pessoal e transmissível


O blog Geração Rasca lança o desafio para a eleição dos melhores blogues de 2006, mas com certas e determinadas regras!

Entre os méritos da simpática iniciativa está a possibilidade de descobrir novas paisagens, bem como vencer alguma (muita) preguiça em deambular pela blogosfera nos últimos tempos.

Na impossibilidade de conhecer todos os nomes-próprios e/ou perífrases da bloga, esta escolha resulta unicamente de afinidades e gostos pessoais.

MELHOR BLOG INDIVIDUAL FEMININO
Abrigo de Pastora
Blogzira
Divas & Contrabaixos
Eclético
Erotismo na Cidade
Pecola

MELHOR BLOG INDIVIDUAL MASCULINO
Blue Lounge
Estação Central
Je Maintiendrai
Ma-Schamba
Sobre o tempo que passa
Uma sandes de atum

MELHOR BLOG COLECTIVO
Blasfémias
Bitaites
Dias com árvores
O Futuro Presente
O Insurgente
Tugir

MELHOR BLOG TEMÁTICO
Divulgando Banda Desenhada
Noite Americana
Coisas de outros tempos
Estrela Cansada
Leituras
O Século Prodigioso

MELHOR BLOG 2006
Almocreve das Petas
Câmara Corporativa
Da Literatura
Educação Sentimental
french kissin`
Miniscente

MELHOR BLOGGER
Eduardo Pitta
José Manuel Fonseca
Jorge Ferreira
Rodrigo Adão Fonseca
Rui Albuquerque
Paulo Ferrero

Frei Carlos e o Belo Portátil

De origem flamenga e tendo professado em 1517 no antigo Convento do Espinheiro, junto a Évora, o monge-pintor Frei Carlos foi uma das mais proeminentes e lendárias figuras da pintura retabular em Portugal nas primeiras décadas do século XVI e alguns dos grandes painéis que a sua oficina pintou para os altares daquele convento jerónimo são das obras mais apreciadas na colecção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Mas se é nestes grandes formatos que a pintura do Espinheiro revela desde logo especial originalidade, demonstrando em tais registos uma invulgar capacidade de integração espacial dos elementos da imagem em situações narrativas, não deixa de ser nos pequenos painéis devocionais que se afirma com especial nitidez uma sedutora técnica de utilização da própria matéria pictural, sendo também por aí que melhor se reconhece a sua ascendência na inconfundível tradição flamenga.

Esta exposição considera essa particular vertente da produção criativa da Oficina do Espinheiro, a das imagens religiosas para contemplação, meditação e oração individual ou privada, pinturinhas portáteis ou de oratório privativo que, na cela monástica, estimulavam uma piedade afectiva na contemplação de figuras de Cristo, da Virgem com o Menino ou de S. Jerónimo no deserto.

O ponto de partida e fulcro do percurso expositivo é uma obra inédita de Frei Carlos recém-adquirida para a colecção do MNAA, uma belíssima representação do Ecce Homo (39,5 x 31 cm). Submetida a exames fotográficos e radiográficos, essa documentação sobre a peça é apresentada em termos comparativos com documentação congénere de outras pinturas de tipo devocional produzidas no Espinheiro.
A exposição procura assinalar, através de 30 pinturas de pequeno formato mas de grande qualidade, a extraordinária procura de imagens devocionais na Europa do final da Idade Média e início do Renascimento, correspondendo a uma certa expressão do sentimento religioso e a um incremento do pietismo individual nessa época. As obras são de autoria predominantemente flamenga e portuguesa e algumas das pinturas mais qualificadas provêm de colecções privadas, nunca ou muito raramente tendo sido expostas ao público.

