Qual é o discurso politicamente correcto?

A Fundação Calouste Gulbenkian promoveu, em Outubro de 2003, uma conferência sobre as Relações entre a Europa e os EUA.

A intervenção, politicamente… de Durão Barroso, então Primeiro-Ministro, pode ser lida aqui!

Aqui fica um excerto da palestra politicamente… de Alain Minc, numa análise prospectiva das relações entre os dois lados do Atlântico.. e não só!

Sob um certo ponto de vista, os Estados Unidos são, actualmente, uma espécie de síntese do novo mundo. Se me é permitido, utilizarei as seguintes palavras: Ontem, os Estados Unidos eram um país ocidental, mas hoje são um «país universal», uma espécie de súmula do mundo inteiro e não unicamente a expressão do antigo mundo ocidental.
[…]
A que se assemelham os Estados Unidos quando os indianos se tornarem tão poderosos como os judeus, os chineses ficarem tão influentes como os WASP – white anglo-saxon people, e os hispânicos detiverem tanta influência política como os irlandeses católicos?
Claramente, as elites dos Estados Unidos mudarão.
Basta observar quem se encontra, actualmente, nas universidades americanas e saberemos, com exactidão, quem comandará o país daqui a cinco, dez ou vinte anos.
Será possível imaginar os Estados Unidos com os indianos, os chineses e os hispânicos nas posições de liderança? Será este o mesmo país e terá os mesmos laços com a Europa? Funcionará o multiculturalismo como actualmente funciona?
[…]
Esses não são os Estados Unidos com os quais a Europa se sente tão directamente ligada.
Quais serão, então, os seus valores?
Partilharemos a democracia e o mercado. Felizmente, esses valores são cada vez menos ocidentais e mais universais.
Todavia, à excepção desses, teremos a longo prazo uma visão comum sobre Deus? Sobre o lugar da religião nas nossas sociedades, sobre os direitos humanos ( incluindo o aborto e a pena de morte), sobre o habeas corpus, sobre a liberdade ou mesmo sobre o equilíbrio de poder?
A Europa é e será, se este termo pode ser utilizado, o reservatório dos velhos valores ocidentais; os Estados Unidos serão o laboratório dos novos valores universais.
É também evidente que as diferenças estão associadas às nossas opiniões públicas. Na Europa, infelizmente, o pacifismo significa antiamericanismo e anticapitalismo.
[…]
Até agora existia uma velha base de hábitos, história e valores comuns nas relações transatlânticas. Manter-se-á a longo prazo?
Penso ser óbvio que o multiculturalismo vai funcionar e que as minorias americanas serão profundamente americanizadas, mas essa multiculturalização alterar-se-á com os novos costumes, e alterar-se-á tanto mais quanto as minorias mudarem.
[…]
Enquanto «país universal», os Estados Unidos terão preocupações universais e parece óbvio que, a longo prazo, a China será o seu principal adversário, o seu principal complexo industrial, o seu primeiro credor, e, evidentemente, o seu principal concorrente estratégico.
[…]
Claramente, haverá uma América com fortes elites chinesas, sino-americanas, que terão de negociar com a China.
Depois existitrá, é claro, a Índia. O futuro complexo mundial de serviços: porque é que a indústria vai para a China e os serviços para a Índia? Devido à língua inglesa. Quando se trabalha na indústria dos serviços é necessário falar inglês; ao invés, quando se trabalha numa fábrica, é preciso falar a língua local.
[…]
A Rússia continuará no jogo, menos como potência nuclear e mais como potência petrolífera.
Obviamente, as áreas eruptivas ( Médio Oriente, Ásia Central), com ligações ao terrorismo, preocuparão os Estados Unidos. E, no que respeita à ameaça terrrorista, esta afecta todos os países e não só os países ricos. A mesma ameaça não cria um interesse comum unicamente entre os Estados Unidos e a Europa, mas entre os Estados Unidos e o resto do mundo.
[…]

