Arquivo de 19 de Novembro, 2006

Frei Carlos e o Belo Portátil

De origem flamenga e tendo professado em 1517 no antigo Convento do Espinheiro, junto a Évora, o monge-pintor Frei Carlos foi uma das mais proeminentes e lendárias figuras da pintura retabular em Portugal nas primeiras décadas do século XVI e alguns dos grandes painéis que a sua oficina pintou para os altares daquele convento jerónimo são das obras mais apreciadas na colecção do Museu Nacional de Arte Antiga.

Mas se é nestes grandes formatos que a pintura do Espinheiro revela desde logo especial originalidade, demonstrando em tais registos uma invulgar capacidade de integração espacial dos elementos da imagem em situações narrativas, não deixa de ser nos pequenos painéis devocionais que se afirma com especial nitidez uma sedutora técnica de utilização da própria matéria pictural, sendo também por aí que melhor se reconhece a sua ascendência na inconfundível tradição flamenga.

Esta exposição considera essa particular vertente da produção criativa da Oficina do Espinheiro, a das imagens religiosas para contemplação, meditação e oração individual ou privada, pinturinhas portáteis ou de oratório privativo que, na cela monástica, estimulavam uma piedade afectiva na contemplação de figuras de Cristo, da Virgem com o Menino ou de S. Jerónimo no deserto.

O ponto de partida e fulcro do percurso expositivo é uma obra inédita de Frei Carlos recém-adquirida para a colecção do MNAA, uma belíssima representação do Ecce Homo (39,5 x 31 cm). Submetida a exames fotográficos e radiográficos, essa documentação sobre a peça é apresentada em termos comparativos com documentação congénere de outras pinturas de tipo devocional produzidas no Espinheiro.
A exposição procura assinalar, através de 30 pinturas de pequeno formato mas de grande qualidade, a extraordinária procura de imagens devocionais na Europa do final da Idade Média e início do Renascimento, correspondendo a uma certa expressão do sentimento religioso e a um incremento do pietismo individual nessa época. As obras são de autoria predominantemente flamenga e portuguesa e algumas das pinturas mais qualificadas provêm de colecções privadas, nunca ou muito raramente tendo sido expostas ao público.

Jesus Cristo está a chorar. Várias lágrimas, oito, escorrem-lhe pela cara. A luz incide sobre elas. Algum sangue surge entre os lábios. O novo Ecce Homo do Museu de Arte Antiga, uma pequena pintura, com 40 centímetros de altura e 30 de largura, é uma obra para se ver muito de perto.
Frei Carlos, o pintor monge do século XVI, fê-la exactamente a pensar nessa proximidade. Fê-la também a pensar que a pudessem levar de um lado para o outro, como um Livro de Horas. “As pessoas meditam, rezam, oram em frente a estas imagens. É uma devoção mais humanista.(…)

Finalmente, coroando uma das componentes iconográficas do percurso expositivo, apresenta-se também o painel Virgem com o Menino e Anjos (1536-38), da autoria de Gregório Lopes, que acaba de ser restaurado pelo Departamento de Conservação do MNAA.

Uma pintura do século XVI para rezar em casa
Isabel Salema – Público

Esta pequena exposição temporária junta 30 obras, 23 das quais são pinturas com esta dimensão pequena. “É essa tipologia de pequeno formato que dá à peça um carácter portátil.” O quadro recém-adquirido pode ter sido pintado para um prior de um convento o utilizar e apreciar em privado. “Estas peças querem estimular um diálogo piedoso com o sagrado numa dimensão privada. É o que nos diz o Ecce Homo do ponto de vista material, mas não há lastro do ponto de vista histórico.” Não se sabe de onde vem, a não ser que estava no século XIX na colecção privada de Jorge O”Neill, em Lisboa.
“Há um realismo sereno na figura. Tem o sangue a escorrer e está como se nada fosse. Mas não deixa de ser fortemente dramática, porque a associamos ao heroismo de Cristo. O diálogo emotivo concentra-se no olhar directo de Cristo, profundamente humanista.” Essa intenção interpelativa, de experiência imediata com a divindade, tem também um carácter sensorial.

O mais poético dos luso-flamengos
Estas peças de devoção privada são o inverso dos grandes retábulos das igrejas – Frei Carlos pintou vários, alguns encomendados pelo rei D. Manuel I -, que podemos considerar a arte pública da época. Ao contrário dos retábulos, onde há uma narrativa detalhada, no Ecce Homo não há representação do espaço ou do tempo. Estas imagens de devoção privilegiam a figura de Cristo e da Virgem Maria, num retrato em busto ou meio-corpo.
Frei Carlos é uma das figuras lendárias da pintura portuguesa. José Alberto Seabra diz que a descoberta desta pintura “foi uma surpresa fortíssima”. É “inconfundivelmente” um Frei Carlos no estilo e terá sido pintada na década em que esteve mais activo, os anos 20 e 30 do século XVI. “Tem essa característica dos bons pintores flamengos, como Van Eyck e Roger Van der Weiden: consegue um apurado realismo da forma e simultaneamente uma idealização poética. Junta o real com o ideal.” As mãos é o que mais impressiona José Alberto Seabra no quadro. “Parecem as de uma Madona. Ele é o mais poético dos luso-flamengos.”
Frei Carlos é entre os pintores três luso-flamengos da época – além dele há Francisco Henriques (o favorito do rei) e o Mestre da Lourinhã – o que melhor domina a perspectiva, uma visão racionalizada do espaço, como se vê nos retábulos. São estes três, aliás, os melhores pintores em Portugal no início do século XVI. Frei Carlos terá estudado em Bruges ou Antuérpia e vem para Portugal porque cá há trabalho.

O primeiro documento que se conhece sobre o monge-pintor é aquele que diz que professa no Convento do Espinheiro, em Évora, em Abril de 1517. “Eu Frei Carlos de Lisboa flamengo faço profissão…” Em 1540, sabe-se que terá morrido, porque outro documento refere o destino a dar ao espólio que estava na sua cela. Depois, várias crónicas falam-nos da sua fama como pintor.

Próximo da cidade de Évora, e bem no coração das vastas planícies Alentejanas, ergue-se o antigo e agora renovado Convento do Espinheiro, transformado num surpreendente hotel de luxoEste convento tem a sua origem numa lenda que relata a aparição da Virgem sobre um espinheiro. Em 1458, dada a importância deste local como destino de peregrinações, foi fundada uma igreja e posteriormente o convento que chegou a receber a visita de reis de Portugal.

“Ele tem uma produção em circuito fechado. Terá só feito obras para os conventos da sua ordem, a dos monges de São Jerónimo.” O Espinheiro, mas também os Jerónimos em Belém, Santa Marinha da Costa em Guimarães ou a Pena em Sintra. A oficina de Frei Carlos, instalada no Convento do Espinheiro, é a única em Portugal, na sua época, que faz estas imagens de devoção, chamadas imago pietatis.
Nos Países Baixos, estas pinturas devocionais de pequeno formato são comuns desde o século XV. (…)

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