Jesus Cristo está a chorar. Várias lágrimas, oito, escorrem-lhe pela cara. A luz incide sobre elas. Algum sangue surge entre os lábios. O novo Ecce Homo do Museu de Arte Antiga, uma pequena pintura, com 40 centímetros de altura e 30 de largura, é uma obra para se ver muito de perto.
Frei Carlos, o pintor monge do século XVI, fê-la exactamente a pensar nessa proximidade. Fê-la também a pensar que a pudessem levar de um lado para o outro, como um Livro de Horas. “As pessoas meditam, rezam, oram em frente a estas imagens. É uma devoção mais humanista.(…)

Finalmente, coroando uma das componentes iconográficas do percurso expositivo, apresenta-se também o painel Virgem com o Menino e Anjos (1536-38), da autoria de Gregório Lopes, que acaba de ser restaurado pelo Departamento de Conservação do MNAA.

Uma pintura do século XVI para rezar em casa
Isabel Salema – Público

Esta pequena exposição temporária junta 30 obras, 23 das quais são pinturas com esta dimensão pequena. “É essa tipologia de pequeno formato que dá à peça um carácter portátil.” O quadro recém-adquirido pode ter sido pintado para um prior de um convento o utilizar e apreciar em privado. “Estas peças querem estimular um diálogo piedoso com o sagrado numa dimensão privada. É o que nos diz o Ecce Homo do ponto de vista material, mas não há lastro do ponto de vista histórico.” Não se sabe de onde vem, a não ser que estava no século XIX na colecção privada de Jorge O”Neill, em Lisboa.
“Há um realismo sereno na figura. Tem o sangue a escorrer e está como se nada fosse. Mas não deixa de ser fortemente dramática, porque a associamos ao heroismo de Cristo. O diálogo emotivo concentra-se no olhar directo de Cristo, profundamente humanista.” Essa intenção interpelativa, de experiência imediata com a divindade, tem também um carácter sensorial.

O mais poético dos luso-flamengos
Estas peças de devoção privada são o inverso dos grandes retábulos das igrejas – Frei Carlos pintou vários, alguns encomendados pelo rei D. Manuel I -, que podemos considerar a arte pública da época. Ao contrário dos retábulos, onde há uma narrativa detalhada, no Ecce Homo não há representação do espaço ou do tempo. Estas imagens de devoção privilegiam a figura de Cristo e da Virgem Maria, num retrato em busto ou meio-corpo.
Frei Carlos é uma das figuras lendárias da pintura portuguesa. José Alberto Seabra diz que a descoberta desta pintura “foi uma surpresa fortíssima”. É “inconfundivelmente” um Frei Carlos no estilo e terá sido pintada na década em que esteve mais activo, os anos 20 e 30 do século XVI. “Tem essa característica dos bons pintores flamengos, como Van Eyck e Roger Van der Weiden: consegue um apurado realismo da forma e simultaneamente uma idealização poética. Junta o real com o ideal.” As mãos é o que mais impressiona José Alberto Seabra no quadro. “Parecem as de uma Madona. Ele é o mais poético dos luso-flamengos.”
Frei Carlos é entre os pintores três luso-flamengos da época – além dele há Francisco Henriques (o favorito do rei) e o Mestre da Lourinhã – o que melhor domina a perspectiva, uma visão racionalizada do espaço, como se vê nos retábulos. São estes três, aliás, os melhores pintores em Portugal no início do século XVI. Frei Carlos terá estudado em Bruges ou Antuérpia e vem para Portugal porque cá há trabalho.

O primeiro documento que se conhece sobre o monge-pintor é aquele que diz que professa no Convento do Espinheiro, em Évora, em Abril de 1517. “Eu Frei Carlos de Lisboa flamengo faço profissão…” Em 1540, sabe-se que terá morrido, porque outro documento refere o destino a dar ao espólio que estava na sua cela. Depois, várias crónicas falam-nos da sua fama como pintor.

