O Carmo e a Trindade

Este é um blogue plural onde o denominador comum dos seus Autores é a paixão por Lisboa, que cada um vive à sua maneira. Não é um blogue político.


Não é um blogue filosófico. Não é um blogue de divulgação. Não é um blogue de poesia ou de ficção. Tão pouco de realidade. Não é um blogue do poder nem da oposição. Não é um blogue de história. Não é um blogue de opinião. Mas ao mesmo tempo também é. Porque cada vez mais a política é demasiado importante para ser apenas entregue aos políticos.

O Carmo e a Trindade é isto tudo ao mesmo tempo e o mais que as desvairadas gentes que aqui autoram quiserem que seja e fizerem dele.

As opiniões aqui expostas vinculam apenas os próprios. A política editorial é simples. Liberdade nos comentários, com excepção aos insultos, que serão apagados. Num ponto todos estamos de acordo: Lis é Boa, mas podia ser ainda melhor. É isso que todos queremos. Sem medo.

Aqui cairá o Carmo e a Trindade, se for necessário. Mas a luz, o Tejo, o ar, as cores, as vielas e os horizontes também.

Com título e prosadores desta estirpe… tenham medo, muito medo.

O desdém da mediocridade


AMADEO DE SOUSA-CARDOSO chegou a Paris em Novembro de 1906, alguns meses depois de Modigliani. Neste período, morria Cézanne, enquanto Picasso pintava «Les Demoiselles d`Avignon».
Em Montmartre, nos ateliers de boémia e miséria, começava uma nova época da pintura ocidental; Em Montparnasse, Amadeo procurava nos ateliers do Boulevard Raspail a admissão às «Beaux-Arts», no seguimento dos estudos iniciados em 1905, na Academia das Belas-Artes em Lisboa.

Desde cedo, Manuel Laranjeira, médico no Porto, exerceu grande influência, no plano intelectual e humano, na evolução do jovem Amadeo, a quem via nos verões da praia de Espinho, onde seus pais tinham casa. As tertúlias no Café Chinês, os passeios e a troca de correspondência tornariam Amadeo seu confidente.

Manuel Laranjeira tinha perante a arte um sentimento de raiz literária da Renascença Portuguesa, entre névoas e saudades.

Este melancolismo não afectava Amadeo, antes lhe provocava desgosto pela futilidade da vida que levava; O tédio das cópias a carvão no casarão do Largo da Biblioteca, as caricaturas de professores e colegas, fraca compensação da mediocridade que deixara em Lisboa e Porto.

Fernando Pessoa chegava a Portugal , Santa-Rita pintava o «Orfeu do Inferno» e Almada Negreiros tinha dez anos de idade.

Amadeo, a quem Manuel Laranjeira vaticinara que «haveria de vencer, haveria de triunfar», desenhou o corpo do amigo enrodilhado numa cadeira de café, abandonado, escorregando, um braço estirado sobre o tampo, outro torcido para as costas da cadeira, as pernas magras torcidas e a trunfa negra saindo do chapeirão enfiado pela cabeça abaixo, boneco desarticulado, só de costas e à deriva do destino…


No verão de 1907, Amadeo abandonava os estudos na Escola de Arquitectura, enquanto confessava que, longe de ter perdido tempo por concluir não ter vocação, antes tinha alargado os seus conhecimentos artísticos , cuja utilidade se reflectia na sua evolução natural enquanto caricaturista.

Durante esse tempo, ia estudando os modelos da imprensa parisiense; Ao contrário de outros artistas portugueses que nesse período também estudavam em Paris, como Emmerico Nunes, Manuel Bentes, Acácio Lino, Alfredo Ferraz – modernistas e naturalistas – adquiria um traço mais sintético, de melhor definição formal, fruto da liberdade de quem não dependia dos desenhos para viver.

Em noitadas de sacrifício a Baco, Amadeo, desnudado, fazendo peito, coroa de parras na cabeça e garrafas ao pé; a seu lado, Bentes, Alberto e Emmerico faziam figuração, repetindo poses dos «borrachos» de Velasquez. Devia ser bonito de ver…


Na caricatura de 1910, juntamente com os colegas Manuel Bentes, Eduardo Viana e Emmerico, Amadeo é um rapaz empertigado, o busto envolvido numa capa que lhe esconde parte do rosto, um chapéu sobre os olhos, de pose espanholada.