Quais serão as nossas preocupações em comparação com as dos Estados Unidos?
Na realidade, enquanto europeus, teremos três preocupações: A primeira será a imigração, a tornar-se uma obsessão crescente para países como a Itália, Espanha e Portugal. Países de emigração até agora, terão de aprender a ser países de imigração, como o foi sempre a França. A segunda, está associada à primeira e relaciona-se com a demografia e a questão das pensões, que se tornará para nós uma questão central. A terceira liga-se à imprecisão das nossas fronteiras. Desconhecemos onde se encontram as mesmas a leste e a sul.
Parece, portanto, claro, que não nos consideramos como uma potência mundial!
[…]
Já não teremos inimigos comuns. O terrorismo não é um inimigo comum: é um bode expiatório comum, insuficiente para fortalecer uma aliança de longa duração.
Creio, por isso, que vivemos, ou viveremos, realmente, em dois mundos diferentes.
[…]

in Conflito e Cooperação nas Relações Internacionais
Relações Transatlânticas Europa-EUA

World Press Photo 2004


World Press Photo of the Year
Na foto, tirada pelo fotógrafo
indiano Arko Datta – Reuters, em Tamil Nadu no dia 28 Dezembro, uma mulher indiana chora um parente morto no tsunami asiático.


Spot news stories – segundo lugar
Yuri Kozyrev da Time Magazine estava no local onde ocorreu o ataque terrorista à escola de Beslan, na Ossétia do Norte – Rússia


Spot news singles – segundo lugar
Um jovem looter nas ruas de Port-au-Prince – Haiti, foi captado pelo fotógrafo israelita Shaul Schwarz – Agência Corbis, em Fevereiro de 2004.


General news stories – segundo lugar
Paolo Pellegrin da Agência Magnum cobriu o funeral do líder palestino Yasser Arafat


General news singles – segundo lugar
David Robert Swanson do The Philadelphia Inquirer retrata um soldado americano durante uma emboscada no Iraque, em 6 Abril de 2004.


Daily life singles – segundo lugar
Foto de uma menina a jogar basquetebol em Ohio. A menina pertence à velha congregação alemã Irmãos Baptista.
Por Krisanne Johnson – US News & World Report


Nature singles – primeiro lugar
Jahi Chikwendiu do The Washington Post captou esta imagem durante uma tempestade de areia no Chade.


Arts and entertainment stories – primeiro lugar
Foto tirada num desfile de moda primaveril, pelo sueco Lars Tunbjörk – Agence Vu.

A visitar, a edição de 2004 da World Press Photo – Centro Cultural de Belém, Lisboa.
De 8 de Setembro a 2 de Outubro.

Fontes: BBC e DN

Isto está bonito, está..!

Posted by Hello

Verei por ti

Unamuno e Gustavo Adolfo Bécquer representam dois dos expoentes da poesia espanhola do final do século XIX. Inicia-se com eles o Modernismo, que em Portugal principiou com a revista Orpheu (em 1915).
Contudo, Miguel de Unamuno não encaixava no Movimento; exaltava a pátria, a sua Espanha que lhe doía.

Verei por ti ilustra a grandeza espiritual deste poeta.

«Desconheço-me», dizes, mas olha, tem por certo
que a conhecer-se começa o homem quando clama
«Desconheço-me» e chora;
a seus olhos então o coração aberto
da sua vida encontra a verdadeira trama;
é então sua aurora.

Não, ninguém se conhece, até que o toca
a luz de uma alma irmã que do eterno chega
e seu fundo ilumina;
teu íntimo sentir floresce em minha boca,
tens a vista em meus olhos, vê por mim, minha cega,
vê por mim e caminha.

«Estou cega», dizes-me; apoia-te em meu braço
e alumia com teus olhos nossa áspera via
perdida no futuro;
verei por ti, confia; tua vista é este laço
que a ti me atou; meu olhar a garantia
de um caminhar seguro.

Que importa que os teus não vejam o caminho,
se dão luz aos meus e me iluminam todo
com seu tranquilo lume?
Apoia-te em meus ombros, confia-te ao Destino,
verei por ti, ó cega, afastar-te-ei do lodo,
levar-te-ei ao cume.

E ali, na luz envolta, abrir-se-ão teus olhos,
verás como esta senda atrás de nós, distante,
se perde na distância
e nela desta vida os míseros restolhos,
e aos reflexos do céu abrir-se-nos, radiante,
o que hoje é esperança.