Próximo da cidade de Évora, e bem no coração das vastas planícies Alentejanas, ergue-se o antigo e agora renovado Convento do Espinheiro, transformado num surpreendente hotel de luxoEste convento tem a sua origem numa lenda que relata a aparição da Virgem sobre um espinheiro. Em 1458, dada a importância deste local como destino de peregrinações, foi fundada uma igreja e posteriormente o convento que chegou a receber a visita de reis de Portugal.

“Ele tem uma produção em circuito fechado. Terá só feito obras para os conventos da sua ordem, a dos monges de São Jerónimo.” O Espinheiro, mas também os Jerónimos em Belém, Santa Marinha da Costa em Guimarães ou a Pena em Sintra. A oficina de Frei Carlos, instalada no Convento do Espinheiro, é a única em Portugal, na sua época, que faz estas imagens de devoção, chamadas imago pietatis.
Nos Países Baixos, estas pinturas devocionais de pequeno formato são comuns desde o século XV. (…)

uma obra-prima para admirar enquanto se está VIGO

Um Inverno difícil: Dezembro de 1933.
Um realizador teimoso e doente: Jean Vigo.
Um produtor inexperiente e opinativo: Jacques-Louis Nounez. Dois actores célebres: Michel Simon, que tinha acabado de se impor com “Jean de la Lune” e “Boudu Sauvé des Eaux”, e Dita Parlo, vedeta berlinense.
Um terceiro protagonista, amigo de Vigo e também herói da sua média-metragem proibida, “Zéro de Conduite”, Jean Dasté.
Um argumento minimalista, púdico e violento ao mesmo tempo; a esposa de um marinheiro que o troca por um bufarinheiro.
Um director de fotografia inspirado: Boris Kaufman.
Um músico de talento: Maurice Jaubert.
E uma obra-prima mítica: L’ ATALANTE.
Começa então a maldição deste filme. 5 de Outubro de 1934: Jean Vigo, extremamente esgotado pela rodagem e sofrendo de septicemia, morre. Tinha vinte e nove anos e deste filme não viu senão uma primeira montagem…
Um filme de Jean Vigo Com Michel Simon, Dita Parlo, Jean Dasté
Extras do dvd: De L’ Atalante a L’ Atalante – A história de um restauro.

Em L’Atalante, o visionário Jean Vigo combina o experimentalismo surrealista e uma nova perspectiva do detalhe para, numa nova linguagem cinematográfica – até então só visível em Murnau -, contar uma história de encontros e desencontros amorosos de gloriosa simplicidade, enquanto nos mostra Paris com uma luminosidade que só encontramos em Cartier Bresson.
São quatro, as obra-primas poéticas do diretor Jean Vigo:
A Propos de Nice, 1929 / Taris, Roi de L’eau,1931 / Zero de Conduite, 1933 e L’Atalante, 1934
L’ Atalante será exibido a 10 de Fevereiro de 2007 no Grande Auditório da Gulbenkian, integrado no Ciclo 50 filmes inesquecíveis.

Sobre a ressurreição do filme, leitura recomendada: “Je force le spectateur…” Jean Vigo


Jean VIGO

Cinéaste français, d’origine catalane, né à Paris le 24 avril 1905.
Fils de l’anarchiste Eugène-Bonaventure de Vigo, plus connu sous le nom de Miguel de Almereyda, Jean Vigo a laissé dans sa trop brève, mais fulgurante carrière l’empreinte d’une œuvre incandescente, poétique et fraternelle, sans concessions “à la loi des forains”.
Ses écrits, comme ses films, témoignent d’une volonté farouche et passionnée de concilier la poésie des images et le désir de justice sociale ; l’approche chaleureuse des êtres et la révolte contre le désordre établi et ses “éternels voleurs d’énergie”.
Sa vie de météore souffrant est hantée par les violences criminelles du monde et habitée par une soif rebelle de vivre et d’aimer.
Il meurt à Paris le 5 octobre 1934.

