Literatura explicativa

Poema de Ruy Belo, ilustrado pelo último pôr-do-sol de 2006; não é em espinho mas na praia do abano, ao lado do guincho, o que vai dar no mesmo.
O pôr-do-sol é onde quisermos, ou soubermos escolher…

O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol

nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol

É não morrermos mais é irmos de mãos dadas

com alguém ou com nós mesmos anos antes

é lermos leibniz conviver com os medici

onze quilómetros ao sul de florença

sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico

Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar

ou antero de junto da ermida?

O sol que aqui se põe onde nasce? A quem

passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?

O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes

é sentir como nosso o braço esquerdo

Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém

mulheres recortadas nas vidraças

oliveiras à chuva homens a trabalhar

coisas todas as coisas deixadas a si mesmas

Não mais restos de vozes solidão dos vidros

não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas

não mais o pôr-do-sol apenas pôr-do-sol

Tradición y Vanguardia

Picasso recurre en numerosas ocasiones a El Greco, uno de sus pintores preferidos, en un regreso a sus raíces españolas. Lo hizo en la pintura, como en estos grabados, y lo hizo en una obra literaria titulada precisamente “El entierro del Conde de Orgaz”.
Picasso admiraba la obra de El Greco, especialmente el cuadro
El entierro del Conde Orgaz‘, cuadro al que dedicó este libro, que compuso entre 1957 y 1959 cuando Picasso ya andaba metido en los 80 años

A Severa de Júlio Dantas – 1901

A 30 de Novembro de 1820 nasceu Maria Severa Onofriana, A Severa.Considerada a fundadora do fado, manteve uma relação com o Conde de Vimioso (Dom Francisco de Paula Portugal e Castro).

O Conde assumiu o nome de Marialva na peça de Júlio Dantas, levada à cena no então Teatro D. Amélia, agora Teatro Municipal São Luiz.

A Severa morreu com apenas 26 anos na Rua do Capelão, na Mouraria, vítima de tuberculose.

(Acto II, cenas VIII a X)


SEVERA: Se tu me deixasses? (Agarrando-se ao Conde, desesperadamente) Ah, não! Mas tu não me deixas! Tu não podes! Dize que não me deixas! Eu morria para aqui… Se quiseres, bate-me! Bate-me, mas dize que não me deixas… Dize! Nunca! (Sentindo nos cabelos um beijo do Marialva e mudando a expressão dolorosa num grande riso aberto) Ah! Meu grosseirão! Como eu te quero!
D. JOSÉ (entrando, pela porta entre-aberta, e vendo o desalinho dos móveis e o sangue do soalho): Sangue… Que foi isto?
MARIALVA: És tu? (Com serenidade) Nada. Uns malandros que eu tive de correr à navalha.
D. JOSÉ (vendo-lhe a mão ensanguentada): Feriram-te?
MARIALVA (enrolando um lenço): De raspão.
D. JOSÉ: Não tens juízo!
SEVERA (vendo o lenço empapado): Estás a escorrer sangue… (Saindo para o quarto) Vou buscar água.
D. JOSÉ (ao CONDE): Vês? Antes tivesse ido!
MARIALVA (com curiosidade): Então, que há?
D. JOSÉ (a meia-voz): Só o tempo de chegar e de falar à Marquesa. Quando lhe disse que ias mais tarde, que talvez não fosses, perdeu a cor, cerrou os dentes… Tive de a amparar. Só me disse estas palavras: «Ah! D. José! Eu sei, é uma cigana… Se é meu amigo, vá… Traga-o! Traga-o!» Depois, escreveu qualquer coisa neste lenço, e pediu-me que to trouxesse. (Dando um lenço ao Conde) As rabecas choravam, na sala amarela…
MARIALVA (desdobrando, à luz, o lenço de rendas, e lendo, escrito a lápis, na cambraia): «Venha. Amo-o…»
D. JOSÉ (com entusiasmo mal contido): Uma onda de fardas e de casacas perseguia-a… As golas altas, bordadas de palmas de oiro, brilhavam-lhe em volta… E ela, alheia a tudo, a adorar-te, a querer-te num desespero, com todo o seu sangue a suspirar por ti! E as outras, e todas!… Sabes lá! Sabes lá!
MARIALVA (correndo à Severa, que entra e põe um jarro de água sobre a mesa): Mas que me importam as outras, que me importa isso tudo, se eu tenho a Severa!
SEVERA (deixando-se abraçar, enlevada): Ah!
MARIALVA: Estes olhos que nasceram para o sol, esta boca que nasceu para o fado, estes braços que nasceram para mim! (Estreitando-a, com ternura) Que me importam as outras, se só tu és capaz de me fazer chorar!
D. JOSÉ: Quê… Não vais, decididamente?
MARIALVA (olhando a Severa): Decididamente, não vou!
SEVERA (Numa explosão de alegria): Ah! Não vai! Fica comigo! (Com orgulho) É meu! Muito meu!
D. JOSÉ (pondo a capa e o chapéu): Mas todos te esperam, cheios de entusiasmo! Não é correcto, bem vês…
MARIALVA: Pois que esperem meu velho. Eu passo aqui esta noite! (Cingindo a Severa) Severa! (Dando-lhe o lenço que o D. José trouxe) Amanhã, quando me for, lê o que diz este lenço. Guarda-o bem! (Para D. José) Tu, vai, D. José. E se te perguntarem, dize a toda a gente que o Conde de Marialva, grande do reino, depois de uma cena de facadas, passa a noite com uma cigana!
D. JOSÉ (saindo e atirando com a porta): Adeus!
SEVERA (apaixonadamente, atirando-se ao pescoço do Conde): Como tu gostas de mim! Como tu gostas de mim!
MARIALVA: Vem cá, Severa. Vera cá. Toma a guitarra. Assenta-te aí. Os dois, muito juntos, coração com coração… (A cigana senta-se-lhe aos pés, preludiando na guitarra) É destino de Portugal morrer abraçado ao fado! (Apagando a luz, com a voz cortada de comoção)
Canta… Canta… Canta…
(A Severa começa a cantar; o Conde tem lágrimas nos olhos; o pano cai, lentamente.)

