Posts Tagged ‘ José Bento ’

O enterro do senhor de Orgaz

O enterro do senhor de Orgaz - El Greco - 1586

O enterro do senhor de Orgaz - El Greco - 1586

O enterro do senhor de Orgaz

 

“Vê, meu filho: estes olhos sem fundo
fitando o caminhante que este quadro contempla
enquanto apontas aquele corpo alado,
o nobre corpo alado entre rostos e mãos,
são os teus.
Tu és este menino
senhoril e assombrado diante dos senhores.

No teu lenço, minha firma e uma data;
na língua antiga dessa ilha secreta
que me sagrou na luz que não virá ungir-me
escrevi claramente:
“domeniko theotokópoli o fez
1578”.
Não este quadro mas a ti, nesse ano.
Proclamo assim no rigor desta linguagem,
pertença minha como de ninguém,
que te amo sobre todas as coisas:
és a obra mais sonhada e mais gerada
em mim, que existo para minhas obras.

És tão pequeno, não sei quem irás ser,
talvez não te distingas entre quem é turba
e de ti falem só por seres meu filho,
tenham tua face porque segunda vez
te dou a vida neste painel sem preço,
sustendo aí tua carne e sua graça
quando nem se suspeite o lugar de tuas cinzas.

Estes traços e cores, o vasto alento
que de mim pus neste espaço fugaz
irão levar-me longe, onde serei falado
por gentes de hoje que jamais verei,
por outras que o futuro há-de trazer-me.
Mas tu és o meu júbilo íntimo,
a mão que estreito, o corpo que adormeço
enquanto eu vivo for, corpo de mim.

Que me importa a minha obra,
importando-me muito mais que tudo, sempre,
que me dá o meu génio, dando tanto,
– se valores vãos contigo comparados,
embora os louve para dourar meu vazio?

Minha sombra ir-se-á puindo como sombra,
de nada servirá minha ambição
de querer permanecer e eternizar-me
contra o tempo feroz, dissimulado.

Alguns séculos que resistam minhas telas
ante a erosão dos juízos e dos astros
serão apenas um soluço irremível.
Mas em ti continuarei, no testemunho
que entregarás aos filhos dos teus filhos,
que o perpetuem de geração em geração:

em sua palavra em sangue a ansiar vida,
no que de ínfimo façam, pois o homem
– seja quem for – só faz coisas mesquinhas,
estarei, então um nome, ou já nem isso.

Tudo o que não sejas tu agora é nada.

in Silabário, de José Bento – Relógio D’Água, 1992

Anúncios

Legenda para uma fotografia


Como diluir as estrias que traem tua idade
ao irromper do que não queres lembrar,
a não ser quando tudo te repudia tanto
que em ti embebes as tuas espadas,
ansiando remir o que não clama resgate?
E ris, sorris: corola vesperal a desfolhar nas faces
um esmalte falaz que teus olhos recusam.

Injuria-te a luz, embora te defendas
num recanto que as lâmpadas receiam:
aí a música amaina, extenuada,
permite que te envolva
uma outra que de ti se evola
num tempo de que foste expulsa.

    Não são máscaras esse carmim viscoso,
    os cabelos sufocados em adornos grotescos
    e em tinta,
    o debrum crepuscular das pálpebras,
    a cilada sedenta de uma boca
    constrangida a abdicar da força da mentira.
    São em ti apelos transparentes:
    por eles te denuncias e somente
    suplicas ser, sem precisares depor
    sobre teus desígnios, teus actos.

    Que poderás dizer que todos não saibam?
    O que és não o partilharás ao exprimi-lo.
    Tuas palavras para os outros significam
    o mesmo que silêncio. E os teus gestos
    só para ti vertem um conteúdo.

    Mas reges a magia de discretos sinais:
    uma pulseira que distancia tua mão, um aroma
    a convidar para um quarto clandestino,
    um leque a ondular sobre o teu peito
    o adejo de uma dança nupcial.

    Detém-te nesse lugar, se ninguém te convida.
    Na noite, tua cama pródiga, um esquife
    que te espera sem pressa.
    Goya ou uma objectiva cruel
    iludem-se quando tentam perpetuar-te
    ao tornar-te motivo de uma tela
    tão perecível como tu.

    Mas de nada te acusam:
    apontam-te ao meu discurso desatento,
    a alguém que deseje
    conhecer o corpo turbado que dissipas.

    Poema de José BentoSilabário
    Fotografias de Pierre Molinier

    demonstração do resultado do exercício

    Salmo XXVI – in “Heráclito Cristiano y Segunda Arpa a Imitación de David”, de Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645), seguido de tradução de José Bento in “Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX” | Gravura de José de Ribera: São Jerónimo e o Anjo, 1626

    Después de tantos ratos mal gastados,
    tantas obscuras noches mal dormidas;
    después de tantas quejas repetidas,
    tantos suspiros tristes derramados;

    Después de tantos gustos mal logrados
    y tantas Justas penas merecidas;
    después de tantas lágrimas perdidas
    y tantos pasos sin concierto dados,

    Sólo se queda entre las manos mías
    de un engaño tan vil conocimiento,
    acompañado de esperanzas frías.

    Y vengo a conocer que en el contento
    del mundo, compra el Alma en tales días,
    con gran trabajo, su arrepentimiento.

    Depois de tantos dias esbanjados,
    tantas escuras noites mal dormidas;
    depois de tantas queixas repetidas,
    tantos suspiros tristes derramados;

    depois de tantos gozos malogrados
    e tantas justas penas merecidas;
    depois de tantas lágrimas perdidas,
    de tantos passos sem acerto dados,

    resta apenas em minhas mãos esguias
    de um engano tão vil conhecimento,
    acompanhado de esperanças frias.

