Archive for the ‘ Artes ’ Category

Harmonia entre o belo e o grotesco

Une forêt profonde où se noie le regard
Sur la rive du désespoir et de l’oubli
Un vieux manoir surgi au fond de nulle part
Dans un écrin lugubre où règne la magie.

Mes larmes ont usé les pierres du chemin,
Mes cris ont lézardé les puissantes murailles
La colère nourrit chacun de ces matins
Où l’âme emplie d’amour livre et perd la bataille.

Sombres couloirs bordés de vivants candélabres
Visages de granit aux inhumains regards,
Tout évoque l’enfer dans ce château macabre
Qui emmure mon cœur de ses épais remparts.

Vieux promeneur perdu dans la brume ennemie,
Tu peux te reposer quelques menus instants
J’entrouve sous tes pas mon royaume maudit
Qui dort dans un linceul, oublié des vivants.

Poema de Bernard Sellier, inspirado no filme La Belle ou la Bête, de Jean Cocteau

ressuscitar, nas ondas do mar

Ao Mar

Água, sal e vontade – a vida!
Azul – a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência…

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa…
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés…
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece…

Ela que és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!

Miguel Torga

Nominalmente



Este cais onde nominalmente a corda foi deslocada

fazia-me pensar que eu dissera a uma das vozes
que era uma junção. Mas vi partir à mesma distância
quilha, proa e centro. Começou o afastamento.
Aperfeiçoo as imagens que distinguem os lugares.
Água dispersiva, equidistância do sol, ambivalência
das margens. Cruel grito tradicional da gaivota,
no ponto onde adeja e pesca. Cada sentimento
acumula demasiadas referências para uma respiração.

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

Marriage à-la-mode

Why should a foolish marriage vow,
Which long ago was made,
Oblige us to each other now
When passion is decay’d?
We lov’d, and we lov’d, as long as we could,
Till our love was lov’d out in us both:
But our marriage is dead, when the pleasure is fled:
‘Twas pleasure first made it an oath.

If I have pleasures for a friend,
And farther love in store,
What wrong has he whose joys did end,
And who could give no more?
‘Tis a madness that he should be jealous of me,
Or that I should bar him of another:
For all we can gain is to give our selves pain,
When neither can hinder the other.

Neste poema, o dramaturgo John Dryden (1631-1700) utiliza a retórica para questionar os valores morais da sociedade, que obrigam duas pessoas a permanecerem juntas quando já não existe amor.
Para ver as restantes cinco obras série satírica Marriage à-la-mode de William Hogarth (1697-1764), clicar aqui.

crime e castigo

DEATH OF A NATURALIST, de Seamus Heaney.


All year the flax-dam festered in the heart
Of the townland; green and heavy headed
Flax had rotted there, weighted down by huge sods.
Daily it sweltered in the punishing sun.
Bubbles gargled delicately, bluebottles
Wove a strong gauze of sound around the smell.
There were dragon-flies, spotted butterflies,
But best of all was the warm thick slobber
Of frogspawn that grew like clotted water
In the shade of the banks. Here, every spring
I would fill jampotfuls of the jellied
Specks to range on window-sills at home,
On shelves at school, and wait and watch until
The fattening dots burst into nimble-
Swimming tadpoles. Miss Walls would tell us how
The daddy frog was called a bullfrog
And how he croaked and how the mammy frog
Laid hundreds of little eggs and this was
Frogspawn. You could tell the weather by frogs too
For they were yellow in the sun and brown
In rain.

Then one hot day when fields were rank
With cowdung in the grass the angry frogs
Invaded the flax-dam; I ducked through hedges
To a coarse croaking that I had not heard
Before. The air was thick with a bass chorus.
Right down the dam gross-bellied frogs were cocked
On sods; their loose necks pulsed like sails. Some hopped:
The slap and plop were obscene threats. Some sat
Poised like mud grenades, their blunt heads farting.
I sickened, turned, and ran. The great slime kings
Were gathered there for vengeance and I knew
That if I dipped my hand the spawn would clutch it.

Literatura explicativa

Poema de Ruy Belo, ilustrado pelo último pôr-do-sol de 2006; não é em espinho mas na praia do abano, ao lado do guincho, o que vai dar no mesmo.
O pôr-do-sol é onde quisermos, ou soubermos escolher…

O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol

nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol

É não morrermos mais é irmos de mãos dadas

com alguém ou com nós mesmos anos antes

é lermos leibniz conviver com os medici

onze quilómetros ao sul de florença

sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico

Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar

ou antero de junto da ermida?

O sol que aqui se põe onde nasce? A quem

passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?

O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes

é sentir como nosso o braço esquerdo

Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém

mulheres recortadas nas vidraças

oliveiras à chuva homens a trabalhar

coisas todas as coisas deixadas a si mesmas

Não mais restos de vozes solidão dos vidros

não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas

não mais o pôr-do-sol apenas pôr-do-sol

Esboços Pessoanos – V

Carta para Paris

Tenho andado a pensar,
meu caro Mário,
por que será que os poetas
sempre morreram
e ainda morrem
de cirrose, overdose, tuberculose
e outras formas de suicídio programado!

O inconformismo e a luta
dão-lhes uma vida filha da puta
(desgaste de energia
sem fim!).

Por isso não se pergunte
aos poetas da poesia
mas aos políticos da orgia
por que morrem assim?…

poema de Joaquim Evónio,
desenho de José Jorge Soares

Esboços Pessoanos – IV


Expectância

Expectante,
a vida não vive em mim.

Brota,
fera à solta, lá fora!
Mas hei-de encontrar a hora,
o instante certo,
para trocar o sofrimento
por um amor ao vento,
beijo breve e leve
e sempre
incerto!

poema de Joaquim Evónio,
desenho de José Jorge Soares

Esboços Pessoanos – III


Ofélia

Eu sei!
O mundo fala de mim
sem entender
que o amor é,
ao mesmo tempo,
casto e sensual…

Um dia, alguém julgará o meu ardor
pois
o que a minha alma
mais deseja e quer
é o calor suave
do teu suave
corpo de mulher!

poema de Joaquim Evónio,
desenho de José Jorge Soares

Esboços Pessoanos – II

Heteromorfia

Para enfrentar
a náusea de viver
há que partir o espelho.

E cada vidro
reflecte o outro lado
aonde habita o sonho.
Desliza pela imagem dos destinos
o prisma do poema!…

poema de Joaquim Evónio,
desenho de José Jorge Soares