Arquivo de Maio, 2007

36 minutos e 24 segundos de prazer…

… com um desconhecido!

É verdade. Não se pode conhecer tudo…
Lang Lang foi-me apresentado por um amigo, a propósito do recente concerto com a Orquestra Gulbenkian. Tenho por isso dedicado os últimos dias a descobrir este pianista chinês de 24 anos, de facto um virtuoso e um intérprete brilhante.
O belamente sombrio Concerto nº 2 para Piano de Rachmaninoff adquire com esta interpretação de Lang Lang uma dimensão superior.

A vontade de comparar a cerca de meia-hora desta obra à língua na boca que nos faz descobrir o corpo inteiro é… languidamente irresistível!

Purpurina


Tenho o nome de uma flor
quando me chamas.
Quando me tocas,
nem eu sei
se sou água, rapariga,
ou algum pomar que atravessei.

Eugénio de Andrade

sem fuga possível, deixa-te ir na corrente…

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny

a menina desaparecida

Temos lido muitas opiniões sobre o caso da pequenina desaparecida no Algarve, em grande número indignadas com a excessiva mediatização deste processo face a vários outros que nunca adquiriram o mesmo relevo neste mundo global (chegamos ao absurdo de ver jornalistas a entrevistar colegas de profissão sobre o tema).
O mundo das oportunidades não é igual para todos em quase tudo na vida e os pais da menina agarraram-se com todas as suas forças ao poder dos media para tentar encontrar a filha. Qualquer de nós, se tivesse essa possibilidade, faria exactamente o mesmo se perdesse um filho nestas terríveis circunstâncias.
Também é verdade que as não-notícias vão perdendo impacto e gradualmente a esperança vai sendo menor. É até provável que à menina possa já ter acontecido algo de inimaginável para quem, de forma natural, tenha adquirido simpatia pela causa, ainda que o principal motivo seja a difusão até à exaustão de imagens da menina…
Já foi vista em Marrocos, na Grécia e sabe-se lá onde mais… mas infelizmente a pequenita não é a imagem de Nossa Senhora de Fátima que aparece só porque as pessoas acreditam muito!
Sem a fé dos pais da Maddie neste momento, digo, do fundo do coração, que a melhor prenda de aniversário que hoje poderia receber seria ver uma imagem da menina, viva. Seria uma prenda para dividir, pelo que significa de esperança – que devemos manter – e pela possibilidade de explicar às nossas crianças porque podem acreditar no ser humano.

amor impúdico

Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

Luis Vaz de Camões – Os Lusíadas, Canto IX – 83

O Brilho das Imagens

Os retábulos de altar e as imagens devocionais (pinturas, esculturas e relevos) que esta exposição apresenta foram seleccionados da colecção de arte medieval do Museu Nacional de Varsóvia.

A selecção de peças é bem demonstrativa da evolução das principais expressões criativas e das declinações formais da arte gótica num vasto espaço territorial centro-europeu, surpreendendo não só pela escala e magnificência visual de muitas das imagens, como também pela complexidade dos seus referentes plásticos face a modelos e centros polarizadores (Itália e Flandres) da arte ocidental europeia durante a Baixa Idade Média.

Ora evidenciando um franco acolhimento de influências externas, ora privilegiando linguagens de cariz mais local e vernacular, as obras expostas propõem uma franca percepção das relações entre centros e periferias artísticas num largo período histórico (séculos XII-XVI), estimulando também nesse contexto um diálogo fundamental com a diversidade do próprio acervo do MNAA em pintura e escultura.

A cronologia, a iconografia, o uso ou a função das imagens, ainda que referenciais, não estruturam matricialmente a narrativa da exposição. A optimização das condições de visibilidade de duas disciplinas artísticas distintas, da pintura e da escultura, foi também considerada na organização de dois percursos que pontualmente se entrecruzam.

Se tivermos em conta que num âmbito nacional e internacional a cedência temporária de pinturas e esculturas de idêntica cronologia e de idêntica fragilidade material deixou de ser uma prática recorrente para se transformar num facto singular, a possibilidade de ver um tão relevante conjunto de obras medievais temporariamente retiradas, pela primeira vez, da exposição permanente do principal museu da Polónia, constitui por si só um acontecimento.

Até 17 de Junho no Museu Nacional de Arte Antiga

Via @ctualidade digital

Postais de Lisboa – Jardim do Torel

O Jardim do Torel, junto ao Elevador do Lavra, faz parte das memórias da primeira infância.
Durante muito tempo maltratado, foi recentemente alvo de recuperações e está muito bonito, embora a zona envolvente também precise de alguns cuidados.
É um local privilegiado para observar a Baixa e a Sétima Colina

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