Movimentos Perpétuos…

… Ou quando o todo não é o somatório das partes, antes, cada movimento é por si só um evento único.

Se tivesse de escolher um, elegeria o terceiro movimento (uma clara reminiscência do Concerto de Colónia).
Este emocionante exercício improvisado de puro lirismo pode ouvir-se aqui, na primeira parte do concerto, ao minuto 20.
Espantoso como há quem não acredite em orgasmos internos!

O sétimo movimento – integrado na segunda parte do concerto e que pode ouvir-se no programa Um Toque de Jazz, a transmitir no próximo domingo na Antena 2 às 23:00, com apresentação de Manuel Jorge Veloso – gera uma dúvida sobre o termo terapia: se o devemos aplicar a esta obra de arte, se a nós, que precisamos de tratamento depois de a ouvir…

Postais de Natal – Porto

Postais de Natal – Lisboa

Praça do Município

Fedra, no aniversário de Racine

Fiou se o coração, de muito isento,
de si cuidando mal, que tomaria
tão ilícito amor tal ousadia,
tal modo nunca visto de tormento.
Mas os olhos pintaram tão a tento
outros que visto tem na fantasia,
que a razão, temerosa do que via,
fugiu, deixando o campo ao pensamento.
Ó Hipólito casto, que, de jeito,
de Fedra, tua madrasta, foste amado,
que não sabia ter nenhum respeito:
em mim vingou o amor teu casto peito;
mas está desse agravo tão vingado,
que se arrepende já do que tem feito.

Soneto de Luis de Camões

Escrita por Racine (1639-1699) a partir do texto clássico de Eurípedes, Fedra, rainha de Atenas e mulher de Teseu, apaixona-se por Hipólito, seu enteado.
Imaginando o marido morto, Fedra declara-se a Hipólito que, por a rejeitar, é acusado de violação; Acaba por sacrificar-se a si própria, pela forma como idealiza uma paixão não concretizada.

Sobe aos palcos:
No Teatro Municipal de Almada, de 28 de Dezembro a 28 de Janeiro.

No Teatro Municipal Maria Matos, de 11 de Janeiro a 18 de Fevereiro.

Esboços Pessoanos – V

Carta para Paris

Tenho andado a pensar,
meu caro Mário,
por que será que os poetas
sempre morreram
e ainda morrem
de cirrose, overdose, tuberculose
e outras formas de suicídio programado!

O inconformismo e a luta
dão-lhes uma vida filha da puta
(desgaste de energia
sem fim!).

Por isso não se pergunte
aos poetas da poesia
mas aos políticos da orgia
por que morrem assim?…

poema de Joaquim Evónio,
desenho de José Jorge Soares

Esboços Pessoanos – IV


Expectância

Expectante,
a vida não vive em mim.

Brota,
fera à solta, lá fora!
Mas hei-de encontrar a hora,
o instante certo,
para trocar o sofrimento
por um amor ao vento,
beijo breve e leve
e sempre
incerto!

poema de Joaquim Evónio,
desenho de José Jorge Soares

Tradição e Vanguarda

Depois da estreia em 2003 com Primeiro Fado e da participação no Álbum Vermelho – ao lado do mano Camané e de nomes como Cristina Branco, Argentina Santos, Mariza e Kátia Guerreiro -, Pedro Moutinho rompe o cordão fraterno e em Encontro aborda o fado tradicional com temas de Carlos e Lucília do Carmo, respectivamente Não me Conformo e A Rua do Desencanto.

Entre nove fados tradicionais, encontramos letras de António Botto, Fernando Pessoa, Manuel Alegre e António Lobo Antunes.

Anda Pacheco!