Assim ele se via na autocaricatura; de peito arqueado e alargando os braços e as mãos enluvadas, caminhando nas pontas da botas para impor uma estatura que não era a sua.

a partir de Amadeo & Almada, de José Augusto França – Bertrand Editora


Será porventura a Exposição mais importante do ano (na Gulbenkian), pela importância da obra de Amadeo Sousa-Cardoso; A expectativa reside em saber se consegue rivalizar com esta.

O desdém da mediocridade

AMADEO DE SOUSA-CARDOSO chegou a Paris em Novembro de 1906, alguns meses depois de Modigliani. Neste período, morria Cézanne, enquanto Picasso pintava «Les Demoiselles d`Avignon».
Em Montmartre, nos ateliers de boémia e miséria, começava uma nova época da pintura ocidental; Em Montparnasse, Amadeo procurava nos ateliers do Boulevard Raspail a admissão às «Beaux-Arts», no seguimento dos estudos iniciados em 1905, na Academia das Belas-Artes em Lisboa.

Desde cedo, Manuel Laranjeira, médico no Porto, exerceu grande influência, no plano intelectual e humano, na evolução do jovem Amadeo, a quem via nos verões da praia de Espinho, onde seus pais tinham casa. As tertúlias no Café Chinês, os passeios a dois e a troca de correspondência tornariam Amadeo seu confidente.

Manuel Laranjeira tinha perante a arte um sentimento de raiz literária da Renascença Portuguesa, entre névoas e saudades.

Este melancolismo não afectava Amadeo, antes lhe provocava desgosto pela futilidade da vida que levava; O tédio das cópias a carvão no casarão do Largo da Biblioteca, as caricaturas de professores e colegas, fraca compensação da mediocridade que deixara em Lisboa e Porto.

Fernando Pessoa chegava a Portugal , Santa-Rita pintava o «Orfeu do Inferno» e Almada Negreiros tinha dez anos de idade.

Amadeo, a quem Manuel Laranjeira vaticinara que «haveria de vencer, haveria de triunfar», desenhou o corpo do amigo enrodilhado numa cadeira de café, abandonado, escorregando, um braço estirado sobre o tampo, outro torcido para as costas da cadeira, as pernas magras torcidas e a trunfa negra saindo do chapeirão enfiado pela cabeça abaixo, boneco desarticulado, só de costas e à deriva do destino…


No verão de 1907, Amadeo abandonava os estudos na Escola de Arquitectura, enquanto confessava que, longe de ter perdido tempo por concluir não ter vocação, antes tinha alargado os seus conhecimentos artísticos , cuja utilidade se reflectia na sua evolução natural enquanto caricaturista.

Durante esse tempo, ia estudando os modelos da imprensa parisiense; Ao contrário de outros artistas portugueses que nesse período também estudavam em Paris, como Emmerico Nunes, Manuel Bentes, Acácio Lino, Alfredo Ferraz – modernistas e naturalistas – adquiria um traço mais sintético, de melhor definição formal, fruto da liberdade de quem não dependia dos desenhos para viver.

Na caricatura de 1910, juntamente com os colegas Manuel Bentes, Eduardo Viana e Emmerico, Amadeo é um rapaz empertigado, o busto envolvido numa capa que lhe esconde parte do rosto, um chapéu sobre os olhos, de pose espanholada.

Assim ele se via na autocaricatura; de peito arqueado e alargando os braços e as mãos enluvadas, caminhando nas pontas da botas para impor uma estatura que não era a sua.

Em noitadas de sacrifício a Baco, Amadeo, desnudano, fazendo peito, coroa de parras na cabeça e garrafas ao pé; a seu lado, Bentes, Alberto e Emmerico faziam figuração, repetindo poses dos «borrachos» de Velasquez.

in Amadeo & Almada, de José Augusto França – Bertrand Editora

Será porventura a Exposição mais importante do ano (para a Gulbenkian), pela importância da obra de Amadeo Sousa-Cardoso; Será que consegue rivalizar com esta?

