Arte Pública – CowParade, Largo do Rato

Já abriram as inscrições para o Leilão da CowParade-Lisboa, que se realiza a 30 de Setembro. A base de licitação é 1500 euros.

Segundo li, a obra sobre a qual há mais pedidos de informação é a vaca do Benfica; do modo como a equipa tem jogado, bem pode a direcção licitar de modo a colocar a vaca leiteira à porta do estádio.

Vacas mais caras:
Waga-Moo-Moo (Dublin, 2003) – 125.000 euros
HANDsome (Chicago, 1999) – 86.000 euros
Miss Football (Paris, 2006) – 71.000 euros

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Publicado originalmente no Sétima Colina

Arte Pública – CowParade, Largo do Rato

Já abriram as inscrições para o Leilão da CowParade-Lisboa, que se realiza a 30 de Setembro. A base de licitação é 1500 euros.

Segundo li, a obra sobre a qual há mais pedidos de informação é a vaca do Benfica; do modo como a equipa tem jogado, bem pode a direcção licitar de modo a colocar a vaca leiteira à porta do estádio.

Vacas mais caras:
Waga-Moo-Moo (Dublin, 2003) – 125.000 euros
HANDsome (Chicago, 1999) – 86.000 euros
Miss Football (Paris, 2006) – 71.000 euros

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Corpo Presente

A pedra é uma fronte onde gemem os sonhos
sem água turva ter, nem ciprestes gelados.
A pedra é um dorso para levar ao tempo
com árvores de lágrimas de fitas e planetas.

Já vi chuvas cinzentas a correr para as ondas
erguendo seus tenros braços lacerados,
para não serem caçadas pela pedra estendida
que desata seus membros sem absorver o sangue.

Porque a pedra colhe nuvens e sementes,
esqueletos de calhandras e lobos de penumbra;
porém, não dá rumores, nem fogo, nem cristais,
mas só praças e praças e outra praça sem muros.

Já está sobre a pedra Ignacio o bem-nascido.
Já se acabou. Que se passa! Contemplai sua figura!
A morte cobriu-o de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de escuro minotauro.

Já se acabou. A chuva penetra em sua boca.
Como louco, o ar deixa seu peito submerso,
e o Amor, empapado com lágrimas de neve,
aquece-se no cume das ganadarias.

Que dizem? Um silêncio com fedores repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara que teve rouxinóis
e vemos que se enche de buracos sem fundo.

Quem enruga o sudário? O que ele diz é falso!
Não canta aqui ninguém, nem chora em seu recanto,
nem crava as esporas, nem assusta a serpente:
aqui não quero mais do que os olhos redondo
para ver esse corpo sem possível descanso.

Eu quero ver aqui os homens de voz dura
os que domam cavalos e dominam os rios:
os homens cujo esqueleto lhes soa e cantam
com uma boca cheia de sol e pederneiras.

Quero vê-los aqui. Diante da pedra.
Diante deste corpo com as rédeas quebradas.
Eu quero que me mostrem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.

Eu quero que me mostrem um pranto como um rio
que tenha doces névoas e margens bem profundas,
para levar o corpo de Ignacio e que se perca
sem escutar o resfolgo duplo dos touros.

Que ele se perca na praça redonda da lua
que em menina finge um dorida rês imóvel;
que se perca na noite sem um canto dos peixes
e na moita branca do fumo congelado.

Não quero que tapem sua cara com lenços
para que se acostume com a morte que leva.
Vai, Ignacio: Não sintas o ardente bramido.
Dorme, voa, repousa: Mesmo até o mar morre!

poema de Federico García Lorca, in Llanto por Ignacio Sánchez Mejías
gravura de Francisco Goya

a diva e o pianista (post editado)

Em memória de Elisabeth Schwarzkopf, ouvir o lirismo e a vivacidade dramática da diva sobre o piano do grande Edwin Fischer.

Na habitual coluna no Público (link não disponível), Augusto M. Seabra afirma:
“Nela imperava a pose, a ponto de a sofisticação a fazer mesmo perder-se. O seu Schubert, por exemplo, é controverso, e os famosos 12 “lieder” gravados em 1952 com Edwin Fischer são-o particularmente – e sou um dos que acham essa gravação insuportável, por causa dela. Mas era a classe, a classe que em todos os sentidos a definia.”
Pois. Critique-se a sugestão dos 24 “lieder” de 1954, ou os “12” de 52, A Voz é a mesma. Por isso mantenho a homenagem. Obviamente.

