Altos & Baixos

Amigo de infância do Hernâni, acompanhei os seus primeiros passos na noite do Bairro Alto, primeiro com o Eduardo no Café Concerto e mais tarde com outro sócio no Targus.
Os anos 80 foram um gozo! A mescla de culturas que cohabitavam era fascinante: os indígenas riam-se dos punks e dos góticos que apareciam, num misto de escárnio e curiosidade. As meninas queixavam-se que tanto público era mau para o negócio…
E havia fado.
Lembro-me de (quase) acordar com as desgarradas dos maduros que desciam a rua às 4 da manhã.

Hoje não se consegue dormir, tal é o ruido ensurdecedor por cima dos telhados.
O que verdadeiramente entristece, no entanto, não é a profunda transformação do Bairro; É a indiferença das pessoas que gostavam do seu bairro e a quem hoje já nem incomoda, quando saem de casa de manhã, que a porta de entrada do seu prédio cheire a urina.
O Livro de Estilo? Fica para os especialistas.

Sol da Meia-Noite


Leio no Sol que a partir de Outubro, vai ser possível aceder à Internet, gratuitamente e sem fios, em vários jardins e espaços verdes da capital. O momento escolhido não parece muito feliz, pois os dias cinzentos e chuvosos que se avizinham não são muito convidativos à navegação ao ar livre.

Há coisas fantásticas, não há?

No dia em que – continua para mim a ser um mistério – o Luminescências passava a barreira dos 200.000 visitantes, o clube do coração começava da melhor forma a presença na Liga dos Campeões ao vencer – talvez neste momento – a mais forte equipa da Europa.

Aqueles meninos não serão os melhores do mundo, mas dos arredores são certamente!

É o regime, estúpido!

Fui aluno das Oficinas de São José no período 70-74. Havia naquele tempo o ritual das formaturas e da reflexão matinal, antes de iniciar o dia de aulas.
Quem chegasse 5 minutos atrasado já sabia que ia visitar o gabinete do Director para levar umas bordoadas.
Eu lembro-me.

Lembro também que dentro da escola, o respeito começava nos professores: o senhor isto, o menino aquilo…

Lembro ainda que o processo educativo – evangelização aparte – foi a matriz do meu desenvolvimento intelectual, do conjunto de princípios e valores que desde então norteiam a minha vida.

Mas isto foi durante o outro Regime.

Ao olhar para esta falsa sofisticação “democrática” e, depois, para a crua realidade, só resta uma conclusão: vão-se foder.

a vida, própria das sombras

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca

Mário Cesariny

Palacete Ribeiro da Cunha (3)

Está agendada para o próximo dia 7 de Setembro, pelas 21h, no Museu Botânico, no Jardim Botânico, uma sessão pública sobre o Plano de Pormenor do Palacete Ribeiro da Cunha.
Vão estar presentes o autor do projecto, o Director do Departamento de Planeamento Urbano, representantes da Quercus, Associação Lisboa Verde e também comunicação social.

Cortesia da Dra Ana Bravo da Junta de São Mamede, onde se encontra até dia 15 para discussão pública o referido Plano de Pormenor.

Em busca da vitória

Fear not, my friend


Fear not, dear friend, but freely live your days
Though lesser lives should suffer. Such am I,
A lesser life, that what is his of sky
Gladly would give for you, and what of praise.
Step, without trouble, down the sunlit ways.
We that have touched your raiment, are made whole
From all the selfish cankers of man’s soul,
And we would see you happy, dear, or die.
Therefore be brave, and therefore, dear, be free;
Try all things resolutely, till the best,
Out of all lesser betters, you shall find;
And we, who have learned greatness from you, we,
Your lovers, with a still, contented mind,
See you well anchored in some port of rest.

desconheço o autor

Um homem livre
Não temas, amigo. Talvez nunca tenhas tido a dimensão de como iluminaste os nossos dias; Não é um elogio, pois não se elogia um homem simples. Admira-se.
O sofrimento que nos privou da tua companhia, das tuas brincadeiras infantis, do cuidado paternal com que olhavas as nossas crianças à beira-mar… não te privou da tua liberdade.
Por isso estou certo que o teu espírito regressou à terra natal, para que aí continues, sempre, livre.
Hoje, quando estiver na praia, vou olhar para a linha que divide o mar do céu e sei que, do teu porto-de-abrigo, vais estar a acenar para nós.

O meu amigo Armando é o preto da foto tirada em Agosto de 2004, na nossa praia de sempre.
O último verão em que tivemos a sua companhia. Que descanse em paz.

Alma Ausente

Não te conhece o touro ou a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino ou a tarde,
porque tu morreste para sempre.

Não te conhece o lombo da pedra,
nem o cetim negro onde tu destroças.
Não te conhece tua lembrança muda
porque tu morreste para sempre.

O Outono chegará com búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá olhar teus olhos
porque tu morreste para sempre.

Porque tu morreste para sempre,
como todos os mortos que há na Terra,
como todos os mortos que se esquecem,
num monte enorme de cães apagados.

Não te conhece ninguém. Não. porém, eu canto-te.
Canto para depois teu perfil e tua graça.
A madurez insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo a nascer, se nascer,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Canto sua elegância com palavras que gemem
e lembro uma brisa triste entre as oliveiras.

poema de Federico García Lorca, in Llanto por Ignacio Sánchez Mejías
gravura de Francisco Goya

Fica assim completa a série de quatro poemas dedicados a Ignacio Sánchez Mejías, bandarilheiro sevilhano: A Colhida e a Morte, O Sangue Derramado, Corpo Presente e Alma Ausente.

Inteligente e culto, Ignacio era entusiasta do cante hondo e da dança espanhola; Casado com a irmã do toureiro Joselito, manteve até à morte – em Agosto de 1934 – uma ligação amorosa com a célebre bailarina Encarnación López, La Argentinita, a quem García Lorca dedicou o Llanto.

o princípio da certeza


Em 1974 tinha treze anos. Do Prof. Marcello Caetano recordo pouca coisa. As Conversas em Família, que todos ouvíamos com atenção; Da sua dimensão como académico, obviamente, nada.
Dos momentos em que passou ao lado da tolerância, nem uma evidência! Sabia lá eu o que era o Regime!
Mas houve uma coisa que percebi desde então: Durante a sua humilhante saída do Largo do Carmo, com o povo aos gritos e a escarrar o blindado que o transportava, realizei que não tinha jeito para revolucionário e que não era filho daquela Revolução.