Jardins Românticos de Lisboa – PGR

O edifício que hoje é conhecido pela designação de Palácio Palmela fica situado numa propriedade, fronteira à antiga Fábrica das Sedas, que foi termo dos terrenos outrora pertencentes ao Noviciado da Cotovia.

Com a forma de um triângulo, definido a partir do chafariz do Rato, pela Rua do Salitre e pela antiga Rua Direita da Fábrica das Sedas, hoje Rua da Escola Politécnica, a propriedade é cercada por uma muralha, de altura considerável, que tem por função suster os terrenos, dada a diferença de cotas entre o jardim e aquelas duas artérias.
Esta muralha, que é inteiramente revestida de pedra lioz e coroada por uma balaustrada interrompida a espaços por plintos, que sustentam urnas em cerâmica, integra-se harmoniosamente com o chafariz, construído dois séculos antes na mesma pedra.
Um simples muro separa o jardim, a nascente, dos quintais que lhe são contíguos contrastando, em simplicidade, com o resto da cerca.
Neste perímetro, além do Palácio, existem várias construções. Acima da barreira, no ângulo poente, em frente à Fábrica das Sedas, eleva-se um pequeno pavilhão, de gosto inglês na concepção, mas que, segundo a tradição portuguesa, serve de mirante.

fonte: PGR


Localizado a norte do jardim, o atelier da duquesa D. Maria Luísa, de aspecto rústico de sabor nórdico, devido ao seu revestimento exterior, simulando vigamentos de madeira. Hoje alberga o departamento de informática.
A seguir às casas de arrumos, existe uma estufa centenária cujos vidros são praticamente todos originais.

Pelo jardim estão espalhados alguns canteiros em pedra, como este, revestidos com azulejos originais.


Um dos dois candeeiros de pé alto, originais; Este tem ainda marcas de balas aquando a revolução de 1910. Existem mais vestígios de balas mas estes são os mais visíveis.


No jardim passeiam-se melros, entre outras aves, de que se salientam alguns patos que frequentam o lago durante a madrugada (?) até às 8h da manhã (?). Ninguém sabe de onde vêm.


Durante a Lisboa 94, o jardim tinha iluminação nocturna. Depois disso, deixou de haver verba!


Nesta zona do jardim existem duas castanheiras da Índia que dão ao mesmo tempo castanhas maduras e verdes, devido à exposição solar. Estas castanhas não são boas para comer, apenas para afastar a bicharada nas gavetas e armários da roupa.
Existe também ao pé da estufa uma árvore de incenso. Por baixo do jardim existem galerias que se estendem até ao Príncipe Real, mas que não estão acessíveis. Gostava de saber quem tem a chave!


Na relva, assimétrica, existem falhas devido em parte à fraca exposição solar; Estão plantadas duas varideades, uma das quais é a chamada relva chinesa, por ser de tufos….


Um estagiário da Faculdade de Agronomia apresentou um projecto que consistia na colocação dum chip nas árvores, a fim de medir o seu estado de saúde.
A PGR não aderiu por falta de verbas, apenas tendo convidado o jovem para falar sobre os jardins, nas comemorações agendadas para o próximo ano.

O Carmo e a Trindade

Este é um blogue plural onde o denominador comum dos seus Autores é a paixão por Lisboa, que cada um vive à sua maneira. Não é um blogue político.


Não é um blogue filosófico. Não é um blogue de divulgação. Não é um blogue de poesia ou de ficção. Tão pouco de realidade. Não é um blogue do poder nem da oposição. Não é um blogue de história. Não é um blogue de opinião. Mas ao mesmo tempo também é. Porque cada vez mais a política é demasiado importante para ser apenas entregue aos políticos.

O Carmo e a Trindade é isto tudo ao mesmo tempo e o mais que as desvairadas gentes que aqui autoram quiserem que seja e fizerem dele.

