Arquivo de 20 de Fevereiro, 2006

O Último Cabalista de Lisboa – II

No seguimento da denúncia de corrupção no caso Feira Popular/Parque Mayer e segundo o Expresso, a advogada do empresário Domingos Névoa trabalha no escritório(!) de Ricardo Sá Fernandes, irmão do vereador José Sá Fernandes, alvo da alegada tentativa de corrupção.

Parece também que a prova de denúncia foi conseguida através de escutas telefónicas(!).

A ser verdade, tudo isto é muito estranho…

Das vãs subtilezas

Há subtilezas frívolas por meio das quais, algumas vezes, os homens procuram alcançar reputação: é o caso dos poetas que fazem inteiras obras começando cada verso por uma letra. Similarmente vemos ovos, bolas, asas e machados formados por poetas gregos da Antiguidade com a medida dos seus versos, ora alongados ora encurtados de maneira a virem a representar esta ou aquela figura. Dessa sorte era também a ciência daquele que se entreteve a contar os modos em que se podiam dispor as letras do alfabeto, chegando ao número inacreditável em que se lê em Plutarco.

Acho boa a decisão daquele a quem apresentaram um homem adestrado a arremessar um grão de milho com tal perícia que infalivelmente o fazia sempre passar pelo buraco da agulha. Ao ser-lhe, depois, pedido que desse um presente como recompensa de tão raro talento, ele, bem divertida e justamente, a meu parecer, mandou que a esse mestre entregassem dois ou três sesteiros de milho, a fim que uma tão bela arte não se perdesse por falta de exercício.
É um maravilhoso testemunho da fraqueza do nosso juízo que ele dê preço às coisas pela raridade ou pela novidade, ou ainda pela dificuldade, quando a estas não se juntam a bondade e a utilidade.

Acabámos, agora mesmo, de, em minha casa, nos entreter num jogo em que vence quem for capaz de encontrar mais coisas cujos extremos se tocam, como «Sire», um título que se dá à mais elevada personagem do nosso Estado, o Rei, e que também se dá ao vulgo, tais os mercadores, mas de modo nenhum se aplica aos que estão entre os dois. Às mulheres mais nobres chama-se «Dames»; às de condição média, «Demoiselles»; e outra vez «Dames», às de escalão mais baixo. Os dados lançados lançados nas mesas de jogo só são permitidos nas casas dos príncipes e nas tabernas.

Dizia Demócrito que os deuses e os demónios tinham os sentimentos mais agudos que os homens, que ocupam o andar do meio.
Os Romanos envergavam traje igual nos dias de luto e nos de festa.
É certo que o medo extremo e o extremo ardor da coragem igualmente transtornam o ventre e são laxativos.
A alcunha de «Tremelicante», cognome do duodécimo rei de Navarra, Sancho, mostra-nos que a bravura faz-nos estremecer os membros tão bem quanto o medo. E aquele a quem os seus punham a armadura, os quais, ao lhe verem fremir a pele, procuravam aquietá-lo minimizando o risco em que iria incorrer, disse-lhes: «Mal me conheceis. Soubesse a minha carne aonde a minha coragem me vai levar, congelaria de todo.»
A fraqueza que nos exercícios de Vénus nos sobrevém como resultado da frieza e do fastio, também nos acomete por causa de um desejo veemente de mais ou de um ardor desregrado. A frialdade extrema e o extremo calor cozem e assam.