Miguel de Unamuno (1864-1936)
in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
Selecção e tradução de José Bento

O Inimigo do Serviço Público

A definição de Televisão de Serviço Público só tem nexo se integrada num contexto mais amplo da discussão em torno do melhor modelo, nas sociedades contemporâneas.
A noção clássica de Serviço Público é baseada numa concepção normativa de bem e numa visão suspeita das práticas comportamentais do cidadão comum, enquanto membro de uma organização política e social.
A questão reside em saber se tal visão é legítima numa sociedade Democrática Liberal, onde o indivíduo é sublimado e nenhuma noção de bem ou de correcto deve ser imposta à comunidade!

O satírico O Inimigo Público atingiu o ponto de maturidade que lhe permite sair do suplemento semanal das sextas-feira do jornal Público e estreou esta noite na SIC, demonstrando mais uma vez a capacidade criativa da irreverente equipa das Produções Fictícias.

Da primeira edição, destaco a peça sobre o novo avião A380 e a declaração de Bin Laden.

Notícia da pivô Ana Rita Clara:
– Quem também se mostrou satisfeito com mais esta mostra de vitalidade da indústria aeronáutica, foi o Director Geral da Al-Qaeda, o terrorista anteriormente conhecido por Osama Bin Laden, que, em declarações surgidas no site da Al Jazeera e no site do Bloco de Esquerda, os dois órgãos oficiais da Al-Qaeda, manifestou todo o seu contentamento:

Declaração de Bin Laden:

– Allah aprova esse condor dos ares que pode transportar mais de 800 infiéis.
Com 70 metros de comprimento, 64 metros de envergadura, 20 metros de altura, 560 toneladas de peso, o novo A 380 é um sonho para a organização, melhor do que 70 virgens da Look Elite, um sonho doce como uma tâmara e como a Marisa Cruz.
Com um mínimo de 850 mortos já assegurados, não temos mais necessidade de atacar arranha-céus, podendo focar a nossa atenção em alvos simbólicos e artísticos do Ocidente, como a Torre Eiffel, a Torre de Londres, o Guggenheim de Bilbao, o Parque Mayer, o espólio de vestidos do Augustus, a biblioteca do Pacheco Pereira na Marmeleira, a colecção de perucas do grupo Seiva Trupe e a pila do Cargaleiro que está no Parque Eduardo VII.
Já temos 10 mártires que se prontificaram para morrer por
Allah , dirigindo o novo A 380 ou lendo o último romance de Lídia Jorge.
No paraíso vão encontrar 70 jovens que tecnicamente são virgens, pois têm ainda o hímen intacto, somente tendo praticado sexo oral, anal e masturbado os seus inúmeros parceiros. Hoje em dia é o que se arranja!

A não perder!

Porque há coisas que gostava de saber..

Bucólica

A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;

De casas de moradia

Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;

De poeira;

De sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu pai a erguer uma videira

Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

O espaço não público

[…]Trinta anos depois do estabelecimento da democracia, como funciona o espaço público em Portugal?

A constatação imediata é a de que não existe. Está por fazer a história do que, nesse plano, se abriu e quase se formou durante os anos «revolucionários» do pós-25 de Abril, para depois se fechar, desaparecer e ser substituído pelo espaço dos media que, em Portugal, não constitúi um espaço público.

Como definir esse espaço aberto de expressão e de trocas, essencial para que a liberdade e a criação circulem num campo social? Determinemos primeiro como se manifesta a sua ausência na sociedade portuguesa.

Não há debate político: nem sequer na televisão que cria um espaço artificial, com regras predeterminadas que limitam a espontaneidade das intervenções, o acaso, e a participação desse «fora» que faz toda a riqueza da expressão pública. Nos jornais e na rádio, os debates confinam-se a troca de opiniões e argumentos entre homens políticos, sempre de um partido, visto que no mundo da política não há lugar para independentes, ou entre comentadores, pretensos «opinion makers» que dialogam constantemente entre si, em círculo fechado. Muitos dos políticos são também comentadores, fazem o discurso e o metadiscurso, o que suscita um circuito abafador e redundante: sempre as mesmas vozes e a mesma escrita nos mesmos tons, com os mesmos argumentos, com o mesmo plano de sentido, como se as ideias políticas se reduzissem a um empirismo sociológico de estratégias partidárias.