As opiniões aqui expostas vinculam apenas os próprios. A política editorial é simples. Liberdade nos comentários, com excepção aos insultos, que serão apagados. Num ponto todos estamos de acordo: Lis é Boa, mas podia ser ainda melhor. É isso que todos queremos. Sem medo.

Aqui cairá o Carmo e a Trindade, se for necessário. Mas a luz, o Tejo, o ar, as cores, as vielas e os horizontes também.

Com título e prosadores desta estirpe… tenham medo, muito medo.

O desdém da mediocridade


AMADEO DE SOUSA-CARDOSO chegou a Paris em Novembro de 1906, alguns meses depois de Modigliani. Neste período, morria Cézanne, enquanto Picasso pintava «Les Demoiselles d`Avignon».
Em Montmartre, nos ateliers de boémia e miséria, começava uma nova época da pintura ocidental; Em Montparnasse, Amadeo procurava nos ateliers do Boulevard Raspail a admissão às «Beaux-Arts», no seguimento dos estudos iniciados em 1905, na Academia das Belas-Artes em Lisboa.

Desde cedo, Manuel Laranjeira, médico no Porto, exerceu grande influência, no plano intelectual e humano, na evolução do jovem Amadeo, a quem via nos verões da praia de Espinho, onde seus pais tinham casa. As tertúlias no Café Chinês, os passeios e a troca de correspondência tornariam Amadeo seu confidente.

Manuel Laranjeira tinha perante a arte um sentimento de raiz literária da Renascença Portuguesa, entre névoas e saudades.

Este melancolismo não afectava Amadeo, antes lhe provocava desgosto pela futilidade da vida que levava; O tédio das cópias a carvão no casarão do Largo da Biblioteca, as caricaturas de professores e colegas, fraca compensação da mediocridade que deixara em Lisboa e Porto.

Fernando Pessoa chegava a Portugal , Santa-Rita pintava o «Orfeu do Inferno» e Almada Negreiros tinha dez anos de idade.

Amadeo, a quem Manuel Laranjeira vaticinara que «haveria de vencer, haveria de triunfar», desenhou o corpo do amigo enrodilhado numa cadeira de café, abandonado, escorregando, um braço estirado sobre o tampo, outro torcido para as costas da cadeira, as pernas magras torcidas e a trunfa negra saindo do chapeirão enfiado pela cabeça abaixo, boneco desarticulado, só de costas e à deriva do destino…


No verão de 1907, Amadeo abandonava os estudos na Escola de Arquitectura, enquanto confessava que, longe de ter perdido tempo por concluir não ter vocação, antes tinha alargado os seus conhecimentos artísticos , cuja utilidade se reflectia na sua evolução natural enquanto caricaturista.

Durante esse tempo, ia estudando os modelos da imprensa parisiense; Ao contrário de outros artistas portugueses que nesse período também estudavam em Paris, como Emmerico Nunes, Manuel Bentes, Acácio Lino, Alfredo Ferraz – modernistas e naturalistas – adquiria um traço mais sintético, de melhor definição formal, fruto da liberdade de quem não dependia dos desenhos para viver.

Em noitadas de sacrifício a Baco, Amadeo, desnudado, fazendo peito, coroa de parras na cabeça e garrafas ao pé; a seu lado, Bentes, Alberto e Emmerico faziam figuração, repetindo poses dos «borrachos» de Velasquez. Devia ser bonito de ver…


Na caricatura de 1910, juntamente com os colegas Manuel Bentes, Eduardo Viana e Emmerico, Amadeo é um rapaz empertigado, o busto envolvido numa capa que lhe esconde parte do rosto, um chapéu sobre os olhos, de pose espanholada.

Assim ele se via na autocaricatura; de peito arqueado e alargando os braços e as mãos enluvadas, caminhando nas pontas da botas para impor uma estatura que não era a sua.

a partir de Amadeo & Almada, de José Augusto França – Bertrand Editora


Será porventura a Exposição mais importante do ano (na Gulbenkian), pela importância da obra de Amadeo Sousa-Cardoso; A expectativa reside em saber se consegue rivalizar com esta.

