Arquivo de 7 de Fevereiro, 2006

A liberdade da Imprensa

Verdade! Oh! vem da escuridão que há tanto
De em torno aos raios teus se embastecia,
Negro, enviusado véu rasgar do engano
E da calúnia pérfida.
Vem: mostra enfim ao mundo a face austera;
Traze ao lado a Razão, traze a Justiça;
São filhas tuas, foragidas ambas,
Contigo desterradas.
Do facho, ardente luminar que empunhas,
Desparze em raios o clarão a Elísia;
Mostra-lhe a natureza, que vendada
Sem teu lume não viam.
Homens que o forem – folgarão contigo;
E os que o não são… que tremam, que se arrojem
Ao caos da ignorância e dos fantasmas
Onde o crime despenhas.
Raios que vibras fulminantes, rápidos,
Fofos em cinza os códices dispersem
Que a ignorância lavrou, sagrou cobiça
E endeusou maldade.
Mas ah! primeiro veja-os o Universo:
Sopra-lhe o pó dos amontoados séculos,
Leiam-lhe os povos nessas notas bárbaras
O aviltamento antigo:
Corem, pejem-se enfim de seu ludíbrio,
Ao jugo acurvador o peso tomem,
E coa vara da Lei, desafogados
Meçam o seu e o alheio.
Mas não vês essa turba murmurante
De homens que aos homens declararam guerra,
Não vês como orgulhosos se encastelam
Nos profanados templos?
Não os vês com que horrendo sacrilégio
Estão detrás do véu do santuário
Um negro monte de maldade e horrores
Pérfidos a escondê-lo?
Ah! coa mão descarnada à face horrível
Rasga a máscara vil do embuste hipócrita;
Deixa ler-lhes no gesto horrendo os crimes,
As traições, o perjúrio.
Oh! não consintas, não, que as sacrossantas,
Cândidas vestes Religião lh’empreste,
Lh’empreste!… ousem roubar-lhas os perversos,
Salpicar-lhas de infâmia.
Sim, vem, ó númen, vem; cede benigna
Aos sons carpidos da liberta Elísia.
Um povo inteiro, um povo amesquinhado
Por ti clama e suspira,
A ti clama, a ti brada, em ti só ‘spera:
Tu só, filha do Eterno, em tanta névoa
Que nos embarga os passos mal seguros,
Podes abrir caminho.

Almeida Garrett – Março, 1821.

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