Arquivo de 8 de Novembro, 2006

Encontro de Luis Cernuda com Verlaine e o Demónio


Por uma senda cheia de ametistas e gotas
de sangue de mancebos,
chegou Luis Cernuda
ao inferno. Contempla o âmbito terrível,
ouve as vozes longas como rastros de cobra,
junta as mãos num gesto de aceitação.
Depois, banhado de uma rubra luz,
continua a andar. De súbito,
um homem – barba nobre, olhos sem mácula –
aproximou-se dele.
Sobre o ombro pôs-lhe
a sua mão, detém-o. Diz:
– Sê benvindo, Luis Cernuda,
ao nosso reino. Tira a gravata, se quiseres,
pois está calor
neste eterno verão onde irrompeste,
e conta-me. Não ignoro
que me exaltaste em versos doloridos,
queixando-te do mundo sem verdade que deixaste.
Dir-te-ei, Luis Cernuda, que comigo
não está Rimbaud;
foi ofício do destino separar-nos.

Fala sem medo. Senta-te
nesta rocha. Fala-me do mundo.

Luis Cernuda fitou
Verlaine. Mas cala-se.

Verlaine já não pergunta, olha
os dedos finos, nobres,
a presença andaluza,
e abismam-se ambos num silêncio denso.

Um vento leve areja
o tecto de seda do inferno,
quando o demónio surge,
reclama
sua humana presa última.
Os lábios do demónio, formosos, perturbantes,
abrem-se para emitir o seu juízo:

– Luis Cernuda, amaste
tudo quanto a terra te oferecera,
desde a andorinha da Sevilha onde nasceste
até à dor de ferro de teu exílio.
Por ti viveram, reviveram
um olor de laranjais em flor,
um rapaz a vender jasmins na rua,
a morte do inverno,
uma tempestade de pombas.
Ódio não houve na tua vida, filho,
mas dor e confessada ferida.
Aceito-te. Passeia
em meus domínios,
recolhe o fogo inédito,
afaga as aves que teus cabelos roçam,
entra em tua cidade, esta
nova Sevilha para ti guardada,
feita à tua cálida medida,
olorosa, e não a gentes que te humilhem.
Porque purgaste em lágrimas o que não mereceste.

Luis Cernuda, assombrado,
pôs-se de pé, todo luz.
Verlaine sorri. Cantam arcanjos e santos,
que rodeiam o trio. Luis Cernuda
compreendeu. Fala por fim,
pode dizer apenas, num suspiro imenso:

– Deus meu.

(Manuel Mantero)

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