Archive for the ‘ Pintura ’ Category

A uma rapariga

A Nice

Abre os olhos e encara a vida! A sina

Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!

Por sobre lamaçais alteia pontes

Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada de vida que fascina

Caminha sempre em frente, além dos montes!

Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!

Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,

Escava com as mãos a própria cova

E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,

Da graça do teu corpo, esguia e nova,

Surgir à luz a haste de uma flor!…

Poema de Florbela Espanca

Gravura de Artur Bual, para Florbela Espanca – 1996

A esperança num futuro intemporal

Antes que tú me moriré: escondido
en las entrañas ya
el hierro llevo con que abrió tu mano
la ancha herida mortal.
Antes que tú me moriré: y mi espíritu,
en su empeño tenaz,
sentándose a las puertas de la muerte,
allí te esperará.
[…]
Allí donde el sepulcro que se cierra
abre una eternidad…
¡ Todo lo que los dos hemos callado
lo tenemos que hablar !

Antes de ti eu morrerei: oculto
no peito levo já
o ferro com que tuas mãos abriram
larga ferida mortal.
Antes de ti eu morrerei; meu espírito,
num anseio tenaz,
ante as portas da morte irá sentar-se,
a esperar-te lá.
[…]
Ali onde o sepulcro que se fecha
abre uma eternidade…
Tudo quanto nós dois sempre calámos
teremos de falar!

Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870) – Rimas – XXXVII | Tradução de José Bento

O uso das palavras obscenas

Desmedido eu que vivo com medida
Amigos, deixai-me que vos explique
Com grosseiras palavras vos fustigue
Como se aos milhares fossem nesta vida!
Há palavras que a foder dão euforia:
Para o fodedor, foda é palavra louca
E se a palavra traz sempre na boca
Qualquer colchão furado o alivia.
O puro fodilhão é de enforcar!
Se ela o der até se esvaziar: Bem.
Maré não lava o que a arvore retém!
Só não façam lavagem ao juizo!
Do homem a arte é: foder e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso).

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

com 38º é difícil suportar a roupa..

Balthus – Nude with Arms Raised, 1951

A essência do Mal



William Blake

The Great Red Dragon and the Woman Clothed in Sun

c. 1806-1809 / Watercolor / 34.3 x 42 cm

Brooklyn Museum, New York

gosto da luz.. e da energia!

The Geographer - Jan Vermeer, 1668-1669. Stadelsches Kunstinstitut, Frankfurt am Main

Poema de Amor de António e de Cleópatra

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Desespero

Não eram meus os olhos que te olharam

Nem este corpo exausto que despi

Nem os lábios sedentos que poisaram

No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram

Tua falsa beleza, em que não vi

Mais que os vícios que um dia me geraram

E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu

Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,

Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.

A voz com que te chamo é o desencanto

E o espermen que te dou, o desespero.

Poema de José Carlos Ary dos Santos

Gravura de Artur Bual

Esperança

Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que ouve apenas o eco…
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio dum vinho herético e sagrado. 

Miguel Torga

‘Lunch at the Restaurant Fournaise (The Rowers’ Lunch)’, de Pierre-Auguste Renoir

1922.437 - -Lunch at the Restaurant Fournaise (The Rowers'...

Pierre-Auguste Renoir [1841-1919] – The Canoeists Luncheon, 1879-80