O desdém da mediocridade

AMADEO DE SOUSA-CARDOSO chegou a Paris em Novembro de 1906, alguns meses depois de Modigliani. Neste período, morria Cézanne, enquanto Picasso pintava «Les Demoiselles d`Avignon».
Em Montmartre, nos ateliers de boémia e miséria, começava uma nova época da pintura ocidental; Em Montparnasse, Amadeo procurava nos ateliers do Boulevard Raspail a admissão às «Beaux-Arts», no seguimento dos estudos iniciados em 1905, na Academia das Belas-Artes em Lisboa.

Desde cedo, Manuel Laranjeira, médico no Porto, exerceu grande influência, no plano intelectual e humano, na evolução do jovem Amadeo, a quem via nos verões da praia de Espinho, onde seus pais tinham casa. As tertúlias no Café Chinês, os passeios a dois e a troca de correspondência tornariam Amadeo seu confidente.

Manuel Laranjeira tinha perante a arte um sentimento de raiz literária da Renascença Portuguesa, entre névoas e saudades.

Este melancolismo não afectava Amadeo, antes lhe provocava desgosto pela futilidade da vida que levava; O tédio das cópias a carvão no casarão do Largo da Biblioteca, as caricaturas de professores e colegas, fraca compensação da mediocridade que deixara em Lisboa e Porto.

Fernando Pessoa chegava a Portugal , Santa-Rita pintava o «Orfeu do Inferno» e Almada Negreiros tinha dez anos de idade.

Amadeo, a quem Manuel Laranjeira vaticinara que «haveria de vencer, haveria de triunfar», desenhou o corpo do amigo enrodilhado numa cadeira de café, abandonado, escorregando, um braço estirado sobre o tampo, outro torcido para as costas da cadeira, as pernas magras torcidas e a trunfa negra saindo do chapeirão enfiado pela cabeça abaixo, boneco desarticulado, só de costas e à deriva do destino…


No verão de 1907, Amadeo abandonava os estudos na Escola de Arquitectura, enquanto confessava que, longe de ter perdido tempo por concluir não ter vocação, antes tinha alargado os seus conhecimentos artísticos , cuja utilidade se reflectia na sua evolução natural enquanto caricaturista.

Durante esse tempo, ia estudando os modelos da imprensa parisiense; Ao contrário de outros artistas portugueses que nesse período também estudavam em Paris, como Emmerico Nunes, Manuel Bentes, Acácio Lino, Alfredo Ferraz – modernistas e naturalistas – adquiria um traço mais sintético, de melhor definição formal, fruto da liberdade de quem não dependia dos desenhos para viver.

Na caricatura de 1910, juntamente com os colegas Manuel Bentes, Eduardo Viana e Emmerico, Amadeo é um rapaz empertigado, o busto envolvido numa capa que lhe esconde parte do rosto, um chapéu sobre os olhos, de pose espanholada.

Assim ele se via na autocaricatura; de peito arqueado e alargando os braços e as mãos enluvadas, caminhando nas pontas da botas para impor uma estatura que não era a sua.

Em noitadas de sacrifício a Baco, Amadeo, desnudano, fazendo peito, coroa de parras na cabeça e garrafas ao pé; a seu lado, Bentes, Alberto e Emmerico faziam figuração, repetindo poses dos «borrachos» de Velasquez.

in Amadeo & Almada, de José Augusto França – Bertrand Editora

Será porventura a Exposição mais importante do ano (para a Gulbenkian), pela importância da obra de Amadeo Sousa-Cardoso; Será que consegue rivalizar com esta?

Lisbon Underground Music Ensemble

Com alguns dos músicos mais experientes da cena Jazz e da música Erudita, o Lisbon Underground Music Ensemble apresenta um espectáculo intenso e enérgico, rico em sonoridades que vão das mais caóticas e explosivas improvisações aos mais subtis ambientes cinematográficos.