Sob o signo de John Coltrane *


Em ano de homenagem a Mestre Coltrane, o destaque óbvio do Jazz em Agosto-2006 vai para o sexteto do virtuoso saxofonista Anthony Braxton, que actuará na última noite, dia 12.

Em minha opinião, o Festival tem vindo a perder algum fulgor, depois de nas décadas de 80 e 90 ter trazido pesos pesados como Jan Garbarek Quartet, 1987 / Ornette Coleman e “Prime Time Band”, 1988 / Branford Marsalis Quartet, 1990 / Don Byron Quartet, 1991 / Steve Coleman & Five Elements, 1992 / Dave Holland, 1992,1997 e 1999 com John Scofield e Joe Lovano / Max Roach Quartet, 1995 / Terence Blanchard Group, 1996 / Bobby Hutcherson Quartet e Branford Marsalis, ambos em 1998.

A quem gosta de jazz, recomendo a apreciação que o meu homónimo António Branco faz no excelente Improvisos Ao Sul.

* post editado em 20060817, para sublinhar o artigo A permanente actualidade da obra de Anthony Braxton de Manuel Jorge Veloso, no DN

Alla Turca (Allegretto)

Wolfgang Amadeus Mozart – The Piano Sonatas
Maria João Pires, piano
Deutsche Grammophon

Maria João Pires terá as suas idiossincrasias e tal como eu, por vezes, não gosta do país que vê.
Por isso os seus estados de alma têm impacto em aguns espíritos inquietos, que episodicamente saem em defesa da cultura do subsídio, para o que utilizam apenas uma mão estendida.
Não porque entenda que haja alguém acima da crítica, mas porque o virtuosismo e a delicadeza de MJP a colocam no restrito número dos pianistas realmente excepcionais, permito-me sugerir que ouçam a Sonata para Piano No.11 -“Alla Turca” tocado a duas mãos. Sem qualquer reverência.

En passant…

… ou como a progressão imprime movimento à côr.

Critérios de avaliação

Com os miudos em férias escolares (!), foi notícia este fim-de-semana no Público e no Expresso o recrutamento de jovens pela Juventude Nacionalista à porta das escolas.

Duas interrogações:
Sendo substantivamente diversos os processos utilizados pela propaganda e pela panfletária, o critério de avaliação dos mesmos por parte do ME e do MAI não deverá ser uniforme?
Qual o peso relativo que têm os relatórios das forças de segurança sobre os assaltos por parte de gangs e a venda de droga à porta das escolas na discussão e análise do Programa Escola Segura, por parte dos Ministérios envolvidos?

Luz Boa, na cidade e na arte


A segunda edição da Luzboa – Bienal Internacional da Luz – propõe à cidade um grande evento cultural dedicado à Luz e à Iluminação: um circuito de intervenções de arte urbana.
Para além de uma programação artística internacional Luzboa abrange a promoção do conhecimento no domínio da Luz e da Iluminação, através de ateliês, conferências, edições e o Prémio Luzboa-Schréder.

I. Luzboa – um Projecto Urbano para Lisboa

O Projecto RGB é o suporte físico da Bienal e caracteriza-se pela transfiguração espacial de todo o ‘edifício’, por meio de uma intervenção plástica efémera que modifica a cor da iluminação urbana e diminui a sua intensidade ao longo dos percursos. Explicita assim os seus três Circuitos interligados, cada um deles correspondendo a um espaço-ambiente urbano característico. Essa transformação é enfatizada por dois conjuntos de intervenções [ Esquiços e Art gets you through Night] que habitam o próprio espaço desenhado, assinalando-lhe pontos de fruição essenciais e os limites da própria Bienal. A continuidade cromática e a gestão da intensidade luminosa asseguram não apenas o adequado enquadramento visual das obras artísticas, mas a própria comunicação do Acontecimento.

O Projecto Urbano Luzboa exige criatividade, propõe cultura, a participação de pessoas e instituições, a articulação das diversas lógicas profissionais, o empenho político e uma capacidade de tomar e respeitar decisões a longo prazo.

Através de financiamentos públicos que geram por sua vez investimentos e participações privados, capazes de produzir tanto memórias do efémero como obras permanentes, Luzboa contribui para a melhoria do espaço público urbano da Capital.

