Paula Rego – Vanitas

No centro do seu tríptico, de braços cruzados, entre retrato em majestade e realístico auto-retrato, Paula Rego preside à cerimónia da vida entre sono onde a morte se esquece e vida que de olhos bem abertos parece disposta a “matar a morte”, como Shakespeare ousou escrever. Como se a antiga panóplia das vanitas cristãs já não tivesse o poder de nos reenviar ao nosso antigo nada. É nas nossas mãos que está a folclórica foice, sem a sombra temerosa de Goya, rodeada de todos os brinquedos do nosso divertimento, indiferente ao Tempo e à sua música mortal. Como se esta humana assumpção da Morte encarnasse agora a universal indiferença com que a vivemos e já não fosse a musa suprema instalada no nosso coração no lugar de Deus, lembrando-o. Não é uma vanitas, máscara de Deus ou da sua ausência, por isso sumptuosa.
É a nossa, contemporânea-ascética, quase infantil. Talvez só agora nossa verdadeira morte. Quer dizer, vida sem transcendência.

Eduardo Lourenço

Tom Tom Club – Genius Of Love

enfaticamente retórico – I

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

A sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que a minha sp’rança
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam – verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só as lembranças,
Mas as mortas esperanças –
Mortas, porque hão-de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim –
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser – muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

poema O Andaime, de Fernando Pessoa
desenho de Luis Royo

dwarf planet, or the hammer of god

Em teoria, um planeta anão é demasiado pequeno em termos de massa, por forma a alterar a sua órbita. Mas a ameaça é real, e o efeito de tal impacto pode ter consequências imprevisíveis na vida… tal como a conhecemos.

Eclipse

Quem tem andado parcialmente eclipsado sou eu, mas isso agora não interessa.

Depois de os meus amigos me terem proporcionado o dia que eu mereço – todos gostamos de mimo, de quando em vez e hoje soube muito bem obrigado -, estávamos nas despedidas quando um de nós olha para cima e nos faz ficar literalmente pendurados no tecto!
Tinha-me esquecido completamente do único eclipse lunar total visível este ano na Europa! Imperdoável.

Impunha-se por isso vir num pulinho deixar testemunho do fenómeno.

Agora, vou continuar a minha viagem pela sombra terrestre, até já.

Breve promessa de vida… renovada

Há em cada árvore uma alma tua, uma alma tua
que se retorce em troncos e se abandona em frutos,
uma alma que se move sobre a terra pura
como sobre os seios os mamilos escuros.

Uma ave é cada folha que voa no outono
e que desfibrada vai alimentar uma flor,
cada tronco sofrido, chagado e resinoso
fornece por cada estria águas do coração…

Na planície a árvore é uma chaga viva
que se torra em brasas e ainda dá sombra.
Amassa-a no teu sangue viajante que passas
e pede que venha a Primavera azul

que lhe dará tremores de seiva e de harmonia
(folha oblonga ou rosada maçã do amanhecer)
e assim poderão ver os seus ramos ao alto…
É tão doce a sábia promessa do mel!

Pablo Neruda

Como desenhar um sonho

La fidélité et l’espoir sont capables de vaincre tous les obstacles

“… Atravessava uma séria crise e os meus sonhos eram quase todos em tons de branco. E eram muito angustiantes. Recordo um em que me encontrava numa espécie de torre constituída por rampas sucessivas. Folhas mortas caíam e cobriam tudo. A dada altura, numa espécie de alcova de uma brancura imaculada, aparecia um esqueleto todo branco que tentava apanhar-me. E nesse instante, à minha volta, o mundo tornou-se branco, branco. E eu punha-me em fuga, uma fuga desvairada…”

“Eu utilizo a lógica do sonho ou a sua aparente falta de lógica. Os sonhos são vagos e de tal modo fluidos que é difícil desenhá-los; quando lhes queremos dar forma, esta torna-se difusa. Para isso, é necessário reconstrui-los.”


“Entretiens avec Hergé”, de Numa Sadoul – Editions Casterman, 1958

Mon rêve? Célébrer le centenaire de la naissance de Hergé a Bruxelles au 22 Mai, aussi le jour de mon anniversaire. Allez!

ânsia desmedida de mudez

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

Cadáver adiado, ou o direito a morrer a própria morte

Uma maior solidão

Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim…
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.

Fernando Pessoa

Don`t try to fix me, I`m not broken

Francisco de Goya y Lucientes - Saturno devora a su hijo, 1821-1823