Arquivo de Maio, 2008

Paixão

Começou então a última tortura…
Num grande esforço, procurei ainda esquecer-me do que descobrira – esconder a cabeça debaixo dos lençóis como as crianças, com medo dos ladrões, nas noites de inverno.
Ao entrelaçá-la, hoje, debatia-me em êxtases tão profundos, mordia-a tão sofregamente, que ela uma vez se me queixou.
Com efeito, sabê-la possuída por outro amante – se me fazia sofrer na alma, só me excitava, só me contorcia nos desejos…
Sim! sim! – aquele corpo esplêndido, triunfal, dava-se a três homens – três machos que se estiraçavam sobre ele, a possuí-lo, a sugá-lo!… Três? Quem sabia se uma multidão?… E ao mesmo tempo que esta ideia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso de que assim fosse…
Ao estrebuchá-la agora, em verdade, era como se, em beijos monstruosos, eu possuísse também todos os corpos masculinos que resvalavam pelo seu.
A minha ânsia convertera-se em achar na sua carne uma mordedura, uma escoriação de amor, qualquer rastro de outro amante…
E um dia de triunfo, finalmente, descobri-lhe no seio esquerdo uma grande nódoa negra… Num ímpeto, numa fúria, colei a minha boca a essa mancha – chupando-a, trincando-a, dilacerando-a…
Marta, porém, não gritou. Era muito natural que gritasse com a minha violência, pois a boca ficara-me até sabendo a sangue. Mas o certo é que não teve um queixume. Nem mesmo parecera notar essa carícia brutal…
De modo que, depois de ela sair, eu não pude recordar-me do meu beijo de fogo – foi-me impossível relembrá-lo numa estranha dúvida…

Ai, quanto eu não daria por conhecer o seu outro amante… os seus outros amantes…
Se ela me contasse os seus amores livremente, sinceramente, se eu não ignorasse as suas horas – todo o meu ciúme desapareceria, não teria razão de existir.
Com efeito, se ela não se ocultasse de mim, se apenas se ocultasse dos outros, eu seria o primeiro. Logo, só me poderia envaidecer; de forma alguma me poderia revoltar em orgulho. Porque a verdade era essa, atingira: todo o meu sofrimento provinha apenas do meu orgulho ferido.
Não, não me enganara outrora, ao pensar que nada me angustiaria por a minha amante se entregar a outros. Unicamente era necessário que ela me contasse os seus amores, os seus espasmos até.
O meu orgulho só não admitia segredos. E em Marta era tudo mistério. Daí a minha angústia – daí o meu ciúme.
Muita vez – julgo, diligenciei fazer-lhe compreender isto mesmo, evidenciar-lhe a minha forma de sentir, a ver se provocava uma confissão inteira da sua parte, cessando assim o meu martírio. Ela, porém, ou nunca me percebeu, ou era resumido o seu afeto para tamanha prova de amor.

In «A Confissão de Lúcio» de Mário de Sá Carneiro

Feira do Livro

As birras entre editoras sobre o formato da Feira, se algum mérito tiveram foi o de evidenciar as diferentes visões de mercado. Por um lado, a visão romântica das barraquinhas que a ninguém agrada mas porque é tradição deixa estar; Por outro, a do papão que só é papão neste rectângulo face à inércia reinante. Com honrosas excepções.

Jean-Michel Jarre @ last

Custou mas foi.

Graças ao Mago que me iluminou o caminho e ao Pedro que teve a amabilidade de fornecer os meios técnicos, estão agora disponíveis os vídeos do memorável Concerto no Coliseu de Lisboa de Le Magicien em

http://www.youtube.com/user/abrancoalmeida

Are you going with me?

Travels reflete a digressão da banda nos Estados Unidos em 1982.
São quase duas horas do melhor que Pat Metheny fez até hoje. E fez muito, e bom!
Esta gravação da ECM-1983, pertence com todo o mérito à short list de obras que se ouvem durante uma vida.

A formação contava então com Pat Metheny, Lyle Mays, Steve Rodby, Dan Gottlieb e Nana Vasconcelos.

Disco 1
1. Are You Going With Me?
2. The Fields, The Sky
3. Goodbye
4. Phase Dance
5. Straight On Red
6. Farmer’s Trust

Disco 2
1. Extradition
2. Goin’ Ahead – (with As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls)
3. Travels
4. Song For Bilbao
5. San Lorenzo

prenda nossa

Ontem, no Auditório dos Oceanos, graças ao convite de um querido amigo, tivemos Tango Pasión.

O sexteto ontem virou octeto, os bailarinos argentinos muito bem dispostos – porque o tango tem essa coisa de aquecer o sangue – estiveram todos muito bem e gostamos muito, numa noite especial por vários motivos, sempre com pasión em pano de fundo…

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“Poderoso e sofisticado, nobre e sensual, Tango PAsión é um dos melhores espectáculos de tango do mundo”

Poderoso sofisticado e virtuoso, TANGO PASIÓN é, para muitos, o espectáculo-Bíblia desta nobre dança argentina.

Em palco, 6 pares de bailarinos, acompanhados pela orquestra Sexteto Mayor, vencedora de um Gramy, criam quadros únicos em beleza e sensualidade.

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Salão Nobre do Conservatório Nacional

No âmbito da petição “ALGUÉM ACUDA AO SALÃO NOBRE DO CONSERVATÓRIO, POR FAVOR!” e numa iniciativa conjunta do Fórum Cidadania Lx e da Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa, realizar-se-á no próximo dia 14 de Maio, pelas 18,30h, no SALÃO NOBRE DO CONSERVATÓRIO NACIONAL de LISBOA, sito na Rua dos Caetanos, 23 a 29 (ao Bairro Alto) – Lisboa, um recital com a colaboração, entre outros, de:

ANTÓNIO ROSADO (ex-aluno da Escola de Música do CN), que tocará de Debussy:

– La cathédrale engloutie , prelúdio

– Pour les arpèges composés , estudo

– Pour les cincq doigts, d’aprés Monsieur Czerny , estudo

JORGE MOYANO (ex-aluno da Escola de Música do CN), que tocará de

George Gershwin

– Raphsody in Blue (versão para piano)

GLÓRIA DE MATOS (ex-profª da Escola de Teatro do CN)

MARIA DE JESUS BARROSO (ex-aluna da Escola de Teatro do CN)

NB- Este recital é, essencialmente, dedicado aos destinatários da petição – Presidente da República, Presidente da AR, 1º-Ministro, Ministros da Educação e Cultura, Presidente da CML, Deputados e Vereadores – e Comunicação Geral.

Gostaríamos de contar com a sua presença!

A simplicidade da luz interior

L`INVITATION AU VOYAGE



Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D’aller là-bas vivre ensemble !
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble !
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes. 

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre ;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l’ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l’âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l’humeur est vagabonde ;
C’est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu’ils viennent du bout du monde.
– Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D’hyacinthe et d’or ;
Le monde s’endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

 

Charles Baudelaire – Les Fleurs du Mal, poema LIII

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