Arquivo de 22 de Abril, 2008

Legenda para uma fotografia


Como diluir as estrias que traem tua idade
ao irromper do que não queres lembrar,
a não ser quando tudo te repudia tanto
que em ti embebes as tuas espadas,
ansiando remir o que não clama resgate?
E ris, sorris: corola vesperal a desfolhar nas faces
um esmalte falaz que teus olhos recusam.

Injuria-te a luz, embora te defendas
num recanto que as lâmpadas receiam:
aí a música amaina, extenuada,
permite que te envolva
uma outra que de ti se evola
num tempo de que foste expulsa.

    Não são máscaras esse carmim viscoso,
    os cabelos sufocados em adornos grotescos
    e em tinta,
    o debrum crepuscular das pálpebras,
    a cilada sedenta de uma boca
    constrangida a abdicar da força da mentira.
    São em ti apelos transparentes:
    por eles te denuncias e somente
    suplicas ser, sem precisares depor
    sobre teus desígnios, teus actos.

    Que poderás dizer que todos não saibam?
    O que és não o partilharás ao exprimi-lo.
    Tuas palavras para os outros significam
    o mesmo que silêncio. E os teus gestos
    só para ti vertem um conteúdo.

    Mas reges a magia de discretos sinais:
    uma pulseira que distancia tua mão, um aroma
    a convidar para um quarto clandestino,
    um leque a ondular sobre o teu peito
    o adejo de uma dança nupcial.

    Detém-te nesse lugar, se ninguém te convida.
    Na noite, tua cama pródiga, um esquife
    que te espera sem pressa.
    Goya ou uma objectiva cruel
    iludem-se quando tentam perpetuar-te
    ao tornar-te motivo de uma tela
    tão perecível como tu.

    Mas de nada te acusam:
    apontam-te ao meu discurso desatento,
    a alguém que deseje
    conhecer o corpo turbado que dissipas.

    Poema de José BentoSilabário
    Fotografias de Pierre Molinier

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