Archive for the ‘ Pintura ’ Category

as cores do dia, de van gogh

Se, em Starry Night – 1889,  os efeitos de luz conferem um brilho particular à noite, este Poet`s Garden – 1888 vive essencialmente da força da sombra do pinheiro, projectada sobre o casal enamorado. Encantadora, a harmonia entre as tonalidades mornas do caminho arenoso e os matizes mais saturados dos verdes e azuis , numa maravilhosa representação gráfica da vegetação. O génio de Vincent Van Gogh (1853–1890) está aqui bem presente, no modo como faz convergir as diagonais.

Vincent Van Gogh - O Jardim do Poeta, Outubro de 1888

Vincent Van Gogh - O Jardim do Poeta, Outubro de 1888

Consciência do Tempo, ou Tempo da Consciência

A arte de Kim Prisu, beirão a quem Torga certamente não chamaria “estrangeiro”, está na origem da nova figuração surgida nos idos de oitenta do século passado, em contraponto à tendência conceptual e minimalista que vinha da década de 60; Durante o período que passou em Paris, KIM PRISU desenvolveu a arte “Videomatik”, um universo de forte ressonância, enriquecido por uma multidão de Culturas urbanas e a doce violência da natureza do campo luminoso, o que conferiu à sua obra um forte contraste entre as cores duma sociedade de consumo (Eléctricas e saturadas) e as da Terra nutridora.

 

temporizei quantias de vezes - Kim Prisu, 2007

A sua obra está submetida a uma permanente transformação, existindo uma relação entre as tensões exteriores e interiores, a representação expressiva dos estados humanos, uma expressão de Médium, numa crítica das suas possibilidades artísticas e sociais. Poesia do efémero, ligação entre os elementos textuais que escapam a qualquer lógica evidente, poética fragmentária; conduzindo-se aos saltos, sendo por vezes contraditória da realidade.

Em 1989 KIM PRISU criou o espírito Nuklé-Art e em parceria com A. L. Tony, construiu uma Aldeia Cultural em Aldeia da Dona. Hoje podem-se ver várias esculturas e mobiliário de sinalética ligadas à memória cultural do sítio onde estão erguidas.

Fernand Léger

A la fin tu es las de ce monde ancien
Bergère ô tour Eiffel le troupeau des ponts bêle ce matin
Tu en as assez de vivre dans l’antiquité grecque et romaine
Ici même les automobiles ont l’air d’être anciennes
La religion seule est restée toute neuve la religion
Est restée simple comme les hangars de Port-Avion…
Guillaume Apollinaire


Fernand Léger, um dos notáveis artistas que integraram o Groupe de Puteaux, foi o primeiro cubista a experimentar a abstracção não-figurativa, através do contraste entre linhas curvilíneas e rectangulares, utilizando  basicamente as cores primárias.


Still Life with a Beer Mug – 1921

jogo do galo

Sofia Areal - série “jogo do galo” sem titulo

Sofia Areal - série “jogo do galo” sem título

Links para conhecer o percurso de Sofia Areal

Os Adoradores

Giambattista Tiepolo (1696, Veneza – 1770, Madrid) colaborou com o pintor veneziano Girolamo Mengozzi Colonna no fresco da nave da igreja de Stª. Maria de Nazaré no período 1743-45, segundo uma cuidadosa preparação de estudos e modelos.

O fresco grandioso que descreve o transporte da casa santa de Loreto, quase foi destruído durante Primeira Guerra Mundial. Os poucos fragmentos restantes, como este Adoradores, são suficiente para evocar a riqueza da côr e concepção desta importante realização decorativa.

Os tons branco e prata do santuário são iluminados pelas cores deslumbrantes das peças de vestuário do nobre que observa a aparição religiosa, enquanto o servo olha curiosamente para a nave, abarrotada pela multidão.

se ao menos conseguisse dormir…

Gustav Klimt – Death and Life, 1916

O relógio que está lá para trás, na casa deserta, porque todos dormem,deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é noite.
Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue, jazo na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho.
Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não consigo ter.
Tudo em meu torno é o universo nu, abstracto, feito de negações nocturnas.
Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo um conhecimento metafisico do mistério das coisas.
Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida quotidiana bóiam-se-me à superfície da consciência, e estou fazendo lançamentos à tona de não poder dormir. Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam escorrer pela minha desatenção o seu espectáculo sem ruídos. Não tenho os olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de longe; são os candeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins abandonados da rua.
Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!… Cessar, passar fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na noite em que verdadeiramente se dormisse!… Cessar, ser incógnito e externo, movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de folhas, conhecido no som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos, labirintos naturais da treva!…
Cessar, acabar finalmente, mas com uma sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeixa de um cabelo solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do caminho… O absurdo, a confusão, o apagamento – tudo que não fosse a vida… E durmo, a meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair.
Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que a tenho fazendo vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece – não é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo, tudo é tão negro e tão frio!
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir, deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto.
Posso deixar-me à vida, posso dormir, posso ignorar-me… E, através do sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras, que canta segunda vez.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

A simplicidade da luz interior

Há luz a mais. Sou ofuscado pelo brilho efémero do que me rodeia.
Preciso alimentar a ilusão de voltar ao eu… Magia possível sem efeitos especiais.

Johannes Vermeer - The Astronomer, cerca de 1668

Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la, saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. «Qualquer estrada», disse Carlyle, «até esta estrada de Entepfhul, te leva até ao fim do mundo.» Mas a estrada de Entepfhul, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfhul; de modo que o Entepfhul, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

Goyantánamo

Esta cena de prisão está relacionada, no modo e no carácter, com várias pinturas de cenas de guerra e outros temas inspirados pelas invasões napoleónicas. Prisioneiros de guerra – e não só – estáo entre as vítimas de injustiça e crueldade, retratadas em muitos dos desenhos e gravuras de Goya. Um homem aguilhotinado é o tema desta gravura, das mais antigas de Goya; Outras formas de castigo e tortura serão representadas em trabalhos posteriores.

A obra, executada com um mínimo de cor, é notável pela atmosfera de escuridão e o efeito de sofrimento anónimo, criado pelos contornos de luz das figuras indistintas, na enorme caverna comum.

Educação Sentimental

François Boucher - A Educação de Cupido, 1742

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don’t deal in lies,
Or, being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise;
If you can dream and not make dreams your master;
If you can think and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken
And stoop and build ’em up with worn-out tools;
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: “Hold on!”;
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And which is more you’ll be a Man, my son!

O mesmo poema de Rudyard Kipling em português

As cores da noite, de Van Gogh

Ao longo da sua vida, Vincent Van Gogh (1853–1890) experimentou a paradoxal tarefa de representar a noite através da luz. Para isso, seguiu a tendência dos Impressionistas de “traduzir” os efeitos visuais da luz através de múltiplas combinações de cor. Simultaneamente, esta preocupação de Van Gogh traduziu-se no desejo em mesclar o visual e o metafórico, no sentido de produzir obras de arte frescas e profundamente originais. Estas diferentes preocupações artísticas encontram-se nas suas pinturas sobre crepúsculos e paisagens nocturnas.

 


A obra Starry Night – 1889, pertencente ao MOMA, será integrada na Exposição Van Gogh and the Colors of the Night que terá lugar no Van Gogh Museum no início do próximo ano e que pretende apresentar uma nova perspectiva das representações de Van Gogh e dos efeitos de luz nesses ambientes nocturnos.