Comunicado à população

Depois de resolvidos alguns problemas logísticos, a Comissão Instaladora está a ultimar os preparativos para se fixar na colina.
Prometemos ser breves.


Entretanto, façam o favor de tomar o ascensor até ao Carmo, digam que vão da minha parte e eles oferecem umas castanhas quentinhas.

Comunicado à população

Depois de resolvidos alguns problemas logísticos, a Comissão Instaladora está a ultimar os preparativos para se fixar na colina.
Prometemos ser breves.


Entretanto, façam o favor de tomar o ascensor até ao Carmo, digam que vão da minha parte e eles oferecem umas castanhas quentinhas.

A Roda dos Expostos

O cartoon, enquanto mensagem não verbal, deve ser vista à luz da semiótica, fenómeno cultural que estuda a natureza dos signos e inter-relaciona o significante e o significado.
Uma análise diversa deste método conduz ao radicalismo dos pragmáticos, como aconteceu com as caricaturas do Profeta Maomé.


O Verbo – palavra de Deus, é o verdadeiro reponsável pelo massacre dos inocentes, cuja confiança nos homens é traída pelo Anjo da morte (repare-se nas mãos), que, sorridente, parece dizer “deixai vir a mim as criancinhas”. Conceptualmente, para os crentes um aborto é uma vida sem direito ao paraíso; eis o ambiente de purgatório em tons de vermelho.
As alminhas a sairem pelo topo da cruz será porventura o significante mais forte deste cartoon de António, pois o ancestral repúdio pelo preservativo já tinha sido retratado na ponta do nariz de João Paulo II.

"Leituras" ao Domingo

A Exposição Vincent van Gogh and Expressionism pretende mostrar a profunda influência – tratamento da luz, brilho e côr – que o pintor holandês teve no movimento Expressionista, nomeadamente no trabalho de artistas alemães e austríacos, como Karl Schmidt-Rottluff, Emil Nolde, Ernst Ludwig Kirchner, Max Pechstein, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Alexej von Jawlensky, Gustav Klimt, Egon Schiele e Oskar Kokoschka, criadores também representados.

O Catálogo da Exposição – da autoria do Curador Jill Lloyd, com capa de Max Pechstein – custa €24,50 na loja online do Museu (não inclui portes), 10 euros mais barato que na Fnac!

Ilustração da capa:
Young woman with red fan, 1910

Leitura de hoje: Vincent van Gogh and Expressionism, numa aula de 45 minutos dada pelo curador convidado Jill Lloyd, no Van Gogh Museum em Amsterdão.

Between 1890 and 1914 Vincent van Gogh emerged from almost total obscurity to be hailed as one of the founders of modern art. He was especially admired in Germany, where museums and collectors soon began acquiring his works. This lecture focuses on Van Gogh’s paintings in German and Austrian collections and the impact these had on artists such as Ernst Ludwig Kirchner and Oskar Kokoschka.

Noite de emoções

Não podia ter começado melhor a noite. Acabado de subir a interminável escadaria que conduz à bancada e ainda mal recuperado o fôlego, vejo aí umas 200 pessoas coladas à televisão e pensei: o Porto não está a ganhar! Aproximo-me para ver o resultado e… golo do Estrela! Parecia que jogava a Selecção Nacional!!!

Foi com outro ânimo que subi os últimos degraus até chegar ao lugar e logo, nova emoção: a sentida homenagem a Luis Ribeiro com quem, há uns 15 anos, tive oportunidade de trocar breves palavras sobre o negócio das telecomunicações e de quem retive para sempre a imagem de excelente pessoa.


Depois, o jogo.

Na primeira parte, uma jogada perfeita e um excelente golo do adversário; pouco depois, o fantástico remate do Caneira que, se tivesse entrado, seria do nível do que marcou ao Inter de Milão. Que pena.

Carlos -con tranquilidad– Bueno, que marcou quatro golos (não fez um único golo na primeira volta!), foi o merecido ovo kinder para adoçar a boca dos adeptos que há muito tinham entrado em hipoglicémia.

Ah! Liedson, esse sádico! Deu-se ao luxo de falhar um penalti que parece não ter existido para compensar com um golo de antologia!

Depois de pensar que o clube do coração estava condenado a ficar atrás daqueles cujo nome não pronunciamos, agora… até os comemos!

Referendo sobre o aborto

O que está em causa neste Referendo é unicamente se se altera ou não a lei vigente, através da pergunta
“Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?”.
É inconsequente discutir a formulação da pergunta, pois é esta e não outra.

INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA
A mulher vai poder abortar, porque assim o decide. Nada de novo, portanto.
Mesmo considerando a actual lei, que concede à mulher a possibilidade de interromper a gravidez até às 12 semanas em caso de risco de vida, até às 24 em razão de o nascituro poder vir a sofrer, de forma incurável, de doença grave ou malformação congénita, será sempre pessoal o motivo – por variadíssimas razões, as apontadas ou outras – pelo qual a mulher decide viabilizar ou não o feto. É uma questão de responsabilidade individual.