Lisbon Underground Music Ensemble

Com alguns dos músicos mais experientes da cena Jazz e da música Erudita, o Lisbon Underground Music Ensemble apresenta um espectáculo intenso e enérgico, rico em sonoridades que vão das mais caóticas e explosivas improvisações aos mais subtis ambientes cinematográficos.

O compositor Marco Barroso dirige esta formação de 15 músicos interpretando um conjunto de obras que atravessam os mais variados contextos estéticos; da Música Erudita, Contemporânea, ao Jazz, Rock, Funk, Transe entre outros; aliando a música escrita e a complexidade dos arranjos com a improvisação.

Biografia dos músicos:

Formação
Marco Barroso – Direcção, composição e piano
Flauta – Manuel Luís Cochofel
Clarinete – Paulo Gaspar
Sax Soprano – Jorge Reis
Sax Alto – João Pedro Silva
Sax Tenor – José Menezes
Sax Baritono – Elmano Coelho
Trompetes: Jorge Almeida/ João Moreira/Pedro Monteiro
Trombones: Luis Cunha/ Eduardo Lála/ Pedro Canhoto
Piano – Marco Barroso
Contrabaixo/Baixo Electrico – Yuri Daniel
Bateria – Pedro Silva

Concertos:
Dia 23 de Novembro às 18h30 – Trem Azul Jazz Store – Lisboa
Dia 25 de Novembro às 21h30 – Teatro Académico Gil Vicente – Coimbra

Encontro de Luis Cernuda com Verlaine e o Demónio


Por uma senda cheia de ametistas e gotas
de sangue de mancebos,
chegou Luis Cernuda
ao inferno. Contempla o âmbito terrível,
ouve as vozes longas como rastros de cobra,
junta as mãos num gesto de aceitação.
Depois, banhado de uma rubra luz,
continua a andar. De súbito,
um homem – barba nobre, olhos sem mácula –
aproximou-se dele.
Sobre o ombro pôs-lhe
a sua mão, detém-o. Diz:
– Sê benvindo, Luis Cernuda,
ao nosso reino. Tira a gravata, se quiseres,
pois está calor
neste eterno verão onde irrompeste,
e conta-me. Não ignoro
que me exaltaste em versos doloridos,
queixando-te do mundo sem verdade que deixaste.
Dir-te-ei, Luis Cernuda, que comigo
não está Rimbaud;
foi ofício do destino separar-nos.

Fala sem medo. Senta-te
nesta rocha. Fala-me do mundo.

Luis Cernuda fitou
Verlaine. Mas cala-se.

Verlaine já não pergunta, olha
os dedos finos, nobres,
a presença andaluza,
e abismam-se ambos num silêncio denso.

Um vento leve areja
o tecto de seda do inferno,
quando o demónio surge,
reclama
sua humana presa última.
Os lábios do demónio, formosos, perturbantes,
abrem-se para emitir o seu juízo:

– Luis Cernuda, amaste
tudo quanto a terra te oferecera,
desde a andorinha da Sevilha onde nasceste
até à dor de ferro de teu exílio.
Por ti viveram, reviveram
um olor de laranjais em flor,
um rapaz a vender jasmins na rua,
a morte do inverno,
uma tempestade de pombas.
Ódio não houve na tua vida, filho,
mas dor e confessada ferida.
Aceito-te. Passeia
em meus domínios,
recolhe o fogo inédito,
afaga as aves que teus cabelos roçam,
entra em tua cidade, esta
nova Sevilha para ti guardada,
feita à tua cálida medida,
olorosa, e não a gentes que te humilhem.
Porque purgaste em lágrimas o que não mereceste.

Luis Cernuda, assombrado,
pôs-se de pé, todo luz.
Verlaine sorri. Cantam arcanjos e santos,
que rodeiam o trio. Luis Cernuda
compreendeu. Fala por fim,
pode dizer apenas, num suspiro imenso:

– Deus meu.

(Manuel Mantero)

o sonho é uma extensão lógica da vida

Excelente prenda para o Natal que se aproxima, esta edição especial de Tabacaria.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do Sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal-disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


(Álvaro de Campos)

A Guitarra Portuguesa

A guitarra portuguesa é um instrumento muito difundido em Portugal sendo o que mais se aproxima do sentimento Lusitano do povo português.

