Archive for the ‘ Poesia ’ Category

Estátua Falsa


de oiro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar …

poema de Mário de Sá Carneiro, 1913
gravura de Tamara de Lempicka, 1923

e quem sabe um dia talvez casar

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

 

Em vez de uma pachacha suculenta
preferes, bem peludo, um peito de homem.
A mim nada me importa o que os outros comem,
importa-me comer o que alimenta

o desejo carnal que me devora
o sexo e a riqueza dos sentidos.
O que mais interessa a ti são os maridos
mas eu prefiro um rabo de senhora

ardente como as dunas do deserto,
embriagante só de o ver por perto,
comovente depois de penetrado.

Mas se podes sentir coisas assim
feliz com algum homem, não é por mim
que vais ser impedido ou criticado.

 

poema segundo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

Sexo Oral

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

 

O piercing na língua faz-me ponta,
melhora francamente o sexo oral.
Excita mais o pénis. Faz de conta
que sendo a mesma coisa é afinal

uma coisa diferente para melhor
e melhor fora às vezes que não fosse
porque queres a seguir fazer amor
e entretanto o orgasmo foi precoce.

De modo que me fico, dividido,
entre esse teu piercing atrevido
e a prática clássica e banal.

Mas, assim mesmo, posso afirmar:
que neste exame nunca vou deixar
que fiques dispensada da ora
l.

 

poema décimo oitavo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poetJoaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

uma por dia

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

Gosto muito de ti. Gosto de ti
como nunca gostei de mais ninguém.
E as coisas que sinto e que senti
são tantas e tão boas que um harém

não me daria um prazer assim.
Tão forte, tão bonito, tão intenso
que, juro, ou não me chame Joaquim,
que de ti, mais que muito, gosto imenso!

Nem tu fazes ideia da alegria,
do bom que é poder dar uma por dia
e às vezes mais que uma, por atraso.

E são tantas por ano as alegrias
trezentos e sessenta e cinco dias,
E a do ano bissexto, se é o caso!

 

poema décimo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

Fernand Léger

A la fin tu es las de ce monde ancien
Bergère ô tour Eiffel le troupeau des ponts bêle ce matin
Tu en as assez de vivre dans l’antiquité grecque et romaine
Ici même les automobiles ont l’air d’être anciennes
La religion seule est restée toute neuve la religion
Est restée simple comme les hangars de Port-Avion…
Guillaume Apollinaire


Fernand Léger, um dos notáveis artistas que integraram o Groupe de Puteaux, foi o primeiro cubista a experimentar a abstracção não-figurativa, através do contraste entre linhas curvilíneas e rectangulares, utilizando  basicamente as cores primárias.


Still Life with a Beer Mug – 1921

A simplicidade da luz interior

L`INVITATION AU VOYAGE



Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D’aller là-bas vivre ensemble !
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble !
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes. 

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre ;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l’ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l’âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l’humeur est vagabonde ;
C’est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu’ils viennent du bout du monde.
– Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D’hyacinthe et d’or ;
Le monde s’endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

 

Charles Baudelaire – Les Fleurs du Mal, poema LIII

Legenda para uma fotografia


Como diluir as estrias que traem tua idade
ao irromper do que não queres lembrar,
a não ser quando tudo te repudia tanto
que em ti embebes as tuas espadas,
ansiando remir o que não clama resgate?
E ris, sorris: corola vesperal a desfolhar nas faces
um esmalte falaz que teus olhos recusam.

Injuria-te a luz, embora te defendas
num recanto que as lâmpadas receiam:
aí a música amaina, extenuada,
permite que te envolva
uma outra que de ti se evola
num tempo de que foste expulsa.

    Não são máscaras esse carmim viscoso,
    os cabelos sufocados em adornos grotescos
    e em tinta,
    o debrum crepuscular das pálpebras,
    a cilada sedenta de uma boca
    constrangida a abdicar da força da mentira.
    São em ti apelos transparentes:
    por eles te denuncias e somente
    suplicas ser, sem precisares depor
    sobre teus desígnios, teus actos.

    Que poderás dizer que todos não saibam?
    O que és não o partilharás ao exprimi-lo.
    Tuas palavras para os outros significam
    o mesmo que silêncio. E os teus gestos
    só para ti vertem um conteúdo.

    Mas reges a magia de discretos sinais:
    uma pulseira que distancia tua mão, um aroma
    a convidar para um quarto clandestino,
    um leque a ondular sobre o teu peito
    o adejo de uma dança nupcial.

    Detém-te nesse lugar, se ninguém te convida.
    Na noite, tua cama pródiga, um esquife
    que te espera sem pressa.
    Goya ou uma objectiva cruel
    iludem-se quando tentam perpetuar-te
    ao tornar-te motivo de uma tela
    tão perecível como tu.

    Mas de nada te acusam:
    apontam-te ao meu discurso desatento,
    a alguém que deseje
    conhecer o corpo turbado que dissipas.

    Poema de José BentoSilabário
    Fotografias de Pierre Molinier

    CouchSurfing 4 Homeless

    A memória não ajuda a reter
    aquele vulto, a luz que desespera
    além no escuro.
    Já tudo se apagou
    e nada importaria se salvasse
    a emoção do viver,
    pois sei que existi
    naquele território donde fui retirado
    porque chegou aquele tempo
    que era já somente, em sucessão de mármore,
    o espaço defunto de um presente.

    E o que se apagou não existe já nos olhos
    do que na esquina está
    à espera que volte o transeunte
    que antes passou ali, e ali ficara.
    Buscai no prato as moedas,
    eu não as posso ver.
    Estou aqui por elas, e não interessam.

    poema “O Mendigo do Extinto”, de Francisco Brines

    Amor Eterno

    Dois amantes felizes não têm fim nem morte, nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,

    são eternos como é a natureza.

    poema de Pablo Neruda, gravura de René Magritte

    A tua morte é sempre nova em mim.
    Não amadurece. Não tem fim.
    Se ergo os olhos dum livro, de repente
    tu morreste.
    Acordo, e tu morreste.
    Sempre, cada dia, cada instante,
    a tua morte é nova em mim,
    sempre impossível.

    E assim, até à noite final
    Irás morrendo a cada instante
    da vida que ficou fingindo vida.
    Redescubro a tua morte como outros
    descobrem o amor,
    porque em cada lugar, cada momento,
    tu estás viva.

    Viverei até à hora derradeira a tu morte.
    Aos goles, lentos goles. Como se fosse
    cada vez um veneno novo.
    Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
    O remorso de todo o perdido em nossa vida,
    coisas de antes e depois, coisas de nunca,
    palavras mudas para sempre, um gesto
    que sem remédio jamais teve destino,
    o olhar que procura e nunca tem resposta.

    O único presente verdadeiro é teres partido.

    excerto do poema A TUA MORTE EM MIM, de Adolfo Casais Monteiro