Através do Projecto Urbano Luzboa,a Extra]muros[ desenvolve a sua acção em vários níveis intercruzados e sobrepostos. Em 2006, a Bienal contribui para essa intervenção sucessiva sobre a Cidade, por meio de um percurso que se desenvolve linearmente entre o Largo do Rato e Alfama.

Abordagem da cidade
1.
Reconhecimento territorial de um percurso urbano subdividido em três circuitos que atravessam o centro da cidade [Circuito Red, Circuito Green, Circuito Blue];
2.
Transformação espacial por meio de uma intervenção plástica efémera que modifica a cor da iluminação urbana e diminui a intensidade da iluminação ao longo do percurso;
3.
Comunicação da própria intervenção, relevando momentos especiais do seu próprio corpo [Peças de Comunicação – Projecto RGB];
4. Incorporação de todas as intervenções [artísticas, de comunicação, reflexivas], assim como da participação interactiva do público e das instituições, da memória e do próprio acto de atravessar a noite, numa Unidade – definida, porém em evolução dinâmica.


II. Bienal Internacional da Luz 2006

Luzboa é um evento cultural urbano: um circuito de instalações e intervenções de arte contemporânea, complementado por acções de dinamização e de promoção do conhecimento no domínio da Luz, através de conferências, vistas guiadas, edições e o Prémio Luzboa-Schréder. De 21 a 30 de Setembro, diariamente entre as 20 e as 24h, a edição de Luzboa 2006 propõe um conjunto integrado de intervenções urbanas concebido como um Percurso Nocturno pela Cidade.

Luzboa Conceito
Luzboa é uma grande iniciativa urbana dedicada ao tema da Luz. Porque
a Luz e a iluminação são vectores de evolução, realização humana e urbanidade, assim como de qualidade de vida. Domínio por excelência do sonho, da imaginação, da experiência e do conhecimento, a arte contemporânea é a pedra-de-toque de toda a iniciativa, no quadro de uma programação com impacto junto do grande público.

Luzboa Oportunidade
Luzboa transforma Lisboa no cenário das propostas artísticas de artistas oriundos de vários países, enriquecendo a oferta cultural da Capital e contribuindo para a sua valorização no panorama das cidades culturais europeias;
Luzboa contribui para o debate acerca do desenho da noite, nomeadamente quanto ao papel da arte pública e da iluminação ambiental no Planeamento e Reabilitação Urbanos;
Luzboa cria sinergias entre a população, agentes culturais, a administração pública e o sector
empresarial e tecnológico, com benefícios estratégicos para os domínios do Urbanismo, da Iluminação Pública, do Turismo, da Economia e da Cultura.

Luzboa Objectivos
Luzboa é uma montra de ideias e tendências no domínio da arte contemporânea e da iluminação criativa,
numa perspectiva de inovação tecnológica e de adequação aos desejos e interesses tanto dos cidadãos
como das entidades relacionadas com a gestão da Cidade, assumindo como objectivos fundamentais:
– Trazer a Arte Contemporânea para a rua
– Celebrar o carácter e a beleza da noite de Lisboa
– Promover, ao nível nacional e internacional, a imagem de Lisboa
– Desenvolver um evento único e original

Luzboa Intervenção
Luzboa é um percurso único, um traçado que une o Príncipe Real a Alfama – passando pelo Camões, as zonas do Chiado e da Baixa. Se as muito diversas intervenções artísticas incidem em espaços públicos [praças, ruas, jardins, miradouros] e conjuntos edificados, as visitas guiadas são o elo que reforça a experiência de conhecer melhor a Cidade, enquanto o Prémio Luzboa-Schréder celebra as carreiras de um conjunto de personalidades consideradas importantes para a Cultura da Luz.

Ulises y las sirenas, de Picasso

A la vora del mar. Tenia
una casa, el meu somni,
a la vora del mar.

Alta proa. Per lliures
camins d’aigua, l’esvelta
barca que jo manava.

Els ulls sabien
tot el repòs i l’ordre
d’una petita pàtria.

Com necessito
Contar-te la basarda
que fa la pluja als vidres!
Avui cau nit de fosca
damunt la meva casa.

Les roques negres
m’atrauen a naufragi.
Captiu del càntic,
el meu esforç inútil,
qui pot guiar-me a l’alba?

Ran de la mar tenia
una casa, un lent somni.

excerto XXV do poema Cementiri de Sinera (1946)
do poeta catalão
Salvador Espriu