Se a política é «chata» em Portugal, se os portugueses estão «fartos dos políticos», isso não se deve apenas à sua incompetência, mas também ao próprio universo do debate político em que nada de novo, de inovador, de diferente, de forte, de original e estimulante surge para abalar os espíritos. O discurso político tem por função legitimar políticas ou projectos políticos e o metadiscurso confirmar essas legitimações. Confirmar, confirmar: eis para que se acumulam toneladas de argumentos e de pseudo-ideias mais ou menos subtis.

Quanto a uma abertura para fora – quando o peso da Europa Comunitária nas decisões do governo português é maior do que nunca – pode perguntar-se qual é a presença da questão europeia nos «debates» políticos nacionais?

Não há espaço público porque este está nas mãos de umas quantas pessoas cujo discurso não faz mais do que alimentar a inércia e o fechamento sobre si próprios da estrutura das relações de força que elas representam. Os lugares, tempos, dispositivos mediáticos e pessoas formam um pequeno sistema estático que trabalha afanosamente para a sua manutenção.

José Gil

Portugal, Hoje – O Medo de Existir

Relógio d’Água, 3ª edição, 2005

"The way of the future… the way of the future… the way of the future…"



A partir de agora, sou Mr. Hughes!

The Aviator

Director – Martin Scorsese

Leonardo DiCaprio – Howard Hughes

Cate Blanchett – Katharine Hepburn

Kate Beckinsale – Ava Gardner

John C. Reilly – Noah Dietrich

Alec Baldwin – Juan Trippe

Alan Alda – Senador Ralph Owen Brewster

Ian Holm – Professor Fitz

Danny Huston – Jack Frye

Gwen Stefani – Jean Harlow

Jude Law – Errol Flynn

Adam Scott – Johnny Meyer

Matt Ross – Glenn Odekirk

Kelli Garner – Faith Domergue

Frances Conroy – Mrs. Hepburn

Brent Spiner – Robert Gross

O Aviador de Scorsese é um filme longo – 170 minutos, mas para quem gosta de cinema é um bom momento de entretenimento.

É mais um grande filme do realizador de Casino, O Cabo do Medo, Tudo Bons Rapazes, Histórias de Nova Iorque…

DiCaprio surpreende pela positiva. Já tinha gostado dele em Apanha-me se Puderes, mas demonstra, pelo profundo trabalho de investigação que fez para este papel, que podemos esperar deles grandes coisas.

A excentricidade de Howard Hughes, o multimilionário amante da vida e dos sonhos impossíveis, é muito bem trabalhada por DiCaprio, que, juntamente com Scorsese, merecem os holofotes na noite dos óscares.

A análise dos críticos pode ser encontrada aqui e aqui!

As tuas mãos

Foto de Paul Grant Cutright

Quando as tuas mãos, amor,

procuram as minhas,

que me trazem em seu vôo?

Por que se detiveram

na minha boca, de súbito,

por que é que as reconheço

como se já antes

as tivesse tocado,

como se antes de existir

tivessem percorrido

a minha fronte, a cintura?

A sua suavidade

voava sobre o tempo,

sobre o mar, sobre o fumo,

sobre a primavera,

e quando puseste

as mãos no meu peito,

reconheci essas asas

de pomba dourada,

reconheci essa greda

e essa cor de trigo.

Passei os anos

da minha vida a procurá-las.

Subi as escadas,

atravessei os recifes,

levaram-me os comboios,

as águas me trouxeram,

e na pele das uvas

imaginei tocar-te.

De repente a madeira

trouxe-me o teu contacto,

as amêndoas anunciavam-me

tua secreta doçura,

até que as tuas mãos

em meu peito se fecharam

e ali como duas asas

terminaram a viagem.

in Os Versos do Capitão, de Pablo Neruda

Tradução de Albano Martins


Que dor de cabeça!



Posted by Hello Clique na imagem para ampliar a dor!