Postais de Lisboa

Como diria Toscanini..

A voz de anjo deixou de se ouvir há um ano.

É pois tempo de recordar uma das maiores sopranos líricos do século XX.
Sem o dramatismo de Maria Callas, a voz de Renata Tebaldi possuia uma beleza inigualável.
Elegeu Verdi e Puccini como seus compositores favoritos, alimentando assim o desejo de cantar sempre em italiano.

A colecção de temas deste duplo cd é preciosa, pois representa a época de maior expressividade da diva. Uma bela prenda de Natal.. e, se o impulso de a guardar for mais forte, tanto melhor..


The Great Renata Tebaldi em 2 CDs – Decca, ref: 00289 470 2802

Estritamente por gosto pessoal, recomendaria:

Do primeiro cd
O Mio Babbino Caro da ópera Gianni Schicchi, de Puccini; gravação de 1962
Vissi D’arte da ópera Tosca, de Puccini; gravação de 1959
Ne Andro Lontana da ópera La Wally, de Catalani; gravação de 1968
L’altra Notte In Fondo Al Mare da ópera Mefistofele, de Boito; gravação de 1958
Si. Mi Chiamano Mimi…O Soave Fanciulla da ópera La Bohème, de Puccini; gravação de 1959

Do segundo cd
Ritorna Vincitor da ópera Aida, de Verdi; gravação de 1949
Sola, Perduta, Abbandonata da ópera Manon Lescaut, de Puccini; gravação de 1954
Pace, Pace, Mio Dio da ópera La Forza Del Destino, de Verdi; gravação de 1955

Podem ouvir-se os samples aqui.

Memoráveis também, as interpretações em La Forza del Destino-1955 e Otelo-1961, com Mario Del Monaco.

O carteiro Elmano

Raramente como em Bocage (1765-1805), a vida e obra de um poeta estão tão intrinsecamente ligadas.
À imagem de obsceno e libertino está associada uma das figuras maiores da nossa história literária; O Bocage da exaltação da liberdade, da lírica, da tradução, é muito mais que o irreverente Bocage das anedotas.

Foi o Bocage desbocado e boémio que escreveu As Cartas de Olinda a Alzira; No primeiro manifesto feminista da literatura portuguesa, são relatadas na primeira pessoa as aventuras sexuais de duas jovens mulheres.

No Manifesto Epístola a Marília, são colocados a nu os déspotas e a moral vigente do seu tempo; em última análise, o Clero.

No âmbito das comemorações do bicentenário da morte du Sadino, a Biblioteca Nacional dedica-lhe a Exposição Eis Bocage… até 28 de Janeiro de 2006.

Epístola I

Olinda e Alzira

Que estranha agitação não sinto n’alma
Depois que te perdi, querida Alzira!
De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,
Que a tua companhia incendiava!
Por uma vez se foi minha alegria,
Nem a mesma já sou, que outrora hei sido!
Minhas vistas ao céu lânguidas se erguem,
E a mim própria pergunto d’onde venha
Tão novo sentimento assoberbar-me?
Não se aquieta o coração no peito,
Não cabe nele, e viva chama no íntimo
Das entranhas ardente me devora,
Sem que eu possa atinar a causa, a origem.
Aqueles passatempos que na infância
Tão do peito queria, em ódio os tenho.
Das mesmas superioras a presença,
Que d’antes para mim era indif’rente,
Se me torna hoje dura, intolerável!
Aonde, aonde irão estes impulsos
Precipitar a malfadada Olinda?
Será, querida Alzira, a tua ausência,
Que me faz derramar tão agro pranto?
Debalde a largos passos solitária
Vago sem norte: ignoro o que procuro;
Ah! Minha cara! Os males que tolero
Expressá-los não posso, nem sofrê-los.

Pavorosa Ilusão da Eternidade
– Epístola a Marília

Pavorosa ilusão de Eternidade,

Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
D’almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Sistema de política opressora,
Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos

Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:
Dogma funesto, detestável crença,
Que envenena delícias inocentes!
Tais como aquelas que o céu fingem:
Fúrias, Cerastes, Dragos, Centimanos,

Perpétua escuridão, perpétua chama,
Incompatíveis produções do engano,
Do sempiterno horror horrível quadro,
(Só terrível aos olhos da ignorância)
Não, não me assombram tuas negras cores,
Dos homens o pincel, e a mão conheço:
Trema de ouvir sacrílego ameaço
Quem d’um Deus quando quer faz um tirano:

Trema a superstição; lágrimas, preces,
Votos, suspiros arquejando espalhe,
Coza as faces co’a terra, os peitos fira,
Vergonhosa piedade, inútil vénia

Espere às plantas de impostor sagrado,
Que ora os infernos abre, ora os ferrolha:
Que às leis, que às propensões da natureza
Eternas, imutáveis, necessária,
Chama espantosos, voluntários crimes;

Que as vidas paixões que em si fomenta,
Aborrece no mais, nos mais fulmina:

Que molesto jejum roaz cilico
Com despótica voz à carne arbitra,
E, nos ares lançando a fútil bênção,

Vai do grã tribunal desenfadar-se
Em sórdido prazer, venais delícias,
Escândalo de Amor, que dá, não vende.

II

Oh Deus, não opressor, não vingativo,
Não vibrando com a destra o raio ardente
Contra o suave instinto que nos deste;
Não carrancudo, ríspido, arrojando
Sobre os mortais a rígida sentença,
A punição cruel, que execede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te adora, te incensa, e crê que és duro!
Monstros de vis paixões, danados peitos
Regidos pelo sôfrego interesse
(Alto, impassivo númen!) te atribuem
A cólera, a vingança, os vícios todos

Negros enxames, que lhes fervem n’alma!
Quer sanhudo, ministro dos altares

Dourar o horror das bárbaras cruezas,
Cobrir com véu compacto, e venerando

A atroz satisfação de antigos ódios,
Que a mira põem no estrago da inocência,
(…)
Ei-lo, cheio de um Deus, tão mau como ele,

Ei-lo citando os hórridos exemplos
Em que aterrada observe a fantasia
Um Deus algoz, a vítima o seu povo:
(…)
Ah! Bárbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lágrimas, de estragos,
Serena o frenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores, que derramas,
Para fundar o império dos tiranos,
Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo
De oprimir seus iguais com férreo jugo.
Não profanes, sacrílego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto!
Esse, de quem te ostentas tão válido,
É Deus de teu furor, Deus do teu génio,
Deus criado por ti, Deus necessário
Aos tiranos da terra, aos que te imitam,
E àqueles, que não crêem que Deus existe.
(…)

Breve promessa de vida..

As Árvores

Há em cada árvore uma alma tua, uma alma tua
que se retorce em troncos e se abandona em frutos,
uma alma que se move sobre a terra pura
como sobre os seios os mamilos escuros.

Uma ave é cada folha que voa no outono
e que desfibrada vai alimentar uma flor,
cada tronco sofrido, chagado e resinoso
fornece por cada estria águas do coração…

Na planície a árvore é uma chaga viva
que se torra em brasas e ainda dá sombra.
Amassa-a no teu sangue viajante que passas
e pede que venha a Primavera azul

que lhe dará tremores de seiva e de harmonia
(folha oblonga ou rosada maçã do amanhecer)
e assim poderão ver os seus ramos ao alto…
É tão doce a sábia promessa do mel!

Pablo Neruda, Cadernos de Temuco

o menino vai ter um brinquedo novo..

Dez meses de um amor correspondido foram abruptamente interrompidos por uma brisa marinha..

Dois meses de espera após o envio para reparação, os senhores da Pixmania decidiram ser simpáticos e propôr a substituição da falecida Nikon 5700; Optei pela Nikon 8800, pagando o diferencial..

Depois desta experiência , recomendo a quem se sinta tentado a efectuar este tipo de aquisições na internet, que se certifique se o representante em Portugal garante assistência ao abrigo da garantia, o que não acontece com a Finicon.

Lembra-te..

Nem da tua curta vida nem de ti me despedi.. não por não estar presente,
mas porque sempre que me lembrar da Serra, do Vento e do Mar..
o teu sorriso despertará do sono onde vives
e virá cheio de palavras doces, as que tu saberás recordar..
não para esquecer que partiste, mas para o silêncio não se calar.
Um beijinho, Paula.

Le Petit Prince – Antoine de Saint-Exupery

Chapitre XX

Mais il arriva que le petit prince, ayant longtemps marché à travers les sables, les rocs et les neiges, découvrit enfin une route. Et les routes vont toutes chez les hommes.

– Bonjour, dit-il.

C’était un jardin fleuri de roses.

– Bonjour, dirent les roses.

Le petit prince les regarda. Elles ressemblaient toutes à sa fleur.

– Qui êtes-vous? leur demanda-t-il, stupéfait.

– Nous sommes des roses, dirent les roses.

– Ah! fit le petit prince…

Et il se sentit très malheureux. Sa fleur lui avait raconté qu’elle était seule de son espèce dans l’univers. Et voici qu’il en était cinq mille, toutes semblables, dans un seul jardin!

– “Elle serait bien vexée”, se dit-il, si elle voyait ça… “elle tousserait énormément et ferait semblant de mourrir pour échapper au ridicule. Et je serais bien obligé de faire semblant de la soigner, car, sinon, pour m’humilier moi aussi, elle se laisserait vraiment mourir…”

Puis il se dit encore:

– Je me croyais riche d’une fleur unique, et je ne possède qu’une rose ordinaire. Ca et mes trois volcans qui m’arrivent au genou, et dont l’un, peut-être, est éteint pour toujours, ça ne fais pas de moi un bien grand prince…

Et, couché dans l’herbe, il pleura.

Overdose de vida


Depois de uma grande molha a caminho do Coliseu de Lisboa, quando entrei na sala já as Amina estavam em palco.

Estas quatro meninas – de ar ingénuo – merecem pelo menos uma audição atenta!

Depois dos cds de promoção terem desaparecido algures em França, uma delas disse simpaticamente que podemos pesquisar na web a sua música e descarregar.. ( que ternurenta!)

A sonoridade do quarteto islandês, que também participou no esplendoroso concerto dos Sigur Rós, sugere inevitavelmente Björk. A descobrir.

Três anos depois, mais uma dose de ColdPlay, onde a primeira surpresa foi o aparecimento de Chris Martin em palco, para anunciar com imenso prazer os Goldfrapp para a primeira parte.

É um grande prazer ouvir X&Y num ambiente como o que se viveu no Pavilhão Atlântico.

Desde o lançamento de Parachutes 2000, a banda tem evoluído muito bem.

Hoje, músicas como Square One, Yellow, God Put a Smile Upon Your Face, The Scientist e Fix You, são do melhor pop-rock comercial que se ouve.

Alinhamento Goldfrapp – Train, No. One, U Never Know, Black Cherry, Ride a White Horse, Strict Machine e Ooh La La.

Alinhamento Coldplay – Square One, Politik, Yellow, Speed of Sound, God Put a Smile Upon Your Face, X&Y, How Do You See the World, White Shadows, The Scientist, Til Kingdom Come/Ring of Fire, Green Yes, Clocks, Talk, Swallowed in the Sea, In My Place e para terminar em grande, Fix You.

Só não acho muita graça ao facto de – numa banda profissional – o vocalista se enganar a meio de uma música e recomeçar do início.
Voltem, que estão perdoados!

A Escola de Atenas, de Rafael

Entre 1509 e 1512, Rafael representou nas paredes de uma das salas privativas do Papa Júlio II as quatro faculdades clássicas, dando mostras de um elevado grau de liberdade intelectual.
Perante esta composição expansiva, o espectador quase se alheia do facto de o espaço ser mal iluminado.
A personificação da antiga Filosofia situa-se na parede directamente oposta à Disputà ( Teologia ), ilustrando a veneração do Santo Sacramento, que será abordada no próximo post.