    E sei enfim que, no contentamento
    do mundo, a alma compra nesses dias,
    com grande esforço, seu arrependimento.

    José Bento

    Na última vez que nos cruzámos, José Bento confessava que dificilmente voltaria a Dom Quixote.
    Traduzir uma obra destas, mais que hercúlea, é uma tarefa impossível; sempre que lhe pegasse, alteraria qualquer coisa

    Seis meses depois, é com grande satisfação que recebo a notícia da atribuição do Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura ao roncinante amigo.

    Como pequena homenagem, ficam os links para alguns poemas de José Bento publicados no Luminescências:
    Este mar me detém, mas nunca saberei…
    Como diluir as estrias que traem tua idade…
    Para Botticelli
    Porque o Fim de um Caminho…

    Sobre as duas traduções de Don Quijote de la Mancha, escreveu João Dionísio da Universidade de Lisboa:

    Em síntese, as duas traduções parecem orientar-se de modo bastante diferenciado nas duas facetas observadas. Quanto ao Quixote de 1605, o texto de que parte a tradução de Serras Pereira será talvez mais inovador e o de José Bento possivelmente mais conservador. Quanto ao código bibliográfico, a roupagem da tradução Serras Pereira quer dar a entender que estamos perante um documento com certificado de origem, ou de uma certa origem; a da tradução José Bento sugere um texto com certificado de destino.

    Legenda para uma fotografia

    Como diluir as estrias que traem tua idade
    ao irromper do que não queres lembrar,
    a não ser quando tudo te repudia tanto
    que em ti embebes as tuas espadas,
    ansiando remir o que não clama resgate?
    E ris, sorris: corola vesperal a desfolhar nas faces
    um esmalte falaz que teus olhos recusam.

    Injuria-te a luz, embora te defendas
    num recanto que as lâmpadas receiam:
    aí a música amaina, extenuada,
    permite que te envolva
    uma outra que de ti se evola
    num tempo de que foste expulsa.


    Não são máscaras esse carmim viscoso,
    os cabelos sufocados em adornos grotescos
    e em tinta,
    o debrum crepuscular das pálpebras,
    a cilada sedenta de uma boca
    constrangida a abdicar da força da mentira.
    São em ti apelos transparentes:
    por eles te denuncias e somente
    suplicas ser, sem precisares depor
    sobre teus desígnios, teus actos.

    Que poderás dizer que todos não saibam?
    O que és não o partilharás ao exprimi-lo.
    Tuas palavras para os outros significam
    o mesmo que silêncio. E os teus gestos
    só para ti vertem um conteúdo.

    Mas reges a magia de discretos sinais:
    uma pulseira que distancia tua mão, um aroma
    a convidar para um quarto clandestino,
    um leque a ondular sobre o teu peito
    o adejo de uma dança nupcial.

    Detém-te nesse lugar, se ninguém te convida.
    Na noite, tua cama pródiga, um esquife
    que te espera sem pressa.
    Goya ou uma objectiva cruel
    iludem-se quando tentam perpetuar-te
    ao tornar-te motivo de uma tela
    tão perecível como tu.

    Mas de nada te acusam:
    apontam-te ao meu discurso desatento,
    a alguém que deseje
    conhecer o corpo turbado que dissipas.

    Poema de José BentoSilabário
    Fotografias de Pierre Molinier

    A não perder – O cavaleiro da triste figura..

    José Bento vai estar presente hoje na Feira do Livro, para autografar a sua última menina dos olhos!
    Quem puder.. aproveite!
    Parece curiosa a comparação entre as duas monumentais edições de Don Quixote de Cervantes, agora disponíveis.

    A de José Bento, com ilustrações de Lima de Freitas, editada pela Relógio D’ Água, e a de Miguel Serras Pereira, com ilustrações de Salvador Dalí, edição da Dom Quixote.
    Mais sobre a obra, aqui!

    Verei por ti

    Unamuno e Gustavo Adolfo Bécquer representam dois dos expoentes da poesia espanhola do final do século XIX. Inicia-se com eles o Modernismo, que em Portugal principiou com a revista Orpheu (em 1915).
    Contudo, Miguel de Unamuno não encaixava no Movimento; exaltava a pátria, a sua Espanha que lhe doía.

    Verei por ti ilustra a grandeza espiritual deste poeta.

    «Desconheço-me», dizes, mas olha, tem por certo
    que a conhecer-se começa o homem quando clama
    «Desconheço-me» e chora;
    a seus olhos então o coração aberto
    da sua vida encontra a verdadeira trama;
    é então sua aurora.

    Não, ninguém se conhece, até que o toca
    a luz de uma alma irmã que do eterno chega
    e seu fundo ilumina;
    teu íntimo sentir floresce em minha boca,
    tens a vista em meus olhos, vê por mim, minha cega,
    vê por mim e caminha.

    «Estou cega», dizes-me; apoia-te em meu braço
    e alumia com teus olhos nossa áspera via
    perdida no futuro;
    verei por ti, confia; tua vista é este laço
    que a ti me atou; meu olhar a garantia
    de um caminhar seguro.

    Que importa que os teus não vejam o caminho,
    se dão luz aos meus e me iluminam todo
    com seu tranquilo lume?
    Apoia-te em meus ombros, confia-te ao Destino,
    verei por ti, ó cega, afastar-te-ei do lodo,
    levar-te-ei ao cume.

    E ali, na luz envolta, abrir-se-ão teus olhos,
    verás como esta senda atrás de nós, distante,
    se perde na distância
    e nela desta vida os míseros restolhos,
    e aos reflexos do céu abrir-se-nos, radiante,
    o que hoje é esperança.

    Miguel de Unamuno (1864-1936)
    in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
    Selecção e tradução de José Bento

    Anúncios
    %d bloggers like this: