Archive for the ‘ Pintura ’ Category

As Banhistas, de Ingres

Jean-Auguste-Dominique Ingres ( 1780-1867), que elegeu este tema como um dos seus favoritos, expôs a sua obra em simultâneo com o trabalho de Delacroix descrito no post anterior, no Salão de Paris de1824. Para sua surpresa, foi aclamado como um dos artistas que se opunham ao Novo Romantismo.


A Banhista, 1808

Neste seu primeiro estudo sobre o nú feminino, o apelo estético reside na monumentalização da figura individual.


A Grande Odalisca, 1814

“Quanto mais simples forem as formas, maior a beleza e a força.”


O Banho Turco, 1862

Nesta obra-prima realizada nos últimos anos de vida, Ingres retoma as banhistas e odaliscas dos primeiros anos. Os motivos para estas formas femininas idealizadas que vivem apenas para a beleza e prazer, são baseados em relatos pormenorizados do oriente – descrições sobre os banhos no harém de Maomé – e as cartas onde Lady Montagu descreve os banhos turcos.

Pela beleza abstracta, a magnífica pele branca como leite, as formas graciosas dos seus corpos e os seus cabelos e pela sua sensualidade, as banhistas possuem uma inocência paradisíaca, sem gestos ou comportamentos indecorosos entre si.
A beleza intangível das mulheres – suspensa no tempo – é obtida com grande economia de meios, através dos subtis jogos de luz que lhes moldam as formas e a pele.

O décimo terceiro soneto

Sculpteur au Repos avec Modèle démasqué et sa Représentation sculptée, 1933

A palavra por que tanto me ralhaste
Vem do florentino. Fica é chamado
Aí o sexo da mulher. De traste
O grande Dante foi então apodado
Porque usou a palavra no poema
Foi injuriado, li hoje como fora
Pelo figo de Helena Páris outrora
(Mas este tirou mais proveito do esquema!)

Agora vês, que até o sombrio Dante
Se envolveu na disputa, que porfia
Por figo que afinal só se aprecia.
Não é só em Maquiavel que se proclama:
Na vida e no livro como é marcante
A briga pela parte que tem justa fama.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

O brilho da arte de Bosch.. no declínio da Idade Média

“A glória a que aspiro é a de ter vivido tranquilo […] sendo a filosofia incapaz de mostrar o caminho que conduz ao repouso da alma que a todos convém, que cada qual por seu lado o procure.”

Michel Eyquem de Montaige – Ensaios

Hieronymous Bosch | Triptico: The Temptation of St Anthony, c. 1500

Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Paixão eterna pelos demónios, pelo castigo físico e pela tentação da carne

Os heróis espirituais de Bosch eram os santos que suportavam a tortura física e psicológica e contudo permaneciam firmes. Entre estes, o seu favorito era Santo António, o tema deste tríptico.
Os trípticos de Bosch mostram-nos um mundo de sonhos e pesadelos e dão-nos uma ideia das fobias dos homens da Idade Média. As suas telas, carregadas de demónios, animais e pássaros bizarros, figuras meio homem meio bicho, cujas formas parecem brilhar e transformar-se perante os nossos olhos, revelam o lado mórbido das pestes, das guerras e do sobrenatural. Do realismo das criaturas imaginárias releva a sua convicção absoluta de que elas existiam mesmo! As imagens dos pesadelos parecem possuir um poder surrealista inexplicável! Bosch era considerado um surrealista do século XV, apenas um inventor de monstros e quimeras e as suas pinturas como fantasias milagrosas e estranhas, causando uma impressão de horror em lugar de agradável. A sua intenção não era dirigir-se ao consciente do observador mas, pelo contrário, transmitir-lhe uma certa verdade moral e espiritual, daí os seus quadros possuirem um significado preciso e premeditado.

Da vergonha na mulher

Sculpteur au Repos avec Marie-Thérèse et sa Représentation en Vénus pudique, 1933

Detesto se a mulher é de demorar
Gosto daquela, que sôfrega permita
Consolar-se logo, a vergonha expedita
Entre sedenta e esquiva sempre a arfar.
Mudá-la deve o acto desde os fundos
Até à distorção! Os corpos em rodopio
Estejam nos homens e no mulherio
Longe as cabeças como em dois mundos.
Vergonha a mais para lançar mão à carne
Do homem, prazer demais para que desarme
Julgue-se a mulher pelo metro do prazer.
Boa demais, para sentir na espera
Sôfrega demais, para não tomar o que quisera
É-lhe permitido o tino perder.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Soneto dum coito mediano

Os princípios morais ligados ao simbolismo da sexualidade são apenas uma questão de reflexo condicionado, fruto das regras e valores que ditam as diferenças culturais entre indivíduos do mesmo grupo.
A sua partilha deve tender para os tornar naturais, deixando assim, na minha perspectiva, de ser relevante a questão moral. Resta pois a questão estética e o seu simbolismo.
Identificar os traços que permitem definir uma obra como arte fazem parte de um processo cognitivo, com o qual aprendo a caracterizar a natureza simbólica de uma obra, se tem ou não valor estético.
Este caminho é solitário e mais difícil, pois consiste no desafio de saber justificar o meu juízo de valor sobre se um texto ou uma imagem são ou não obscenos, são ou não arte.
Vamos lá, então:

Scène bacchique au Minotaure, 1933

Até poder ter-te onde já canta
Espero que sejas a última jogada
E um pouco mais húmida que a outra, amada
(Ai, ainda é a esperança que na cova nos planta!)
Vejo que vai dar. Espero: devagar
Pensar nisso é doravante sina
Boa: menos amor, menos vaselina
E ela dá-me agora o coiro a suar
Com um cavalo, ai, foste conferir-me
Há cinco minutos, estou-me a cagar!
E enquanto cismo, para digerir e vir-me
Não sou o Emílio, que estás a chamar
Estou-me nas tintas, da mais alta gama
Com suor do rosto me faço a cama

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Sublimação!

Que forma tão sentida de admirar a Renascença e os seus vultos!

Sandro Botticelli (1445-1510) – Giovanna degli Albizzi Receiving a Gift of Flowers from Venus – 1486 – Fresco destacado e colocado em tela – 211 x 284 cm – Museu do Louvre, Paris

 

Para Botticelli

Pressinto que o mundo cresce de teus dedos
quando num clarão mortal se rasgam asas
e faces lívidas de anjos
choram suas raízes arrancadas do chão.

Quando o vento grita em teus cabelos
que não é o mar a seara que se ondula.

Quando um perfil destrói em si a noite
e o teu peito,
onde límpida era a sua côr.

Quando uma árvore frutifica a sua solidão
e se ilumina
com um súbito canto
ou um vulto quase irreal de ser tão breve.

Quando, de olhos sangrentos,
sentes nitidamente o anoitecer
e exausto abandonas a cabeça a mãos ausentes:
náufrago de veias que prolongam a terra,
transfigurado no rosto
onde a manhã te anuncia o seu regresso.

in Silabário, de José Bento

Da sedução dos anjos

Sculpteur avec un Groupe sculpté (Hommage à Carpeaux), 1934

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P’ra que do choque no fim te não caia.
Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –
Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Purificação da alma

Depois de ter sido preso e os seus desenhos eróticos com crianças terem sido queimados, o jovem Schiele, discípulo e amante de Gustav Klimt, para conseguir melhorar a sua reputação, casou-se, sendo Embrace dessa época.

Schiele e a sua também jovem mulher morreram ambos de doença no ano seguinte, com vinte e oito anos.