A guitarra portuguesa tem um timbre de tal modo inconfundível que, onde quer que esteja, qualquer português a reconhece aos primeiros acordes. É um instrumento musical carregado de simbolismo e, à mercê da sua longa aliança com o Fado, é conotado com o “modo de ser” português. Destino, fado e saudade são palavras que naturalmente se associam ao trinado da guitarra portuguesa.

“Para interpretar o Fado, nenhum instrumento mais de jeito que a guitarra. Está costumada a cantar tristezas desde a mais remota antiguidade e além disso fala tão baixinho que não chega a incomodar os grandes, os felizes, os opulentos. É quase uma criança que chora ou uma mulher que suspira. Impressiona e não atordoa. Faz-se ouvir, mas não se impõe.” – citação de Alberto Pimentel, em Photographias de Lisboa, pág.64.

De origem bastante remota, foi outrora designada por guitarra mourisca, por ter certa semelhança com o alaúde, que os árabes introduziram na Península Ibérica sendo, no entanto, as características dos dois instrumentos algo distintas.

As origens da guitarra portuguesa remontam à Idade Média, a um instrumento chamado cítula. Esta evoluiu ao longo dos tempos, passando pela cítara, culminando na guitarra portuguesa.

Começando por ser instrumento habitual nos salões da alta burguesia, sobreviveu e transformou-se nas mãos do povo, para se tornar, actualmente, num instrumento popular.

A guitarra de Fado, como é hoje designada, foi durante muito tempo conhecida por guitarra inglesa. A razão desta designação era devida ao seu fabrico, em Inglaterra, por um violeiro famoso chamado Simpson, o qual fabricava os melhores instrumentos deste género, alguns dos quais eram exportados para Portugal.

Para a construção de qualquer guitarra portuguesa, usam-se madeiras importadas desde a Idade Média, já que os fundos e ilhargas da guitarra têm de ser fabricados em pau-santo, ácer ou mogno. O tampo é executado em spruce, ou pinho da Flandres. Mas, “a grande diferença entre uma boa guitarra e uma má, feitas exactamente com a mesma madeira está na mão do construtor”(citação de Pedro Caldeira Cabral, actualmente uma das maiores autoridades em guitarra portuguesa e música antiga).

A guitarra portuguesa é, em linguagem técnica, um cordofone composto, cuja caixa harmónica é periforme, ou seja, tem forma de pêra. É constituído por seis pares de cordas e já teve diversas afinações, mas a que realmente se enraizou foi a a Afinação de Fado: a começar pelas cordas mais agudas, Si – Lá – Mi – Si – Lá – Ré.

Existem três tipos de guitarra portuguesa: a de Lisboa, a do Porto e a de Coimbra, com diferentes tradições de fabrico. A de Lisboa é a mais pequena das três, com caixa baixa arredondada e é a que possui o som mais “brilhante”. A de Coimbra é maior, com o corpo assumindo uma forma mais aguçada. A do Porto é semelhante à de Lisboa. Uma das principais diferenças reside na cabeça da guitarra: a de Coimbra possui uma lágrima incrustada, enquanto que a de Lisboa apresenta um caracol.

Que pena não ter atingido a maioridade…

1971: No Início era o Cascais Jazz…

Começa assim este excelente artigo publicado na Blitz deste mês e assinado por João Moreira dos Santos do Jazz no País do Improviso, para assinalar a passagem dos 35 anos sobre o primeiro grande festival de jazz em Portugal.


Pouco passava das 22h00 quando no dia 20 de Novembro de 1971 o septeto do lendário Miles Davis subia ao palco do Pavilhão do Dramático para dar início ao primeiro Cascais Jazz. Cerca de 12 mil pessoas, incluindo alguns notáveis, como Amália Rodrigues, Zeca Afonso, Alexandre O’Neil e Adriano Correia de Oliveira, assistiam nessa noite ao nascimento de um dos mais importantes eventos culturais realizados em Portugal, que até então só rivalizara em audiência com o Festival de Vilar de Mouros, realizado quatro meses antes.

Quem estava desde logo bem ciente da importância do Cascais Jazz era Miles Davis, pelo que exigiu ser o primeiro músico a tocar, como recorda João Braga: «Ele disse-me uma coisa que nunca mais me esqueci: “este é o primeiro festival de jazz em Portugal e quero ser eu a abri-lo. Os outros só podem tocar a seguir a mim”». E entre os outros encontrava-se nada menos do que Ornette Coleman, que estava previsto tocar antes e não achou graça nenhuma às exigências do trompetista.

