Takk*, Sigur Rós

Hoje é um dia especial para mim.


Primeiro, porque é dia de culto.

O culto da melancólica sonoridade dos Sigur Rós, em concerto esgotado, no Coliseu de Lisboa.

Em segundo lugar, porque é absolutamente extraordinária a precisão do momento em que ocorre.

É como que, inconscientemente, aguardasse esta espécie de ritual iniciático há muito tempo – e, uma vez em estado de graça – à espera que eles descessem à terra, para meu deleite.

Em Setembro, quando o disco* foi editado e aqui fiz referência ao concerto da noite de hoje, o vocalista Jon Thor Birgisson revelava ao DN que o “interesse pela música e pela criação de sons por parte da banda inscreve-se entre certas frequências e certos campos. É entre esses campos que queremos experimentar e creio que o nosso som é bastante claro.”

Tenciono falar do concerto.. espero.. se conseguir encontrar as palavras..

*Obrigado.

a procissão das almas.. com som.. sem imagens..

Num tempo de grande profusão de música formatada, é purificador ouvir uma bizantice.
Tantos séculos! de cultura europeia não devem ser esquecidos.

De 1600 a 1830 – ano da construção do novo Estado grego -, muitos compositores vieram enriquecer de importantes obras o património musical da Igreja ortodoxa.
Viviam sobretudo nos mosteiros do Monte Athos, em Creta, onde trabalhavam como cantores nas igrejas do patriarcado de Constantinopla.
Por volta de 1730, a Igreja de Santo Constantino teve a sorte de ter como protopsalt (cantor principal) Petros Bérékétis, o maior compositor da idade de ouro da música Bizantina (século XVIII).
A existência deste compositor marcou – do ponto de vista da história musical e artística – a renascença do mundo grego, após quatro séculos de ocupação otomana, como grandiosamente sublinhou Delacroix em O Massacre de Chios.
Petros conseguiu uma brilhante fusão entre a tradição bizantina na música sacra dos séculos XIII e XIV com a então novel música de origem oriental.

 

ensemble-theodore-vassilikos-petros-bereketis


Le Grand Chant Octotonal à la Vierge Marie, obra de grande envergadura e absolutamente única em toda a literatura musical bizantina, está destinada a ser interpretada durante a missa especial da “fraction du pain”.

As oito composições representam os oito modos da música bizantina; cada modo termina numa katrima, a improvisação melódica que serve de introdução ao modo seguinte:

1 – Sainte Vierge, Mère de Dieu (1er mode)
2 – Salut à toi qui es pleine de grace (2ème mode)
3 – Marie, le Seigneur est avec Toi (3ème mode)
4 – Tu es bénie entre toutes les femmes (4ème mode)
5 – Béni soit (1er mode plagal)
6 – Le fruit de tes entrailles (2ème mode plagal)
7 – Car tu as fait naître (mode dit ‘lourd’)
8 – Le Sauveur de nos âmes (4ème mode plagal)

Ensemble Théodore Vassilikos / Pétros Bérékétis
Duração: 58:10
Ano: 1982
Editora – Ocora C 558682 / distribuição – Harmonia Mundi

Amor vivo

Amar! mas dum amor que tenha vida…
Não sejam sempre tímidos arpejos,
Não sejam delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida…

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –
Mas amor… dos amores que têm vida…

Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços,
Com névoa da vaga fantasia…

Nem murchará do Sol à chama erguida…
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores… se têm vida?

Poema de Antero de Quental
Desenho de William Blake – O Vendaval dos Amantes, 1824-27

Comboio e Natureza – I

O Projecto Comboio e Natureza – resultado de um protocolo de colaboração entre a CP-Comboios de Portugal e a Liga para a Protecção da Natureza – visa estimular a descoberta das áreas naturais do país como espaços de turismo, bem como a adopção de comportamentos ambientalmente sustentáveis, através de percursos terrestres em combinação com o uso da bicicleta.

Existem neste momento três rotas naturais:

Da Linha do Douro ao Parque do Douro Internacional, Entre o Mar e a Terra
De comboio a caminho do Sado
Da Linha Azul às Planícies de Castro Verde

En uno de los repliegues de ese terreno se ocultan los hondos tajos, las encrespadas gargantas, los imponentes cuchillos,
los erguidos esfayaderos, bajo los cuales, allá, en lo hondo, vive y corre el Duero.