Aristóteles diz que os lingotes de chumbo tanto se fundem e derretem com o frio e os rigores de inverno como com o calor intenso.
O desejo e a saciedade impregnam de dor os estado acima e abaixo do prazer. A bruteza e a sabedoria coincidem no modo de sentir e de suportar com firmeza as vicissitudes da fortuna humana: os sábios domam e dominam os males, os outros ignoram-nos; estes, por assim dizer, estão aquém das desventuras, aqueles além – após haverem bem pesado e considerado a sua natureza, as terem medido e julgado tais como elas são, saltam-lhes por cima graças à força de um ânimo vigoroso, desdenham-nas e calcam-nas aos pés, uma vez que têm uma alma forte e inabalável, e que os dardos da fortuna vindo a entrar nela, forçosamente se embotam e ressaltam, pois encontram um corpo em que logram não deixar marcas.
Entre estes dois extremos situa-se a condição normal e mediana dos homens, a qual é a dos que apercebem os males, sentem-nos e não os conseguem suportar. A infância e a decripitude coincidem na debilidade do espírito, a avareza e a prodigalidade, no desejo de atrair e adquirir.


Pode-se dizer que, muito plausivelmente há uma ignorância abecedária que precede o saber e uma outra, doutoral, que se lhe segue, ignorância esta que o saber produz e engendra da mesma maneira que desfaz e destrói aqueloutra.
Dos espíritos simples, menos curiosos e menos instruídos, fazem-se bons cristãos, que, por reverência e obediência, com simplicidade, crêem e mantêm-se submissos às leis. É nos espíritos de vigor e capacidade médios que se engendram as opiniões erróneas, pois eles seguem a aparência das suas primeiras impressões e têm pretextos para interpretar como simpleza e estultícia o nosso apego aos antigos usos, considerando que nós aí não chegámos por via do estudo dessas matérias.

Os grandes espíritos, mais avisados e clarividentes, constituem um outro género de bons crentes: por meio de uma aturada e escrupulosa investigação, penetram nas Escrituras até atingir uma luz mais profunda e abstrusa, e entendem o misterioso e divino segredo da nossa política eclesiástica.
Vemos, porém, alguns, com maravilhoso proveito e com consolidação da sua fé, chegarem, através do segundo, a este último nível, com refrigério, acções de graças, reforma dos costumes e grande modéstia.
Não entendo nesta categoria situar aqueloutros que, para se purgarem da suspeita dos seus passados erros e para ganharem a nossa confiança, tornam-se extremistas, insensatos e injustos defensores da nossa causa, a qual maculam com infindos e repreensíveis actos de violência.


Os camponeses simples são gente honesta e gente honesta são os filósofos, ou seja, aqueles que, tanto quanto o permitem os nossos tempos, possuem naturezas fortes e ilustres, enriquecidas de um grande cabedal de conhecimentos úteis.

Os «mestiços», que desdenharam o primeiro estado – o da ignorância das letras – e não conseguiram atingir o outro, estando o seu cu entre duas selas (e no seu número eu, com tantos outros, me incluo), são perigosos, ineptos e importunos: são eles que trazem transtorno ao mundo.
Por isso, no que me diz respeito, recuo tanto quanto posso para esse primeiro estado natural, do qual em vão tentei me afastar.


A poesia popular, puramente espontânea, tem encantos e graças pelas quais se compara à beleza superior da poesia artisticamente perfeita, como se vê nos vilancicos gascões e nas canções que nos foram trazidas de nações sem conhecimento de nenhuma ciência e nem mesmo da escrita.
A poesia mediana, que se situa entre essas duas, é desprezível e indigna de ser honrada e apreciada.

Mas porque, após ter sido aberta a passagem ao espírito, descobri, como habitualmente acontece, que tornámos por exercício difícil e objecto raro o que de todo não o é, e que a imaginação, uma vez excitada, acha um infindo número de semelhantes exemplos, não acrescentarei senão o seguinte: se estes ensaios fossem dignos de serem reflectidos, poderia ocorrer, em minha opinião, que eles não agradassem aos espíritos comuns e vulgares, nem tão-pouco aos singulares e excelentes – aqueles não os entenderiam suficientemente, estes, entendê-los-iam bem de mais – e só poderiam sobreviver na região intermédia.

Montaigne
Ensaios – Antologia
Livro 1, Capítulo 54 – Das vãs subtilezas
Tradução de Rui Bertrand Romão
Pinturas de Pedro Calapez

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