Arquivo de Fevereiro, 2006

Das vãs subtilezas

Há subtilezas frívolas por meio das quais, algumas vezes, os homens procuram alcançar reputação: é o caso dos poetas que fazem inteiras obras começando cada verso por uma letra. Similarmente vemos ovos, bolas, asas e machados formados por poetas gregos da Antiguidade com a medida dos seus versos, ora alongados ora encurtados de maneira a virem a representar esta ou aquela figura. Dessa sorte era também a ciência daquele que se entreteve a contar os modos em que se podiam dispor as letras do alfabeto, chegando ao número inacreditável em que se lê em Plutarco.

Acho boa a decisão daquele a quem apresentaram um homem adestrado a arremessar um grão de milho com tal perícia que infalivelmente o fazia sempre passar pelo buraco da agulha. Ao ser-lhe, depois, pedido que desse um presente como recompensa de tão raro talento, ele, bem divertida e justamente, a meu parecer, mandou que a esse mestre entregassem dois ou três sesteiros de milho, a fim que uma tão bela arte não se perdesse por falta de exercício.
É um maravilhoso testemunho da fraqueza do nosso juízo que ele dê preço às coisas pela raridade ou pela novidade, ou ainda pela dificuldade, quando a estas não se juntam a bondade e a utilidade.

Acabámos, agora mesmo, de, em minha casa, nos entreter num jogo em que vence quem for capaz de encontrar mais coisas cujos extremos se tocam, como «Sire», um título que se dá à mais elevada personagem do nosso Estado, o Rei, e que também se dá ao vulgo, tais os mercadores, mas de modo nenhum se aplica aos que estão entre os dois. Às mulheres mais nobres chama-se «Dames»; às de condição média, «Demoiselles»; e outra vez «Dames», às de escalão mais baixo. Os dados lançados lançados nas mesas de jogo só são permitidos nas casas dos príncipes e nas tabernas.

Dizia Demócrito que os deuses e os demónios tinham os sentimentos mais agudos que os homens, que ocupam o andar do meio.
Os Romanos envergavam traje igual nos dias de luto e nos de festa.
É certo que o medo extremo e o extremo ardor da coragem igualmente transtornam o ventre e são laxativos.
A alcunha de «Tremelicante», cognome do duodécimo rei de Navarra, Sancho, mostra-nos que a bravura faz-nos estremecer os membros tão bem quanto o medo. E aquele a quem os seus punham a armadura, os quais, ao lhe verem fremir a pele, procuravam aquietá-lo minimizando o risco em que iria incorrer, disse-lhes: «Mal me conheceis. Soubesse a minha carne aonde a minha coragem me vai levar, congelaria de todo.»
A fraqueza que nos exercícios de Vénus nos sobrevém como resultado da frieza e do fastio, também nos acomete por causa de um desejo veemente de mais ou de um ardor desregrado. A frialdade extrema e o extremo calor cozem e assam.

Aristóteles diz que os lingotes de chumbo tanto se fundem e derretem com o frio e os rigores de inverno como com o calor intenso.
O desejo e a saciedade impregnam de dor os estado acima e abaixo do prazer. A bruteza e a sabedoria coincidem no modo de sentir e de suportar com firmeza as vicissitudes da fortuna humana: os sábios domam e dominam os males, os outros ignoram-nos; estes, por assim dizer, estão aquém das desventuras, aqueles além – após haverem bem pesado e considerado a sua natureza, as terem medido e julgado tais como elas são, saltam-lhes por cima graças à força de um ânimo vigoroso, desdenham-nas e calcam-nas aos pés, uma vez que têm uma alma forte e inabalável, e que os dardos da fortuna vindo a entrar nela, forçosamente se embotam e ressaltam, pois encontram um corpo em que logram não deixar marcas.
Entre estes dois extremos situa-se a condição normal e mediana dos homens, a qual é a dos que apercebem os males, sentem-nos e não os conseguem suportar. A infância e a decripitude coincidem na debilidade do espírito, a avareza e a prodigalidade, no desejo de atrair e adquirir.


Pode-se dizer que, muito plausivelmente há uma ignorância abecedária que precede o saber e uma outra, doutoral, que se lhe segue, ignorância esta que o saber produz e engendra da mesma maneira que desfaz e destrói aqueloutra.
Dos espíritos simples, menos curiosos e menos instruídos, fazem-se bons cristãos, que, por reverência e obediência, com simplicidade, crêem e mantêm-se submissos às leis. É nos espíritos de vigor e capacidade médios que se engendram as opiniões erróneas, pois eles seguem a aparência das suas primeiras impressões e têm pretextos para interpretar como simpleza e estultícia o nosso apego aos antigos usos, considerando que nós aí não chegámos por via do estudo dessas matérias.