D. Miguel de Unamuno, “Las Arribes del Duero”

No Nordeste Transmontano, os passeios pedestres e de bicicleta são o ponto de partida para descobrir a fronteira natural entre Portugal e Espanha.

Na primeira etapa, parte-se de comboio desde o Porto – pela margem do Douro, onde as quintas e os solares rodeados de vinhas, são molduras vivas na paisagem – até ao Pocinho.


A
segunda etapa, de bicicleta, tem três destinos possíveis: Miranda do Douro, Freixo de Espada à Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo.

Os caminhos pedestres serão: entre Miranda do Douro e São João das Arribas; entre o Vale da Ribeira do Mosteiro a partir de Freixo de Espada à Cinta; o último, entre a Albufeira de Santa Maria de Aguiar e Santo André das Arribas.

O Vale do Douro, com as suas arribas rochosas, é muito rico em flora e fauna. Os quatro concelhos assinalados no mapa representam 86 mil hectares e incluem nos seus limites 44 povoações, num total aproximado de 30 mil habitantes.

A actividade agrária constitui a parte em que o homem participa – com os amendoais, os olivais, as vinhas e as searas – no desenho da paisagem.
O património cultural é ainda enriquecido com o artesanato e o dialecto mirandês.

Da comunidade de aves , têm aqui o seu habitat: a cegonha preta, o grifo, a águia-real, o milhafre-real e o abutre do Egipto; Alimentam-se nos campos de cereal, nos lameiros, nos soutos, nos carvalhais, nas vinhas e nos bosques de azinheira, em duas unidades ecológicas distintas: as arribas e as planícies.

As caminhadas – calmas, como convém – requerem apenas um par de botas e uma bicicleta apropriadas.
Acessórios como binóculos e/ou máquina fotográfica são essenciais, também.

Festa da música – Guimarães Jazz 2005

No Grande Auditório da Universidade – com acústica renovada, segundo um amigo – e para quem tenha oportunidade, a não perder:

Amanhã – Art Ensemble Of Chicago

O programa completo pode ser consultado aqui.

Via Improvisos Ao Sul

A minha vida dava um filme porno – II


Senhor Procurador Geral da República:
Suponha que vivemos num Estado de Direito, onde as decisões dos Tribunais devem ser respeitadas.

Suponha ainda que todos os cidadãos são formalmente iguais perante a Justiça.
Agora, suponha que os portugueses esperam que o senhor dê voz à sua indignação, quando vêm os valores sociais esbulhados de tal forma que sentem vergonha do seu país!
Continua a entender que é simplesmente “uma questão que tem a ver com os cidadãos” e não consigo?

“Isso é uma questão que tem a ver com os cidadãos e não comigo”
Souto Moura, Procurador Geral da República,
confrontado com a possibilidade de os cidadãos ficarem perplexos com esta interpretação da lei.

“Alguém estaria à espera que eu dissesse que o estado da Justiça é bom?
Suponho que ninguém está à espera disso”
Souto Moura, Procurador Geral da República

Novembro de 2005:

O Tribunal da Relação de Guimarães deu provimento ao recurso de Fátima Felgueiras, pedindo a anulação dos depoimentos de três arguidos e das escutas telefónicas constantes no processo.

Grande contrariedade para a senhora, que desejava que o julgamento começasse já, uma vez que tem pressa em demonstrar que é inocente!

Esta anulação – oh que surpresa! – obriga à correcção do despacho de pronúncia e deverá originar nova fase de instrução!

Uma coisa é certa: o início do julgamento, inicialmente agendado para o final de Outubro.. será lá para as calendas gregas!

A expectativa sobre o próximos capítulos reside em:
– saber se os três arguidos e ex-colaboradores de Fátima Felgueiras – Domingos Bragança, Horácio Costa e Joaquim Freitas – resistem às pressões de que têm sido alvo desde 2003.
– saber qual o papel que tem nesta história o alto-quadro do Ministério Público, suspeito de exercer pressões sobre as testemunhas e de conivência com a senhora.
– saber qual é o papel da Procuradoria Geral da República, pois tinha conhecimento das alegadas pressões, que deram origem à investigação do saco azul do Partido Socialista.
– saber qual é o papel do Tribunal da Relação de Guimarães, que hoje mesmo anulou a parte do julgamento em que Fátima Felgueiras havia sido condenada por difamação a Horácio Costa por, entre outras coisas, considerar que as expressões patife, sem coragem, sem vergonha e sem escrúpulos, sem estrutura e dignidade, um verdadeiro terrorista– usadas contra o ex-colaborador no decurso da entrevista ao Comércio do Portofazem parte do vocabulário normal, consagrado e aceite na disputa política nacional”!!

