Archive for the ‘ Pintura ’ Category

Picássa-mos

Picasso – Danseuse et vieillard musicien IV, 1954

Estudo sobre o Belo e o Grotesco

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardia em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

gravura Sleeping Nymph and Shepherd – 1645-50, de Jan-Gerritsz-van-Bronchorst
poema Angela Adonica, de Pablo Neruda

impressionnons – nus

Na passagem do centésimo trigésimo sétimo aniversário da morte de Monsieur Frederic Bazille, ano em que terminou
La Toilette (1869-70).

Canção de Baal

Faune et Bacchante , avec Combat de Faunes, 1968
Faune et Bacchante , avec Combat de Faunes, 1968

Se a mulher tem coxas gordas,
na relva dou-lhe um encosto

À saia e calça arejo as bordas,
ao sol – porque é assim que eu gosto.

Se a mulher morde feliz,
na relva eu esfrego o rosto

O ventre, os dentes e o nariz:
limpinhos – que é assim que eu gosto

Se a mulher entra num jogo fogoso,
mas descomposto

Eu rio e dou-lhe a mão, logo:
amável, que é assim que eu gosto.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

à la recherche du temps perdu…

Cupido não domina o seu destino. Enquanto o amor esquecido dorme, os amantes não podem enfrentar as suas paixões, estão perdidos.
Mas, mesmo que no passado o arco do amor tenha sido quebrado , Cupido continua a possuir as setas que o farão estremecer de novo.

Peut-être il a fallu que le temps se perde… Peut-être faut-il respecter le temps qui a voulu se perdre… Le passé ne peut pas se récupérer. Le présent cesse de l’être à tout instant… Le futur c’est le seul temps qui reste… même s’il n’est pas, puisque quand on y arrive c’est déjà présent…

Bonjour, Marie…

sobre o Belo e Sublime

a-fabula-de-arachne_las-hilanderas_velazquez_1657
A Fábula de Arachne (Las Hilanderas), de Diego Velazquez – 1657
A dignidade das mulheres  

Honrai as mulheres! Elas entrançam e tecem
Rosas sublimes na vida terrena,
Entrançam do amor o venturoso laço
E, através do véu casto das Graças,
Alimentam, vigilantes, o fogo eterno
De sentimentos mais belos, com mão sagrada.

Nos limites eternos da Verdade, o homem
Vagueia sem cessar, na sua rebeldia,
Impelido por pensamentos inquietos,
Precipita-se no oceano da sua fantasia.
Com avidez agarra o longe,
Seu coração jamais conhece a calma,
Incessante, em estrelas distantes,
Busca a imagem do seu sonho.

Mas, com olhares de encanto e fascínio,
As mulheres chamam a si o fugitivo,
Trazendo-o a mais avisados caminhos.
Na mais modesta cabana materna
Foram deixadas, com modos mais brandos,
As filhas fiéis da Natureza piedosa.

Adverso é o esforço do homem,
Com força desmesurada,
Sem paragem nem descanso,
Atravessa o rebelde a sua vida.
Logo destrói tudo o que alcança;
Jamais termina o seu desejo de luta.
Jamais, como cabeça da Hidra,
Eternamente cai e se renova.

Mas, felizes, entre mais calmos rumores,
Irrompem as mulheres, num instante de flores,
Propiciando zelo e cuidadoso amor,
Mais livres, no seu concertado agir,
Mais propensas que o homem à sabedoria
E ao círculo infindável da poesia.

Severo, orgulhoso, autárcico,
O peito frio do homem não conhece
Efusivo coração que a outro se ajuste,
Nem o amor, deleite dos deuses,
Das almas desconhece a permuta,
Às lágrimas não se entrega nunca,
A própria luta pela vida tempera
Com mais rudeza ainda a sua força.

Mas, como que tocada ao de leve pelo Zéfiro,
Célere, a harpa eólica estremece,
Tal é a alma sensível da mulher.
Com angustiada ternura, perante o sofrimento,
O seu seio amoroso vibra, nos seus olhos
Brilham pérolas de orvalho sublime.

Nos reinos do poder masculino,
Vence, por direito, a força,
Pela espada se impõe o cita
E escravo se torna o persa,
Esgrimem-se entre si, em fúria,
Ambições selvagens, rudes,
E a voz rouca de Éris domina,
Quando a Cárite se põe em fuga.

Porém, com modos brandos e persuasivos,
As mulheres conduzem o ceptro dos costumes,
Acalmam a discórdia que, raivosa, se inflama,
Às forças hostis que se odeiam
Ensinam a maneira de ser harmoniosa,
E reúnem o que no eterno se derrama.

Tradução de Maria do Sameiro Barroso
do original «Würde der Frauen» de Johann Christoph Friedrich von Schiller

 

vidas interrompidas

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

Tu és a minha música. A maior e a mais bela de todas.

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Gravura “O Violoncelista” de Amedeo Modigliani
poema de Eugénio de Andrade

Fall of the Damned

Com visita guiada por Anísio Franco e José Alberto Seabra Carvalho, que nos oferecem uma descida ao Inferno, tema tão caro à administração desta casa…
Hoje às 18:00, no Museu Nacional de Arte Antiga

Inferno - autor desconhecido, c.1510-20 - Óleo sobre madeira de carvalho - Proveniência conventual desconhecida

É a mais antiga representação autónoma do Inferno na pintura portuguesa. Obra misteriosa e inquietante, a sua iconografia incorpora, pelo menos, dois aspectos inovadores no contexto da arte portuguesa do início do século XVI. Por um lado, a evidência na representação da nudez feminina, bem exemplificada nos três corpos dependurados que devem simbolizar a Vaidade e a Soberba, ou no impositivo casal enlaçado que no primeiro plano, à direita, personifica a Luxúria. Por outro lado, o modo como se figura o entronizado regente desta infernal morada, um Lúcifer de rosto oculto por máscara, ceptro em forma de trompa e envergando toucado e fato de coloridas plumas, vestimenta que tem suscitado a hipótese de se tratar de um atributo de identidade ameríndia ou mesmo brasileira (o que possivelmente significaria encarar o recém-descoberto indígena sul-americano não como um “bom selvagem” mas como uma personificação do Mal).

A pintura recorre a um reportório medieval de referências teológicas cristãs, propondo uma imagem do Inferno como inventário de torturas incessantes, lugar de suplício e condenação eterna dos que incorrem nos Pecados Capitais, sem distinção do seu estado ou condição social. Para além dos já indicados, identificam-se ainda, do lado esquerdo da composição, as penas infligidas pela Avareza (o avarento é obrigado a engolir moedas, cruzados portugueses do reinado de D. Manuel) e as que respeitam à Gula, réprobo a quem um diabo, com aspecto de bode, obriga a ingerir vinho vertido de um odre em forma de porco. O exacto sentido moralizante de outros suplícios, na sua provável relação com os sete pecados capitais, é, porém, mais dubitativa. Assim sucede com um motivo central da representação, um grande caldeirão onde penam cinco pecadores, dois deles tonsurados, prefigurando possivelmente a Inveja. Neste caldeirão, que replica a forma circular da “boca” do inferno por onde caem os condenados, destaca-se um frade franciscano que parece aceitar melancolicamente o suplício, o único que nesta concentrada e tumultuosa composição surge indiferente ao diabólico vórtice, de trevas e chamas, que o rodeia.

A pintura só está documentada a partir de meados do século XIX, no acervo da Academia de Belas Artes de Lisboa proveniente da extinção dos conventos de frades, em 1834.

Amor eterno

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.

poema de Pablo Neruda
gravura de René Magritte