A Escola de Atenas representa a verdade adquirida através da razão.
Em lugar de a ilustração recorrer às figuras alegóricas, como era hábito nos séculos XIV e XV, convocando o olhar para o infinito, Rafael submete o espaço pictórico às leis do plano, revelando conhecimento da arquitetura dos banhos romanos, fazendo a síntese entre o pagão e o profano.

Escola de Atenas

As figuras solenes de pensadores e filósofos – juntas em cada tema – representam um verdadeiro debate filosófico: astronomia, geometria, aritmética e geometria dos sólidos, são descritas de forma concreta, num imponente plano arquitectonicamente enquadrado no centro de um vasto espaço abobadado.
As figuras estão dispostas da esquerda para a direita, enquanto a arquitetura do eixo central é contrabalançada pelas paredes que avançam de ambos os lados.

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No primeiro plano à esquerda, um rapaz segura a tábua da harmonia musical diante de Pitágoras.

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A figura de Sócrates, de perfil.

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Platão e Aristóteles, considerados os principais representantes da filosofia grega durante toda a Idade Média, caminham em diálogo no topo das escadas.
Em baixo e ao centro – em atitude filosófica – Diógenes? reclina-se nos degraus, numa expressão de despojamento em relação às necessidades materiais e a um estilo de vida.

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A figura de Heráclito? – reclinado sobre o bloco de mármore – terá sido associada mais tarde.

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Euclides desenha uma figura geométrica perante um grupo de jovens.

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A figura com o globo – vista de trás – é provavelmente Ptolomeu, tendo à sua frente Zaratrusta com a esfera.

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Rafael – de chapéu escuro – e o seu amigo Sodoma

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Minerva

As figuras desta composição não se atropelam nem são sufocadas pelo aglomerado; sugerem movimento, numa celebração do pensamento clássico liberal, onde tudo é discutido e exercitado.

¡Carne, Celeste Carne de la Mujer!

¡Carne, celeste carne de la mujer! Arcilla
– dijo Hugo -, ambrosía más bien, ¡oh maravilla!,
la vida se soporta,
tan doliente y tan corta,
solamente por eso:
¡roce, mordisco o beso
en ese pan divino
para el cual nuestra sangre es nuestro vino!
En ella está la lira,
en ella está la rosa,
en ella está la ciencia armoniosa,
en ella se respira
el perfume vital de toda cosa.

Eva y Cipris concentran el misterio
del corazón del mundo.
Cuando el áureo Pegaso
en la victoria matinal se lanza
con el mágico ritmo de su paso
hacia la vida y hacia la esperanza,
si alza la crin y las narices hincha
y sobre las montañas pone el casco sonoro
y hacia la mar relincha,
y el espacio se llena
de un gran temblor de oro,
es que ha visto desnuda a Anadiomena.
Gloria, ¡oh Potente a quien las sombras temen!
¡Que las más blancas tórtolas te inmolen!
¡Pues por ti la floresta está en el polen
y el pensamiento en el sagrado semen!
Gloria, ¡oh Sublime que eres la existencia
por quien siempre hay futuros en el útero eterno!
¡Tu boca sabe al fruto del árbol de la Ciencia
y al torcer tus cabellos apagaste el infierno!

Inútil es el grito de la legión cobarde
del interés, inútil el progreso
yankee, si te desdeña.
Si el progreso es de fuego, por ti arde.
¡Toda lucha del hombre va a tu beso,
por ti se combate o se sueña!

Pues en ti existe Primavera para el triste,
labor gozosa para el fuerte,
néctar, Ánfora, dulzura amable.
¡Porque en ti existe
el placer de vivir hasta la muerte
ante la eternidad de lo probable!..

Poema de Rubén Darío
Gravura de Caesar van EverdingenFour Muses and Pegasus on Parnassus, c. 1650