Continua.. mas ninguém sabe quando..

Malgré triste.. le clair de lune existe..

Tristesses de la Lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse,
Ainsi qu’une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d’une main distraite et légère caresse
Avant de s’endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l’azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poête pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d’opale,
Et la met dans son cœur loin des yeux du soleil.

Baudelaire

À luz de Einstein


A Exposição – até 15 de Janeiro de 2006 na Fundação Calouste Gulbenkian – pretende sensibilizar os visitantes para a Física e a ciência em geral, contribuindo para o esclarecimento do público, sobretudo os jovens, quanto ao papel determinante da Física para a compreensão do mundo em que vivemos e para o desenvolvimento tecnológico das sociedades modernas.

Nesta exposição, o visitante é convidado a fazer uma viagem pelos conceitos da física, antes e depois de Einstein, em torno dos temas da luz e da matéria.
O percurso inicia-se com uma introdução à história da física, percorrendo as grandes etapas, desde os gregos até 1905.
Em homenagem a Einstein será recriado o ambiente da sua casa, com referência aos momentos marcantes do seu trabalho científico e alguns apontamentos sobre a sua vida pessoal.

Serão ainda abordados numa perspectiva evolutiva os conceitos relacionados com a compreensão da luz, electricidade, magnetismo, matéria e movimento, de 1905 até à actualidade, bem como o seu impacto tecnológico e cultural no mundo de hoje.
Finalmente, percorre-se um espaço de conjecturas quanto ao futuro.

1 – A BIBLIOTECA DO SABER

Desde os primórdios da civilização que o Homem se interroga sobre o que é o Céu, a Terra, o espaço, o tempo, a matéria, a luz… O visitante é aqui conduzido por um percurso através de 2400 anos de interrogações sobre o mundo físico, dos gregos até ao tempo de Einstein. Apresentam-se seis espaços – representados por seis filósofos da natureza/cientistas, bem como um conjunto de objectos emblemáticos da forma de fazer ciência que lhes estão associados.
Os espaços seleccionados conduzem do liceu aristotélico à universidade medieval, a uma corte renascentista, a uma sociedade científica, a um gabinete de física e, finalmente, a uma universidade do século XIX.

2 – A RUPTURA 1905

Este espaço é dedicado à vida e obra de Albert Einstein, em particular aos seus trabalhos seminais de 1905.

Nestes artigos, Einstein desenvolveu a teoria do efeito fotoeléctrico, dando vida ao conceito de fotão como partícula de luz, a teoria do movimento browniano, que permitiu provar a existência real de átomos, e a teoria da relatividade restrita, que alterou profundamente as concepções de espaço e de tempo e demonstrou a equivalência entre massa e energia, expressa na mais famosa fórmula da física, E=mc2.

Em 1905, Albert Einstein publica os seus primeiros trabalhos sobre a análise matemática do movimento de Brown, o efeito fotoeléctrico, o estabelecimento da equivalência massa-energia e a exposição dos fundamentos da teoria especial (ou restringido) da relatividade.
Explicava a sua teoria com uma comparação retirada do quotidiano: “uma hora com uma jovem e bela mulher passa como um minuto, mas um minuto sobre um forno quente parece uma hora”.

A distância não é uma grandeza absoluta – depende do movimento do corpo em relação a um dado sistema de referência.

Estes temas vão impulsionar uma mudança espectacular e revolucionária da concepção do mundo físico baseado na geometrização espácio-temporal da física moderna.
A partir de 1910 aprofunda a Teoria da Relatividade e, em 1916, publica o resultado dos seus esforços.
Recebe o Prémio Nobel de Física em 1921.

3 – O MUNDO DOS ELECTRÕES


Quando já muitos pensavam que a física estava acabada, após a unificação da electricidade e do magnetismo de Maxwell, fenómenos misteriosos revelaram um admirável, mas estranho, mundo microscópico.


É no desvendar de um destes mistérios, os raios catódicos, que J. J. Thomson, no fim do século XIX, descob
re a existência do electrão.

Com ele, e alguma mecânica quântica, se iniciou a revolução electrónica, fortemente impulsionada a meio do século XX com a descoberta do transístor e a invenção do circuito integrado.