Miles Davis estreava-se em Portugal e trazia na sua bagagem musical a sonoridade e o repertório de quatro discos: Bitches Brew, que criara a fusão entre o jazz e o rock, Black Beauty, Live at the Fillmore East e Live Evil. Quem esperava, pois, ouvir o Miles do tempo dos seus lendários quintetos dos anos 50 e 60 não podia deixar de estranhar este projecto de ruptura, claramente orientado para audiências mais jovens. Talvez por isso o mago do trompete já não usava fatos de alta-costura italiana, apresentando-se agora como uma estrela do rock. Diniz de Abreu descrevia assim no Diário Popular a sua nova indumentária: «Colete de pele preto, camisa da mesma cor, calça verde acetinada, muito justa, um lenço ao pescoço, caído em duas pontas; cinto dourado; botas prateadas; óculos escuros».

Miles subiu ao palco juntamente com Keith Jarrett (piano eléctrico), Gary Bartz (saxofone), Michael Henderson (baixo eléctrico), Don Alias e James Foreman (percussão) e Leon Chandler (bateria). A suportar a sua música predominantemente eléctrica e funky, com o trompete de Miles ligado a um pedal de efeitos (wah-wah e volume), estava um sistema de som de duas toneladas. Um dos músicos mais notados deste septeto foi o pianista Keith Jarrett, conforme noticiava o Diário de Lisboa na crítica ao festival: «(..) Um solo deste último marcou profundamente toda a assistência, absolutamente conquistada». Porém nem todos se renderam à nova sonoridade de Miles. Duarte Mendonça era um deles, como recorda actualmente: «Deixou-me um pouco perplexo porque era uma música que eu nunca tinha ouvido. Eu vinha do melhor do Miles dos anos 50/60…».

Também a peculiar atitude de Miles em palco não surpreendeu menos os jornalistas presentes. Na revista O Século Ilustrado, Maria Antónia Palla reportava: «Quando Miles pára e deixa tocar o seu conjunto, fica a um canto do palco, o corpo inclinado para a frente, as mãos fixadas nos joelhos, balançando-se como um felino selvagem pronto a saltar sobre a presa. O rosto cerrado, sem deixar transparecer a menor emoção, fixa o olhar num ponto indeterminado. (…) Numa hora passada de exibição, nem um sorriso. Como se o público não contasse, como se a multidão fosse um inimigo potencial». Já Fernando Cascais, então jornalista da revista Flama e que teve a rara sorte de ficar num canto do palco durante este concerto, escrevia: «Miles foi uma figura que impressionou a assistência. Dobrado sobre a trompete, as notas e os magníficos sons que dele saíam tinham o mistério e o timbre que tornam o seu possuidor inconfundível entre os trompetistas de jazz». João Braga era também um espectador atento ao que se passava em palco e um facto em especial chamou a sua atenção para Miles Davis: «A água que escorria das costas dele durante o concerto era algo inumano, certamente por causa das profaminas [ver caixa]. Quando ele no final do concerto chegou aos camarins nem conseguia articular uma frase».

Em noite de sons funky e eléctricos, o gigante do jazz impressionou a diva do fado. Amália Rodrigues encantou-se com Miles e Gary Bartz mas teve alguma dificuldade em compreender a sua música: “Não, totalmente não entendi. Eu sei que há qualquer coisa de vez em quando que acontece e que me toca, mas de resto não sei nada, não entendo nada de jazz. É para ver se entendo alguma coisa que eu vim ver”.

De 1971 a 1980 o Pavilhão do Dramático foi uma verdadeira casa para os maiores jazzmen e bluesmen. Integrados no Cascais Jazz, por ali passaram, entre muitos outros, Jimmy Smith, Cannonball Adderley, Dave Brubeck, B.B. King, Duke Ellington, Sarah Vaughan, McCoy Tyner, Charles Mingus, Sonny Rollins, Gil Evans, Muddy Waters, Art Blakey & The Jazz Messengers, Betty Carter, Freddie Hubbard e Buddy Guy.

