Archive for the ‘ Poesia ’ Category

A esperança num futuro intemporal

Antes que tú me moriré: escondido
en las entrañas ya
el hierro llevo con que abrió tu mano
la ancha herida mortal.
Antes que tú me moriré: y mi espíritu,
en su empeño tenaz,
sentándose a las puertas de la muerte,
allí te esperará.
[…]
Allí donde el sepulcro que se cierra
abre una eternidad…
¡ Todo lo que los dos hemos callado
lo tenemos que hablar !

Antes de ti eu morrerei: oculto
no peito levo já
o ferro com que tuas mãos abriram
larga ferida mortal.
Antes de ti eu morrerei; meu espírito,
num anseio tenaz,
ante as portas da morte irá sentar-se,
a esperar-te lá.
[…]
Ali onde o sepulcro que se fecha
abre uma eternidade…
Tudo quanto nós dois sempre calámos
teremos de falar!

Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870) – Rimas – XXXVII | Tradução de José Bento

O Mar

Um único ser, mas não existe sangue.

Uma carícia apenas, morte ou rosa.

Vem o mar e reúne as nossas vidas,

sozinho ataca e reparte-se e canta

em noite e dia e criatura e homem.

A essência: fogo e frio: movimento.

in Antologia de Pablo Neruda

tradução de José Bento

O uso das palavras obscenas

Desmedido eu que vivo com medida
Amigos, deixai-me que vos explique
Com grosseiras palavras vos fustigue
Como se aos milhares fossem nesta vida!
Há palavras que a foder dão euforia:
Para o fodedor, foda é palavra louca
E se a palavra traz sempre na boca
Qualquer colchão furado o alivia.
O puro fodilhão é de enforcar!
Se ela o der até se esvaziar: Bem.
Maré não lava o que a arvore retém!
Só não façam lavagem ao juizo!
Do homem a arte é: foder e pensar.
(Mas o luxo do homem é: o riso).

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo

Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.
Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.
Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.
E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

Ricardo Reis, Odes

Poema de Amor de António e de Cleópatra

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Desespero

Não eram meus os olhos que te olharam

Nem este corpo exausto que despi

Nem os lábios sedentos que poisaram

No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram

Tua falsa beleza, em que não vi

Mais que os vícios que um dia me geraram

E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu

Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,

Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.

A voz com que te chamo é o desencanto

E o espermen que te dou, o desespero.

Poema de José Carlos Ary dos Santos

Gravura de Artur Bual

Este Mar

Este mar me detém, mas nunca saberei

quem desvaneceu a escrita aqui abandonada num desígnio antiquíssimo:

as pegadas tenras das gaivotas, folhas tranquilas

a denunciar os ramos adejantes que copiam a espuma

Escrevo gaivotas , simplifico: acaso estes signos

sejam também de alcatrazes, alciões:

mas ao soletrar o seu ditado errante

decifro mensagens num livro tão precário que a brisa o arrebata.

Isso não importaria: eu iria olhando no chão o negativo de meus pés,

nada teria para o comparar, prosseguiria.

Até onde?

Prosseguiria sempre:

jamais findam as praias, nem quando a luz se rende.

Assim, terei de retornar ao poema: nomear o desconhecido,

reconstituir no mineral ou na face que o tempo feriu para delir depois

a pressão de umas pulsações, de uma cabeça vencida pelo cansaço [ou o desejo.

E recomeçar é sangrento se o ímpeto se finca apenas em palavras,

em matéria que não se possui.

As palavras nunca podem guardar-se;

quando poupadas, decompõem-se na sua própria usura.

Há que procurar o texto alado: rente às algas exaustas,

sob a turquesa estilhaçada que neva e tumultua,

iremos desvendá-lo.

Sem um indício?

Uma cor, um odor

vão conduzir-nos: os que no azebre de um rosto em nós sepulto

distanciam as feições do interior de onde despontam,

como o verbo se corrompe desde que as sílabas se juntam e ameaçam:

os sinais que gravamos propõem uma totalidade

até que uns olhos neles se jogam e os afastam

do sangue de onde nascem.

Esse é o exemplo das asas:

lassas, arqueiam-se suplicando o sol,

rasam a areia, prolongam a nervura das pegadas,

enfunam-se num arrepio inverniço – prenúncio de rajadas e marés –

e disparam para incendiar-se onde a sombra as não humilhe.

Recomeço, pois. Como recuperar o início?

os cirros como lanhos veementes a exaurir as tardes?

os areais rebeldes aos barcos, a expulsar o seu domínio?

Onde os dias a transbordar de conchas cálidas?

Estou aqui e é evidente que a ausência de sinais

sobre este chão, estas mãos, esta fronte que não sustenho

porque estão em outro lugar numa hora longínqua

é a única legenda que me pode ser dada.

Só resta transcrevê-la e extingui-la sem a ter compreendido.

Pousam estas letras como aves: desconhecem a morte,

para elas todo o espaço é este azul e o tempo o momento

em que seu vulto avança e é peso a impor um sentido

que será denunciado apenas a quem a seguir até à própria consumação:

a salsugem, o vento ávido de cumprir-se na sua fuga ao silêncio,

as vagas ou o esquecimento indiferentes ao destruir o que ignoram,

mesmo se a espuma é no meio-dia um peito em floração

e na noite a alva naufragada prestes a cobrir o corpo desejado.

Poema de José Bento

Fotografia de Carlos Serrano

O Coito e a Sauna

Melhor é foder primeiro, e então banhar.

Esperas que, curva, sobre o balde se ajeite

O traseiro nu miras com deleite

E tocas-lhe entre as coxas a reinar.

Mantém-na em posição, mas logo após

Assento no piço lhe seja permitido

Se duche quiser na cona, invertido.

Depois, claro, seguindo nossos avós,

Serve ela no banho.

As pedras põe a apitar

Com bátega rápida (que a água ferva)

Com tenra bétula te açoita e corado

Em balsâmico vapor mais esquentado

A pouco e pouco te deixas refrescar

Suando agora a fodança em caterva.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Fascinação

Os sonhos mais lindos sonhei,

De quimeras mil um castelo ergui,

E no teu olhar, tonto de emoção,

Com sofreguidão mil venturas previ…

O teu corpo é luz, sedução,

Poema divino cheio de esplendor,

Teu sorriso prende, inebria, entontece,

És fascinação… Amor!

F.D.Marchetti/M.de Feraudy.

Elis Regina

Esperança

Tantas formas revestes, e nenhuma
Me satisfaz!
Vens às vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito
Desesperado
Que ouve apenas o eco…
Peco
Por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
Cheio dum vinho herético e sagrado. 

Miguel Torga