O compositor Marco Barroso dirige esta formação de 15 músicos interpretando um conjunto de obras que atravessam os mais variados contextos estéticos; da Música Erudita, Contemporânea, ao Jazz, Rock, Funk, Transe entre outros; aliando a música escrita e a complexidade dos arranjos com a improvisação.

Biografia dos músicos:

Formação
Marco Barroso – Direcção, composição e piano
Flauta – Manuel Luís Cochofel
Clarinete – Paulo Gaspar
Sax Soprano – Jorge Reis
Sax Alto – João Pedro Silva
Sax Tenor – José Menezes
Sax Baritono – Elmano Coelho
Trompetes: Jorge Almeida/ João Moreira/Pedro Monteiro
Trombones: Luis Cunha/ Eduardo Lála/ Pedro Canhoto
Piano – Marco Barroso
Contrabaixo/Baixo Electrico – Yuri Daniel
Bateria – Pedro Silva

Concertos:
Dia 23 de Novembro às 18h30 – Trem Azul Jazz Store – Lisboa
Dia 25 de Novembro às 21h30 – Teatro Académico Gil Vicente – Coimbra

Encontro de Luis Cernuda com Verlaine e o Demónio


Por uma senda cheia de ametistas e gotas
de sangue de mancebos,
chegou Luis Cernuda
ao inferno. Contempla o âmbito terrível,
ouve as vozes longas como rastros de cobra,
junta as mãos num gesto de aceitação.
Depois, banhado de uma rubra luz,
continua a andar. De súbito,
um homem – barba nobre, olhos sem mácula –
aproximou-se dele.
Sobre o ombro pôs-lhe
a sua mão, detém-o. Diz:
– Sê benvindo, Luis Cernuda,
ao nosso reino. Tira a gravata, se quiseres,
pois está calor
neste eterno verão onde irrompeste,
e conta-me. Não ignoro
que me exaltaste em versos doloridos,
queixando-te do mundo sem verdade que deixaste.
Dir-te-ei, Luis Cernuda, que comigo
não está Rimbaud;
foi ofício do destino separar-nos.

Fala sem medo. Senta-te
nesta rocha. Fala-me do mundo.

Luis Cernuda fitou
Verlaine. Mas cala-se.

Verlaine já não pergunta, olha
os dedos finos, nobres,
a presença andaluza,
e abismam-se ambos num silêncio denso.

Um vento leve areja
o tecto de seda do inferno,
quando o demónio surge,
reclama
sua humana presa última.
Os lábios do demónio, formosos, perturbantes,
abrem-se para emitir o seu juízo:

– Luis Cernuda, amaste
tudo quanto a terra te oferecera,
desde a andorinha da Sevilha onde nasceste
até à dor de ferro de teu exílio.
Por ti viveram, reviveram
um olor de laranjais em flor,
um rapaz a vender jasmins na rua,
a morte do inverno,
uma tempestade de pombas.
Ódio não houve na tua vida, filho,
mas dor e confessada ferida.
Aceito-te. Passeia
em meus domínios,
recolhe o fogo inédito,
afaga as aves que teus cabelos roçam,
entra em tua cidade, esta
nova Sevilha para ti guardada,
feita à tua cálida medida,
olorosa, e não a gentes que te humilhem.
Porque purgaste em lágrimas o que não mereceste.

Luis Cernuda, assombrado,
pôs-se de pé, todo luz.
Verlaine sorri. Cantam arcanjos e santos,
que rodeiam o trio. Luis Cernuda
compreendeu. Fala por fim,
pode dizer apenas, num suspiro imenso:

– Deus meu.

(Manuel Mantero)

o sonho é uma extensão lógica da vida

Excelente prenda para o Natal que se aproxima, esta edição especial de Tabacaria.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do Sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal-disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


(Álvaro de Campos)