(…) Depois de Ornette Coleman ainda actuaram o quarteto The Bridge e Dexter Gordon. O primeiro pouco mais foi do que uma ponte para a actuação de Dexter Gordon, prejudicado por uma aparelhagem sonora que mal deixava ouvir o saxofone de João Ramos Jorge (Rão Kyao) que improvisava sobre a harmonia e o ritmo de Kevin Hoidale (piano), Jean Sarbib (contrabaixo) e Adrien Ransy (bateria).

Com a acumulação de atrasos, Dexter Gordon acabou por subir ao palco eram já três horas da madrugada… actuando perante um sala bem menos cheia. Acompanhado por Marcos Resende (piano), Jean Sarbib (contrabaixo) e Manuel Jorge Veloso (bateria), fez soar a sua música até por volta das cinco horas… Desta experiência recorda-se bem Manuel Jorge Veloso, que já em 1967 havia tocado com Dexter Gordon numa jam-session em Coimbra: «É impossível dar uma pálida ideia do que significou para mim ter pisado o palco com um músico da grandeza do Dexter Gordon, até por se tratar de um primeiro grande festival português que (já então se percebia) iria fazer história.

Mas talvez ainda mais importante do que esse momento, em concreto, foi poder conviver diariamente com ele (nos poucos dias que tivemos, para ensaiar, conhecer os segredos da música, acertar agulhas e tocar algumas noites no Hot Clube Portugal), confirmar a sua qualidade musical e descobrir as suas qualidades humanas, como músico e homem sensível, nada arrogante, paciente e incentivador, fazendo com que esta aventura – nessa época, era de facto uma aventura! – fosse afinal, para nós, uma coisa natural. Inesquecíveis, ainda, os ensinamentos e a confiança que ele nos transmitia, as histórias que contava, os seus gestos lentos, a forma como mexia o corpo, apresentava o saxofone aos que o ouviam e dizia os títulos das peças que tocava, para já não falar das sonoras gargalhadas que jamais voltei a ouvir…».

Texto de João Moreira dos Santos

O menino António

Melhor Álbum – Salazar, agora na hora da sua morte
Autores: Miguel Rocha (desenho), João Paulo Cotrim (argumento)
Editora: Parceria A.M.Pereira

Melhor argumento de autor português
Argumentista: João Paulo Cotrim
Obra: Salazar, agora na hora da sua morte

Melhor desenho de autor português
Desenhador: Miguel Rocha
Obra: Salazar, agora na hora da sua morte

Sobre este álbum de banda desenhada super-premiado, recomenda-se a posta do Pedro Vieira de Moura, no LerBD.
A lista dos outros trabalhos premiados está no Beco das Imagens

Para melhor perceber esta biografia sobre António de Oliveira Salazar, as visitas aqui, aqui e aqui são absolutamente obrigatórias.

Grande vencedor do FIBDA 2006, este ambicioso álbum resulta em grande parte do virtuosismo de Miguel Rocha.

As ilustrações difusas caracterizam bem a figura histórica do menino António, que brinca com a estátua de D. José no Terreiro do Paço.

A descrição da vida do Salazar absurdo e obsessivo – nas palavras de João Cotrim – que fez de Portugal muito daquilo que ainda é hoje, é tudo menos uma abordagem superficial desta figura histórica; É um documento interessantíssimo e bem fundamentado, que requereu aos autores um grande trabalho de pesquisa, bem patente nas colagens, muito bem conseguidas. Parabéns à editora!
Chega de adjectivar. Time to read!

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«É um olhar que respeita a personagem, um ditador algo absurdo que é o resultado de um determinado momento histórico», que pretende «humanizar a figura de Salazar, para o tirar da categoria dos mitos, porque foi uma figura histórica num tempo histórico».
«É altura de o matar de vez e de o colocar no seu lugar histórico, porque a sensação que dá é que ainda não estamos reconciliados com o passado»
João Paulo Cotrim

Ao nível gráfico, o livro foi totalmente desenhado no computador, com infografias, colagens e montagens, recorrendo a fotografias e recortes de jornais.

A imagem que atravessa todo o livro é feita ainda de traços esfumados, desfocados, em tons monocromáticos e sombrios, com preto, branco e ocre, e com uma unidade gráfica que ajuda a definir a imagem de Salazar

Miguel Rocha

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