Essa minúscula partícula carregada, “operário incansável” dos nossos dispositivos electrónicos, é também a onda que permite ver nos microscópios electrónicos.

4 – A CÂMARA DE LUZ

Depois de ter criado o conceito de fotão em 1905, Einstein propôs, em 1916, o mecanismo de emissão estimulada de radiação, uma espécie de clonagem perfeita de fotões, que deu origem à invenção dos lasers nos anos 50.

A nova luz tornou-se uma ferramenta crítica do desenvolvimento tecnológico das sociedades modernas.

Recriando o ambiente de um laboratório moderno de lasers, este espaço é dedicado à exploração das propriedades da luz, da geração de luz laser, passando pela detecção e transmissão de luz visível ou invisível, até ao armazenamento e codificação da informação que pode transportar.

5- FÍSICA EM TODA A PARTE



Conversar por telemóvel, usar um computador portátil ou tirar fotografias digitalizadas são actividades comuns da vida moderna.

E, no entanto, seriam impossíveis se a física, com as suas ondas e partículas, com os seus átomos, electrões e fotões no espaço-tempo, não estivesse por trás delas.

Aqui, partimos à descoberta da física numa viagem pelo quotidiano, investigamos as suas aplicações na cultura e nas comunicações, e podemos ser apresentados ao bit da sociedade de informação.

6 – LUZ SOBRE A VIDA



Hoje a medicina recorre cada vez mais à física e à engenharia.


Com luzes visíveis ou invisíveis e aparelhos de medida e tratamento de informação que a física moderna permitiu desenvolver, conseguimos observar a anatomia e a actividade de órgãos, tecidos e artérias no interior do corpo humano, perceber as suas funcionalidades, diagnosticar doenças, por vezes tratar e curar.


Medindo sinais de oscilações de substâncias químicas e correntes eléctricas, estamos também a aprender como é que os sentidos captam informação e o cérebro a processa. Começamos a desvendar a mente.


7 – LUZ SOBRE O COSMOS


Se na antiguidade os Céus eram olhados como perfeitos, intocáveis e incorruptíveis, a ciência trouxe ao Homem a possibilidade de desvendar a verdadeira estrutura e composição do Universo.

Aprendemos a medir a abundância primordial dos elementos, a radiação cósmica de fundo e a aceleração das galáxias para descobrir que o Universo está em expansão, desde o Big Bang que foi a origem do espaço-tempo.

Entendemos a formação e a composição das estrelas e a estrutura das galáxias.
Descobrimos planetas extra-solares. Voámos para o espaço para daí observar a Terra.

Colóquios “à luz de Einstein, 1905-2005”

9 de Novembro – As forças da Natureza
João Paulo Silva, Instituto Superior de Engenharia de Lisboa

16 de Novembro – E=mc2: energia do núcleo atómico
Duarte Borba, Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa

23 de Novembro – Sinais do Cérebro: da biofísica à fisiologia da consciência
Fernando Lopes da Silva, Universidade de Amsterdão

30 de Novembro – O mistério da forma das proteínas
Patrícia Faísca, Centro de Física Teórica e Computacional

7 de Dezembro – Estados estranhos da matéria: condensados de Bose-Einstein
Margarida Telo da Gama, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa

13 de Dezembro – 2010, a Nanospace Odyssey
Harold Kroto, Florida State University, USA [Prémio Nobel]

Fonte: Fundação Calouste Gulbenkian

Blog do dia.. todos os dias!

Fonte: Revista os meus livros, Novembro de 2005

Don`t give up, baby!

Zeus disfarçado de cisne seduz Leda

El cisne en la sombra parece de nieve;
su pico es de ámbar, del día al trasluz;
el suave crepúsculo que pasa tan breve
las cándidas alas sonrosa de luz.

Y luego, en las ondas del lago azulado,
después que la aurora perdió su arrebol,
las alas tendidas y el cuello enarcado,
el cisne es de plata, bañado de sol.

Tal es, cuando esponja las plumas de seda,
olímpico pájaro herido de amor,
y viola en las linfas sonoras a Leda,
buscando su pico los labios en flor.

Suspira la bella desnuda y vencida,
y en tanto que al aire sus quejas se van,
del fondo verdoso de fronda tupida
chispean turbados los ojos de Pan.

Rubén Darío, 1982

François Boucher – Leda e o Cisne, 1741