Archive for the ‘ Artes ’ Category

D. Francisco Manuel de Melo

Nesta coisa das efemérides, a muito recente e quase despercebida passagem dos quatrocentos anos do nascimento de Francisco Manuel de Melo (1608-1666), tem pelo menos a virtude de permitir recordar, ainda que fugazmente, as diversas facetas e obra do maior polígrafo do século XVII.

 

"Finis Gloriae Mundi", de Juan de Valdés Leal , século XVII

"Finis Gloriae Mundi", de Juan de Valdés Leal , século XVII

 

Soneto I
Formosura, e Morte, advertidas por um corpo belíssimo, junto à sepultura.

Armas do amor, planetas da ventura
Olhos, adonde sempre era alto dia,
Perfeição, que não cabe em fantasia,
Formosura maior que a formosura:

Cova profunda, triste, horrenda, escura,
Funesta alcova de morada fria,
Confusa solidão, só companhia,
Cujo nome melhor é sepultara:

Quem tantas maravilhas diferentes
Pode fazer unir, senão a morte?
A morte foi em sem-razões mais rara.

Tu, que vives triunfante sobre as gentes.
Nota (pois te ameaça uma igual sorte)
Donde pára a beleza, e no que pára.

Ligações Perigosas

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

 

Tua pele tem um quê que não consigo
saber por que me deixa tão excitado.
Encostar-me a ti é sempre um perigo,
pior ainda se estiver deitado.

Saltam faíscas, raios e coriscos
numa atmosfera cheia de gemidos
e corremos, por isso, sérios riscos
de ficarmos chamuscados, derretidos

por tão embriagante alta-voltagem,
que em vez de meter medo dá coragem
para tentar um outro big-bangue.

E se meter em ti o meu rastilho,
então aí, amor, há mais sarilho
e explode tudo, tudo, até o sangue.

 

 

poema décimo sétimo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

mitos e realidades

 

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

 

 

Tens a coisa pequena mas que importa
se a questão nunca é do tamanho.
Ela pode ser grande e já estar morta
ou pequena e campeã do arreganho.

Ao centímetro não há felicidade
que possa ser medida, pois então!
Para poder impôr-se, a coisa há-de,
muito mais que tamanho, ter tesão.

É tudo o que deves ter em conta.
O resto é conversa rasa e tonta
se não promoçãozinha pessoal.

Só tens de cumprir o compromisso.
E não te esqueças nunca para isso,
tomar o compromisso também vale.

 

poema nono dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

A Arte da Ilusão

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

 

“Pum catrapum pum, pum catrapum pum”,
assim, todas as noites, tal e qual.
Ritmo como este nunca ouvi nenhum,
nem um concerto a vozes tão banal.

É sempre a mesma coisa. À mesma hora.
Já sei tudo de cor, está no ouvido.
Este casal que aqui por cima mora
não consegue passar despercebido.

Diz ela: “mete agora, assim, mais fundo…”,
Riposta ele: “isto é o fim do mundo!”,
fazendo o melhor de que é capaz.

Nestas casas do século dezoito,
chamadas pombalinas, não há coito
que nos deixe dormir a noite em paz.

 

poema vigésimo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

Aula de Anatomia

Ilustração de Michael Zichy

 

Tens dezanove nos preliminares,
dezoito em sexo oral e quando fodes
vais sempre além do quinze, mas tu podes
melhorar muito a nota se estudares.

Quando te pões de gatas, é profunda
a satisfação no teste. Sem favor.
Mas do que mais gostava o professor
era dar um excelente à tua bunda.

A esse peito erecto dou um vinte
quando o acaricio com requinte,
babado como um porco por bolota.

Na grande faculdade que é a cama,
quanto mais se estuda, mais se ama,
e quanto mais amor, melhores notas.

poema décimo oitavo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

Festival Temps d’Images 2008

Para uma rápida visualização da programação do Festival, publiquei um Magazine  no Issuu 

O Festival Temps d’Images está de regresso à cidade de Lisboa, de 29 de Outubro a 17 de Novembro. Um prémio de cinema é a novidade da sexta edição do festival que envolve nove entidades, entre elas, o Museu Colecção Berardo. Sob o mote “As fronteiras”, a aposta da programação continua a ser em projectos que fazem o cruzamento entre as artes cénicas e as artes da imagem.
O Museu Colecção Berardo acolherá o Festival de Cinema, entre 15 a 17 de Novembro. O concurso foi organizado e é dirigido pela artista multimédia e realizadora Rajele Jain que, em conferência de imprensa à Agência Lusa, realçou “o entusiasmo” de vários em apresentarem obras a concurso e a estreia nacional de alguns filmes portugueses. Foram seleccionados 22 filmes de 25 países, seis deles de realizadores portugueses.
Segundo Rajele Jain a opção pelo cinema no Festival visa “dar um enfoque ao trabalho do artista que, por vezes, é tímido e não o quer mostrar”. Serão também apresentados filmes “em que o realizador procura mostrar o olhar de um artista em relação à vida”.

