Picássa-mos

Picasso – Danseuse et vieillard musicien IV, 1954

Intuição de um agnóstico

Perguntava-me hoje a minha filha, ao ver esta imagem, se Deus me tinha aparecido. O que leva uma menina que não teve educação religiosa a colocar a questão nestes termos?
Talvez porque é nesta natureza de Deus que encontramos a nossa espiritualidade.

Graffiti

Graffiti

Estudo sobre o Belo e o Grotesco

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardia em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

gravura Sleeping Nymph and Shepherd – 1645-50, de Jan-Gerritsz-van-Bronchorst
poema Angela Adonica, de Pablo Neruda

‘Luz Teimosa’, de Fernando Lemos

'Luz Teimosa' - Fernando Lemos, 1949

nos meus pensamentos sempre as palavras lutam duas a duas pela verdade
palavras se metem dentro de outras palavras querendo ideias
sou uma caixa de vários lados com vários cantos com duas sombras
uma escura que nasce da clara outra clara que nasce da escura
a luz cintila e a sombra dorme a sombra estatela-se e a luz ergue-se
nasce cada palavra dentro de outra palavra

Fernando Lemos [3 Maio 1926 – 17 Dezembro 2019]

Método Isopático


[…]
Que delírios estrebuchavam os nossos corpos doidos… como eu me sentia pouca coisa quando ela se atravessava sobre mim, iriada e sombria, toda nua e litúrgica…
caminhava sempre aturdido do seu encanto – do meu triunfo.
Eu tinha-a! Eu tinha-a!… E erguia-se tão longe o meu entusiasmo, era tamanha a minha ânsia que às vezes – como os amorosos baratos escrevem nas suas cartas romanescas e patetas – eu não podia crer na minha glória, chegava a recear que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
[…]

in A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro
Madona fotografada por Helmut Newton para a VanityFair

impressionnons – nus

Na passagem do centésimo trigésimo sétimo aniversário da morte de Monsieur Frederic Bazille, ano em que terminou
La Toilette (1869-70).

Canção de Baal

Faune et Bacchante , avec Combat de Faunes, 1968
Faune et Bacchante , avec Combat de Faunes, 1968

Se a mulher tem coxas gordas,
na relva dou-lhe um encosto

À saia e calça arejo as bordas,
ao sol – porque é assim que eu gosto.

Se a mulher morde feliz,
na relva eu esfrego o rosto

O ventre, os dentes e o nariz:
limpinhos – que é assim que eu gosto

Se a mulher entra num jogo fogoso,
mas descomposto

Eu rio e dou-lhe a mão, logo:
amável, que é assim que eu gosto.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

à la recherche du temps perdu…

Cupido não domina o seu destino. Enquanto o amor esquecido dorme, os amantes não podem enfrentar as suas paixões, estão perdidos.
Mas, mesmo que no passado o arco do amor tenha sido quebrado , Cupido continua a possuir as setas que o farão estremecer de novo.

Peut-être il a fallu que le temps se perde… Peut-être faut-il respecter le temps qui a voulu se perdre… Le passé ne peut pas se récupérer. Le présent cesse de l’être à tout instant… Le futur c’est le seul temps qui reste… même s’il n’est pas, puisque quand on y arrive c’est déjà présent…

Bonjour, Marie…