Arquivo de 10 de Julho, 2004

vou descansar uns dias!

300 posts.

3000 visitas, todas luminosas!

Obrigado. Até breve!

Deixo-vos com Fernando Pessoa..

Quinto Império

Vibra, clarim, cuja voz diz.

Que outrora ergueste o grito real

Por D. João, Mestre de Aviz,

E Portugal!

Vibra, grita aquele hausto fundo

Com que impeliste, como um remo,

Em El-Rei D. João Segundo

O Império extremo!

Vibra, sem lei ou com lei,

Como aclamaste outrora em vão

O morto que hoje é vivo — El-Rei

D. Sebastião!

Vibra chamando, e aqui convoca

O inteiro exército fadado

Cuja extensão os pólos toca

Do mundo dado!

Aquele exército que é feito

Do quanto em Portugal é o mundo

E enche este mundo vasto e estreito

De ser profundo.

Para a obra que há que prometer

Ao nosso esforço alado em si,

Convoco todos sem saber

(É a Hora!) aqui!

Os que, soldados da alta glória,

Deram batalhas com um nome,

E de cuia alma a voz da história

Tem sede e fome.

E os que, pequenos e mesquinhos,

No ver e crer da externa sorte,

Convoco todos sem saber

Com vida e morte.

Sim, estes, os plebeus do Império;

Heróis sem ter para quem o ser,

Chama-os aqui, ó som etéreo

Que vibra a arder!

E, se o futuro é já presente

Na visão de quem sabe ver,

Convoca aqui eternamente

Os que hão de ser!

Todos, todos! A hora passa,

O gênio colhe-a quando vai.

Vibra! Forma outra e a mesma raça

Da que se esvai.

A todos, todos, feitos num

Que é Portugal, sem lei nem fim,

Convoca, e, erguendo-os um a um,

Vibra, clarim!

E outros, e outros, gente vária,

Oculta neste mundo misto.

Seu peito atrai, rubra e templária,

A Cruz de Cristo.

Glosam, secretos, altos motes,

Dados no idioma do Mistério —

Soldados não, mas sacerdotes,

Do Quinto império.

Aqui! Aqui! Todos que são.

O Portugal que é tudo em si,

Venham do abismo ou da ilusão,

Todos aqui!

Armada intérmina surgindo,

Sobre ondas de uma vida estranha.

Do que por haver ou do que é vindo —

É o mesmo: venha!

Vós não soubesses o que havia

No fundo incógnito da raça,

Nem como a Mão, que tudo guia,

Seus planos traça.

Mas um instinto involuntário,

Um ímpeto de Portugal,

Encheu vosso destino vário

De um dom fatal.

De um rasgo de ir além de tudo,

De passar para além de Deus,

E, abandonando o Gládio e o escudo,

Galgar os céus.

Titãs de Cristo! Cavaleiros

De uma cruzada além dos astros,

De que esses astros, aos milheiros,

São só os rastros.

Vibra, estandarte feito som,

No ar do mundo que há de ser.

Nada pequeno é justo e bom.

Vibra a vencer!

Transcende a Grécia e a sua história

Que em nosso sangue continua!

Deixa atrás Roma e a sua glória

E a Igreja sua!

Depois transcende esse furor

E a todos chama ao mundo visto.

Hereges por um Deus maior

E um novo Cristo!

Vinde aqui todos os que sois,

Sabendo-o bem, sabendo-o mal,

Poetas, ou Santos ou Heróis

De Portugal.

Não foi para servos que nascemos

De Grécia ou Roma ou de ninguém.

Tudo negamos e esquecemos:

Fomos para além.

Vibra, clarim, mais alto! Vibra!

Grita a nossa ânsia já ciente

Que o seu inteiro vôo libra

De poente a oriente.

Vibra, clarim! A todos chama!

Vibra! E tu mesmo, voz a arder,

O Portugal de Deus proclama

Com o fazer!

O Portugal feito Universo,

Que reúne, sob amplos céus,

O corpo anónimo e disperso

De Osíris, Deus.

O Portugal que se levanta

Do fundo surdo do Destino,

E, como a Grécia, obscuro canta

Baco divino.

Aquele inteiro Portugal,

Que, universal perante a Cruz,

Reza, ante à Cruz universal,

Do Deus Jesus.

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