 

 

Egon Schiele - Embrace (Lovers II) , 1917

Egon Schiele - Embrace (Lovers II) , 1917


Óleo sobre tela – 100 x 170.2 cm – Galeria Osterreichische, Vienna

Soprava o vento pela fresta

Autoportrait Trois Formes – Peintre couronné, Sculpteur en Buste et Minotaure amoureux 1933
Autoportrait Trois Formes - Peintre couronné, Sculpteur en Buste et Minotaure amoureux 1933

Soprava o vento pela fresta
A menina comia nêspera
Antes de dar em segredo
O níveo corpo ao folguedo:
Mas antes provou ter tacto
Pois só o queria nu no acto
Um corpo bom como um figo
Não se vai foder vestido.
Para ela em tempos de ais
Nunca o gozo era demais.
Lavava-se bem depois:
Nunca o carro antes dos bois.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Dedicado às gentes do Território de Olivença

Barraw-on-Furness

I

Sou vil, sou reles, como tôda a gente,

Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.

Quem diz que os tem é como eu, mas mente.

Quem diz que busca é porque não os tem.

É com a imaginação que eu amo o bem.

Meu baixo ser porém não mo consente.

Passo, fantasma do meu ser presente,

Ébrio, por intervalos, de um Além.

Como todos não creio no que creio.

Talvez possa morrer por êsse ideal.

Mas, enquanto não morro, falo e leio.

Justificar-me? Sou quem todos são…

Modificar-me? Para meu igual?…

– Acaba lá com isso, ó coração!

II

Deuses, fôrças, almas de ciência ou fé,

Eh! Tanta explicação que nada explica!

Estou sentado no cais, numa barrica,

E não compreendo mais do que de pé.

Por que o havia de compreender?

Pois sim, mas também por que o não havia?

Água do rio, correndo suja e fria,

Eu passo como tu, sem mais valer…

Ó universo, novêlo emaranhado,

Que paciência de dedos de quem pensa

Em outra cousa te põe separado?

Deixa de ser novêlo o que nos fica…

A que brincar? Ao amor? à indiferença?

Por mim, só me levanto da barrica.

III

Corre, raio de rio, e leva ao mar

A minha indiferença subjetiva!

Qual “leva ao mar”! Tua presença esquiva

Que tem comigo e com o meu pensar?

Lesma de sorte! Vivo a cavalgar

A sombra de um jumento. A vida viva

Vive a dar nomes ao que não se ativa,

Morre a pôr etiquêtas ao grande ar…

Escancarado Furness, mais três dias

Te aturarei, pobre engenheiro prêso

A sucessibilíssimas vistorias…

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprêxo

(E tu irás do mesmo modo que ias),

Qualquer, na gare de cigarro aceso…

IV

Conclusão a sucata!… Fiz o cálculo,

Saiu-me certo, fui elogiado…

Meu coração é um enorme estrado

Onde se expõe um pequeno animálculo…

A microscópio de desilusões

Findei, prolixo nas minúcias fúteis…

Minhas conclusões práticas, inúteis…

Minhas conclusões teóricas, confusões…

Que teorias há para quem sente

O cérebro quebrar-se, como um dente

Dum pente de mendigo que emigrou?

Fecho o caderno dos apontamentos

E faço riscos e cinzentos

Nas costas do envelope do que sou…

V

Há quanto tempo, Portugal, há quanto

Vivemos separados! Ah, mas a alma,

Esta alma incerta, nunca forte ou calma,

Não se distrai de ti, nem bem nem tanto.

Sonho, histérico oculto, um vão recanto…

O rio Furness, que é o que aqui banha,

Só irônicamente me acompanha,

Que estou parado e êle correndo tanto…

Tanto? Sim, tanto relativamente…

Arre, acabemos com as distinções,

As subtilezas, o interstício, o entre,

A metafísica das sensações –

Acabemos com isto e tudo mais…

Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!



Poema de Álvaro de Campos

Gravuras de Bravo da Mata (1987, 1988 e 1994)