Os grandes espíritos, mais avisados e clarividentes, constituem um outro género de bons crentes: por meio de uma aturada e escrupulosa investigação, penetram nas Escrituras até atingir uma luz mais profunda e abstrusa, e entendem o misterioso e divino segredo da nossa política eclesiástica.
Vemos, porém, alguns, com maravilhoso proveito e com consolidação da sua fé, chegarem, através do segundo, a este último nível, com refrigério, acções de graças, reforma dos costumes e grande modéstia.
Não entendo nesta categoria situar aqueloutros que, para se purgarem da suspeita dos seus passados erros e para ganharem a nossa confiança, tornam-se extremistas, insensatos e injustos defensores da nossa causa, a qual maculam com infindos e repreensíveis actos de violência.


Os camponeses simples são gente honesta e gente honesta são os filósofos, ou seja, aqueles que, tanto quanto o permitem os nossos tempos, possuem naturezas fortes e ilustres, enriquecidas de um grande cabedal de conhecimentos úteis.

Os «mestiços», que desdenharam o primeiro estado – o da ignorância das letras – e não conseguiram atingir o outro, estando o seu cu entre duas selas (e no seu número eu, com tantos outros, me incluo), são perigosos, ineptos e importunos: são eles que trazem transtorno ao mundo.
Por isso, no que me diz respeito, recuo tanto quanto posso para esse primeiro estado natural, do qual em vão tentei me afastar.


A poesia popular, puramente espontânea, tem encantos e graças pelas quais se compara à beleza superior da poesia artisticamente perfeita, como se vê nos vilancicos gascões e nas canções que nos foram trazidas de nações sem conhecimento de nenhuma ciência e nem mesmo da escrita.
A poesia mediana, que se situa entre essas duas, é desprezível e indigna de ser honrada e apreciada.

Mas porque, após ter sido aberta a passagem ao espírito, descobri, como habitualmente acontece, que tornámos por exercício difícil e objecto raro o que de todo não o é, e que a imaginação, uma vez excitada, acha um infindo número de semelhantes exemplos, não acrescentarei senão o seguinte: se estes ensaios fossem dignos de serem reflectidos, poderia ocorrer, em minha opinião, que eles não agradassem aos espíritos comuns e vulgares, nem tão-pouco aos singulares e excelentes – aqueles não os entenderiam suficientemente, estes, entendê-los-iam bem de mais – e só poderiam sobreviver na região intermédia.

Montaigne
Ensaios – Antologia
Livro 1, Capítulo 54 – Das vãs subtilezas
Tradução de Rui Bertrand Romão
Pinturas de Pedro Calapez

Livro 2 – Os Alvores do Renascimento

No segundo volume de A GRANDE HISTÓRIA DA ARTE são apresentados alguns trabalhos que ilustram a redescoberta da antiguidade clássica, onde os artistas se inspiraram para a ruptura com a tradição medieval, até então dedicada ao sagrado.
No início do século XV, tendo como ponto de partida a Bíblia e o interesse pelas letras como forma de conhecimento, criou-se a corrente humanista.

Também a técnica da perspectiva linear – desenvolvida por
Filippo Brunelleschi – deu origem a uma nova noção de espaço, designada por janela pictórica.

Entre a realidade objectiva e a sua expressão simbólica encontramos a correspondência entre medida e proporção:
O homem é a medida de todas as coisas, mas essa medida é proporcionada por Deus.
Da adopção deste preceito, nasceu o movimento que se designou por naturalismo.

No fim do primeiro quartel do século XV, Masaccio (1401-1428) criou a Santíssima Trindade, um fresco fundamental nas obras fundadoras do Renascimento.

O espaço tridimensional realça a hierarquização das figuras e transmite uma noção exacta do volume e do espaço, por via da parede escavada.
Os encomendadores ajoelhados – cuja participação é indirecta, na cena – conferem profundidade ao primeiro plano.
Um triângulo – que simboliza a trindade – agrupa Maria, João e Cristo;
Outro, invertido, tem por base os capitéis, e junta Deus e Cristo.

O sarcófago, que representa a morte, tem inscrita a legenda
EU FUI O QUE TU ÉS E O QUE EU SOU TU SERÁS.

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Índice do Volume:
1 – A Europa das Cortes: O Gótico Internacional
2 – O Estudo da Antiguidade Clássica
3 – A Descoberta da Perspectiva
4 – A Descrição Analítica da Realidade
5 – O Homem no Centro do Universo
6 – A Difusão da Linguagem Renascentista
7 – O Contexto Veneziano
8 – O Tempo de Lorenzo, O Magnífico

Ó prima, quer vir comer uns queijinhos frescos a minha casa?

O Último Cabalista de Lisboa

Primeiro, estranha-se..
A notícia de que o vereador José Sá Fernandes terá sido alvo de tentativa de corrupção pela Bragaparques, no âmbito do processo Feira Popular/Parque Mayer.