O Festival começa no Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado com a instalação “Western Union: small boats” de Isaac Julien, último passo da trilogia iniciada pelo artista em 2005 com “True North”.

O director do Museu do Chiado, Pedro Lapa, explicou à Agência Lusa, que a instalação aborda a chegada de africanos às costas europeias, nomeadamente da Sicília onde se passa a maior parte da acção. Esta instalação, que é “uma metáfora sobre uma situação chocante no mundo contemporâneo”, é constituída por três projecções mais duas suplementares sincronizadas e estará no Museu do Chiado, até 1 de Fevereiro.

Este não será o único evento a ultrapassar a data de fecho do Festival: na Embaixada de França, outro dos parceiros de Temps d’Images, estará patente uma exposição de arte contemporânea até 22 de Novembro. A exposição intitulada “Lumiére toujours” estende-se dos salões, sala das porcelanas e capela aos jardins onde Cabrita Reis propõe uma instalação especialmente concebida para o evento, intitulada “Among the trees“.

No muro da embaixada serão projectadas imagens de luz concebidas e realizadas por Nuno Maya e Carole Purnelle, “que mostrarão, em tamanho natural, cidadãos franceses em Lisboa, iluminados pelas cores das bandeiras de França e da Europa”, explicou Jean-Paul LeFèbvre, da embaixada.

Um novo espaço lisboeta, a LXFactory, que integra pela primeira vez o Festival, apresentará a instalação em ambiente interactivo “Reais jogos virtuais” de Isabel Valverde, dias 1 e 2 de Novembro. Outros espaços que acolherão iniciativas no âmbito do Festival são o Centro Cultural de Belém (CCB), a Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Fundação EDP e galeria Graça Brandão.

Na Culturgest, a instalação do “performer e videoasta” Ivo Serra, “Tela”, é apresentada nos dias 6 e 7 de Novembro. A Culturgest acolhe ainda quatro iniciativas, duas delas em co-produção.. Via.

para grandes males, grandes remédios…

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

 

Sabia que voltavas. Estava à espera
que tudo se acalmasse. E acalmou.
Foi como o inverno frio que passou
e deu lugar por fim à primavera.

Chegaste ainda um pouco convencida
que a razão toda estava do teu lado
e eu que raramente estou zangado
procurei solução descontraída:

sentei-te no meu colo, acariciei
teus seios, tuas coxas, teu umbigo,
mordi a tua língua e já nem sei

quantas mais coisas fiz então contigo.
Porém, uma das coisas que te dei,
queres sempre a dobrar e eu não consigo.

 

poema vigésimo primeiro dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

Gourmet

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

 

 

Teus grandes lábios para eu beijar!
E os pequenos também. Meter a língua
entre uns e outros para os provar
porque há mesmo diferença. Eu distingo-a.

Sabem os grandes a frutos africanos
às vezes com um toque a malvasia
quando a língua desliza até ao ânus.
Os pequenos sabem sempre a maresia.

Que entradas da mais bela refeição
que é o teu corpo todo sem excepção
pelo qual eu salivo de prazer!

Nenhuma das dietas necessárias
impede que essas coxas extraordinárias
sejam o que há de melhor para comer.

 

poema terceiro dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008

Estátua Falsa


de oiro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar …

poema de Mário de Sá Carneiro, 1913
gravura de Tamara de Lempicka, 1923

e quem sabe um dia talvez casar

Ilustração de Michael Zichy

Ilustração de Michael Zichy

 

Em vez de uma pachacha suculenta
preferes, bem peludo, um peito de homem.
A mim nada me importa o que os outros comem,
importa-me comer o que alimenta

o desejo carnal que me devora
o sexo e a riqueza dos sentidos.
O que mais interessa a ti são os maridos
mas eu prefiro um rabo de senhora

ardente como as dunas do deserto,
embriagante só de o ver por perto,
comovente depois de penetrado.

Mas se podes sentir coisas assim
feliz com algum homem, não é por mim
que vais ser impedido ou criticado.

 

poema segundo dos Sonetos eróticos & irónicos & sarcásticos & satíricos & de amor & desamor & de bem & e de maldizer do poeta Joaquim Pessoa
Litexa Editora, 2008