A defesa do direito do feto à vida enferma de duas fragilidades:
1. A actual lei permite à mulher abortar, caso o feto seja portador de deficiência; no entanto, há mulheres que ainda assim decidem prosseguir com a gravidez. Se o direito do feto à vida fosse absoluto, a sua defesa seria irrepreensível. Não é.
2. Independentemente do desejo, ou não, de ser mãe, pois o feto tem identidade genética mas não identidade pessoal, logo não é autónomo, prevalece a consciência da mulher que – em circunstâncias que só ela pode avaliar – lhe permite decidir se o direito à vida do feto é defensável até às 10 semanas.

Porque é, no mínimo, discutível, se deve o Estado decidir quais são os motivos aceitáveis para a interrupção, daí a pertinência do termo despenalização.

NAS PRIMEIRAS DEZ SEMANAS
Não deriva de nenhum fundamento científico, o prazo de dez semanas, mas sim das necessárias condições de segurança e de saúde para a mulher. Poderiam ser 12 ou 14, como na França e Alemanha.

EM ESTABELECIMENTO DE SAÚDE LEGALMENTE AUTORIZADO
Só assim é possível desincentivar o aborto clandestino. Se assim não fosse, tratava-se duma efectiva liberalização. Não é. Argumentar que passaremos a pagar “leviandades femininas” por via dos nossos impostos não é sério, na medida em que não é legítimo pensar que o Estado quer ser promotor do aborto; O Estado deve assegurar as condições de segurança que garantam à mulher que recorrer ao Serviço Nacional de Saúde obter a salvaguarda da sua saúde, caso não possua recursos para procurar uma clínica autorizada, onde a sua intimidade será mais defendida.

É lícito discutir se o aborto é sinónimo de liberdade de eliminar uma vida, tal como é nobre a discussão sobre a defesa da vida humana – pessoa humana é outra matéria.
É importante que a sociedade discuta o aborto enquanto problema de saúde pública, bem como se o SNS deve ou não – e em que medida – fazer parte da solução.
Podemos especular sobre que regulamentação resulta da eventual alteração da lei.
Nenhum destes temas consta da pergunta colocada a Referendo no dia 11. À pergunta, eu respondo sim.

Coisas complicadas

A Virgem grávida, isolada por José depois de saber que ela carrega um feto dentro de si.
Nesta representação, a Virgem parece querer desfazer-se da criança, ao tentar espetar uma agulha na barriga.
Se naquele tempo houvesse testes de ADN, não sei se a história terminava assim.

O pulsar de Lisboa

A história de uma cidade, feita de mosaicos.

De esperanças, como a do Roberto, que trabalha nos Pastéis de Belém e anseia”subir” na casa, ou do teatro de revista, que está tão morto como o Parque Mayer, embora os que lá trabalham queiram acreditar que estão vivos; Os dias do senhor Álvaro taxista, que ao volante sente os dias na “Praça” como num confessionário dos problemas dos fregueses; Um quase-cheiro a mar, a bordo do cacilheiro Eborense; A homenagem a Fernando Pessoa no Chiado, frente à hoje inenarrável Brasileira, ou ainda a impossível vida da dona Amélia, uma sem-abrigo nas arcadas do Terreiro do Paço, cujo retrato nos emociona…

São algumas destas peças que podemos ir vendo no Lisboa 24, um atelier de jornalismo feito por alunos da Nova.
Vale a pena passar por lá e ir ouvindo estas estórias.

É também esta, a Lisboa Menina e Moça, amada – Cidade mulher da minha Vida.

O pulsar de Lisboa

A história de uma cidade, feita de mosaicos.

De esperanças, como a do Roberto, que trabalha nos Pastéis de Belém e anseia”subir” na casa, ou do teatro de revista, que está tão morto como o Parque Mayer, embora os que lá trabalham queiram acreditar que estão vivos; Os dias do senhor Álvaro taxista, que ao volante sente os dias na “Praça” como num confessionário dos problemas dos fregueses; Um quase-cheiro a mar, a bordo do cacilheiro Eborense; A homenagem a Fernando Pessoa no Chiado, frente à hoje inenarrável Brasileira, ou ainda a impossível vida da dona Amélia, uma sem-abrigo nas arcadas do Terreiro do Paço, cujo retrato nos emociona…

São algumas destas peças que podemos ir vendo no Lisboa 24, um atelier de jornalismo feito por alunos da Nova.
Vale a pena passar por lá e ir ouvindo estas estórias.

É também esta, a Lisboa Menina e Moça, amada – Cidade mulher da minha Vida.

ressuscitar, nas ondas do mar

Ao Mar

Água, sal e vontade – a vida!
Azul – a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência…

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa…
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés…
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece…

Ela que és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!

Miguel Torga