Depois, entranha-se..
Tendo em conta os antecedentes do advogado das causas populares, que se entreteve no passado recente a interpôr providências cautelares no Tribunal Administrativo Fiscal de Lisboa, a tudo o que mexia com a cidade…
será o empresário Domingos Névoa um idiota chapado, ou estaremos a ser alvo de mais uma «acção popular»?

gananciazinha

As casas desocupadas que não ultrapassem determinado consumo de água e electricidade durante mais de um ano vão ser consideradas devolutas e, como tal, vão passar a pagar o dobro da taxa de Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), o imposto que substituiu a Contribuição Autárquica

A ler também Casas desocupadas vão pagar imposto a dobrar, no Expresso On-line.

Esta medida é ineficiente, porque:

  • Das receitas resultantes do imposto – cujo aumento pode ir até 1,6% – em termos práticos, não resulta nenhum incentivo de maior à recuperação dos imóveis.
  • Os proprietários de prédios devolutos que actualmente utilizam o expediente dos consumos mínimos, preferem pagar a taxa adicional, com o consequente desperdício de água e energia.
  • É uma abordagem indiferenciada às razões pelas quais um imóvel está ou é considerado devoluto.
  • É demagógico dizer que esta medida é um contributo para a requalificação/renovação urbanas e ordenamento do território.
  • Um imposto com estas características – só por si – não incute confiança no mercado, se a nova Lei das Rendas não privilegiar, nomeadamente, a liberdade contratual e flexibilidade nos despejos.

Perscrutando no silêncio

“A representação de Deus e dos Seus profetas é uma heresia e um atentado à dignidade e à fé dos muçulmanos.
Não podemos representar a figura de Deus, porque ninguém O conhece como Ele é, e também não podemos representar as faces dos profetas porque isto conduziria à adoração dos mesmos, constituindo uma idolatria, contrária aos princípios religiosos.”

Abdul Rehman Mangá
Presidente do Centro Cultural Islâmico do Porto

Num acto de voluntária abstinência em comentar as dezenas de artigos e posts que tenho lido nas últimas semanas sobre o tema cartoons, face ao conjunto de verdades absolutas e afirmação de superioridade moral dos civilizados europeus, constato simplesmente que o Ocidente tem revelado não só um desconhecimento confrangedor do enunciado deste princípio, como um total desprezo pelos valores que lhe estão subjacentes.
A tolerância não é incompatível com a liberdade de expressão e muito menos com o bom senso.

Post anterior sobre este assunto: Sensibilidade e bom senso, ou falta de ambos

ARCO’06 – Sofia Areal

series 360º ao Sol, 2005

acrílico sobre tela
190 x 190 cm

Fotografia para uma legenda

Casa da Música, Porto-Portugal


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ARCO’06 – Pedro Calapez

Composição 16, 2005

acrílico sobre aluminio
102,5 x 218,5 x 40,5 cm
abstract landscape 27

quatro aguarelas sobre papel
32,5 x 200 cm
Composição 09, 2005

acrílico sobre alumínio
146 x 80,5 x 36 cm

Legenda para uma fotografia

Como diluir as estrias que traem tua idade
ao irromper do que não queres lembrar,
a não ser quando tudo te repudia tanto
que em ti embebes as tuas espadas,
ansiando remir o que não clama resgate?
E ris, sorris: corola vesperal a desfolhar nas faces
um esmalte falaz que teus olhos recusam.

Injuria-te a luz, embora te defendas
num recanto que as lâmpadas receiam:
aí a música amaina, extenuada,
permite que te envolva
uma outra que de ti se evola
num tempo de que foste expulsa.


Não são máscaras esse carmim viscoso,
os cabelos sufocados em adornos grotescos
e em tinta,
o debrum crepuscular das pálpebras,
a cilada sedenta de uma boca
constrangida a abdicar da força da mentira.
São em ti apelos transparentes:
por eles te denuncias e somente
suplicas ser, sem precisares depor
sobre teus desígnios, teus actos.

Que poderás dizer que todos não saibam?
O que és não o partilharás ao exprimi-lo.
Tuas palavras para os outros significam
o mesmo que silêncio. E os teus gestos
só para ti vertem um conteúdo.

Mas reges a magia de discretos sinais:
uma pulseira que distancia tua mão, um aroma
a convidar para um quarto clandestino,
um leque a ondular sobre o teu peito
o adejo de uma dança nupcial.

Detém-te nesse lugar, se ninguém te convida.
Na noite, tua cama pródiga, um esquife
que te espera sem pressa.
Goya ou uma objectiva cruel
iludem-se quando tentam perpetuar-te
ao tornar-te motivo de uma tela
tão perecível como tu.

Mas de nada te acusam:
apontam-te ao meu discurso desatento,
a alguém que deseje
conhecer o corpo turbado que dissipas.

Poema de José BentoSilabário
Fotografias de Pierre Molinier