Forma outra e a mesma raça

Da que se esvai.

A todos, todos, feitos num

Que é Portugal, sem lei nem fim,

Convoca, e, erguendo-os um a um,

Vibra, clarim!

E outros, e outros, gente vária,

Oculta neste mundo misto.

Seu peito atrai, rubra e templária,

A Cruz de Cristo.

Glosam, secretos, altos motes,

Dados no idioma do Mistério —

Soldados não, mas sacerdotes,

Do Quinto império.

Aqui! Aqui! Todos que são.

O Portugal que é tudo em si,

Venham do abismo ou da ilusão,

Todos aqui!

Armada intérmina surgindo,

Sobre ondas de uma vida estranha.

Do que por haver ou do que é vindo —

É o mesmo: venha!

Vós não soubesses o que havia

No fundo incógnito da raça,

Nem como a Mão, que tudo guia,

Seus planos traça.

Mas um instinto involuntário,

Um ímpeto de Portugal,

Encheu vosso destino vário

De um dom fatal.

De um rasgo de ir além de tudo,

De passar para além de Deus,

E, abandonando o Gládio e o escudo,

Galgar os céus.

Titãs de Cristo! Cavaleiros

De uma cruzada além dos astros,

De que esses astros, aos milheiros,

São só os rastros.

Vibra, estandarte feito som,

No ar do mundo que há de ser.

Nada pequeno é justo e bom.

Vibra a vencer!

Transcende a Grécia e a sua história

Que em nosso sangue continua!

Deixa atrás Roma e a sua glória

E a Igreja sua!

Depois transcende esse furor

E a todos chama ao mundo visto.

Hereges por um Deus maior

E um novo Cristo!

Vinde aqui todos os que sois,

Sabendo-o bem, sabendo-o mal,

Poetas, ou Santos ou Heróis

De Portugal.

Não foi para servos que nascemos

De Grécia ou Roma ou de ninguém.

Tudo negamos e esquecemos:

Fomos para além.

Vibra, clarim, mais alto! Vibra!

Grita a nossa ânsia já ciente

Que o seu inteiro vôo libra

De poente a oriente.

Vibra, clarim! A todos chama!

Vibra! E tu mesmo, voz a arder,

O Portugal de Deus proclama

Com o fazer!

O Portugal feito Universo,

Que reúne, sob amplos céus,

O corpo anónimo e disperso

De Osíris, Deus.

O Portugal que se levanta

Do fundo surdo do Destino,

E, como a Grécia, obscuro canta

Baco divino.

Aquele inteiro Portugal,

Que, universal perante a Cruz,

Reza, ante à Cruz universal,

Do Deus Jesus.

Temos Presidente!

E temos governo!

Já posso ir de férias..

Trilho

Gostei muito de ler as palavras da encandescente.. e pedi-lhe se as podia publicar.

Aqui ficam, com o meu agradecimento.

A luz era intensa. O dia claro e brilhante.

A pele brilhava de suor.

A claridade nas gotas que corriam e as gotas eram luz.

Ela brilhava embrulhada em gotas e prazer.

Os olhos reflectiam a luz que entrava. Iluminavam mais o dia e diziam da felicidade.

A alegria rodeava-os e era fogueira acesa.

Ateavam o prazer e ardiam em gotas de prazer, suor, alegria.

Rodavam juntos e brilhavam e o dia era brilhante e escorria amor.

As gotas colavam-nos. Eram um.

Um brilho só. Uma só luz.

E no momento do abandono, da explosão, a luz foi tão intensa que atravessou as gotas de suor e decompôs-se.

E acenderam estrelas num dia claro e brilhante.

Ela levantou a mão e as estrelas brilharam na mão.

Ele tocou-lhe a mão. Tocou as estrelas.

Ela fechou a mão e guardou-o. E guardou as estrelas entre as linhas da mão.

E em dias de solidão acende as estrelas para que ele siga o trilho, o brilho e encontre o caminho.