o que dizer

de um disco que tenho ouvido durante mais de metade da minha vida?

de um dos grandes compositores contemporâneos?

da voz de Jon Anderson em So Long Ago, So Clear?

e da voz da Vana Veroutis?

que mais posso dizer sobre Heaven and Hell de Vangelis?

que é luminoso!

A vida não está fácil…

em Madrid…

e em Lisboa, também não!

telejornal da RTP

O repórter de exterior, um senhor Gomes, diz que, segundo decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa, a Câmara Municipal foi hoje obrigada a suspender a construção do Túnel do Marquês, caso não elabore um estudo de impacto ambiental no prazo de dez dias.

E o directo é feito a partir da Avenida Joaquim Augusto de Aguiar!

Como a obra é nas Amoreiras, não podia estar a fazer o directo na Avenida António Augusto Aguiar, mas sim na Rua Joaquim António de Aguiar!

Devia ser dos nervos!

Aguarela de Pratt (I)

A actual República do Haiti, descoberta por Colombo, ocupa a parte ocidental da ilha.

Em 1884, a parte oriental tornou-se independente, passando a chamar-se República Dominicana.

Para Hugo Pratt, a lha do Haiti chama-se Grande Antilha.

Colonizada pela Espanha, é cedida à França em 1697, através do tratado de Ryswick.

Torna-se então a colónia mais próspera e uma das mais ricas do mundo, bem como o maior mercado de tráfico de escravos.

Enquanto dura a Revolução Francesa, os escravos africanos, que tinham substituído a população indígena, dizimada pelos espanhóis, revoltam-se.

Toussaint L`Ouverture, escravo até aos quarenta e cinco anos, lidera o único caso de revolta de escravos com êxito em toda a História.

Em 1793 é abolida a escravatura.

Dessalines, em 1804, lidera a revolução haitiana e derrota o mais poderoso exército colonial da época, enviado por Napoleão.

O Haiti torna-se o primeiro Estado independente na América Latina.

Azenhas do mar



Foto de Jorge Coimbra

o mar aroma

o casario das azenhas.

o próprio nome

na simbiose da gramática

numa percepção plena dos sentidos.

as casas

e a espuma a diluir

a tinta das paredes

longe

duas gaivotas soltas

na ponta de uma nuvem.

José Félix

o meu dia 25 de Abril de 74

Vivo na Avenida 24 de Julho, com vista para o Tejo e para o mercado da Ribeira.

Como habitualmente, por volta das 8.00 horas, atravesso a avenida para apanhar o eléctrico 25, em direcção aos Prazeres, e vejo alguns jipes do Exército a passar, quase em câmara lenta.

Estranho, pensei!

Tlim, tlim, é o eléctrico. Fico na rectaguarda, e pelo vidro traseiro, observo, ainda sem perceber o Movimento.

Vejo então que um jovem soldado, que deve ir entrar de serviço no Hospital Militar da Estrela, olha com a mesma curiosidade que eu para a rua.

Passa então um enorme tanque em direcção ao Cais do Sodré, e aí perguntei ao soldado “o que é que anda aqui a fazer um tanque no meio da avenida?”. “Sei lá?”, respondeu ele, com a mesma surpresa. Grande nabo, devo ter pensado na altura. Se é militar, devia saber.

Estou no 1º ano do Curso Industrial dos Salesianos.

Na habitual reflexão matinal antes do início das aulas, ritual que leva as turmas alinhadas para dentro da igreja, o discurso que já conhecemos de cor e que o director, o padre Maurício, pronuncia todas as manhãs, é substituído por: “Houve um golpe de estado, e há ainda alguma confusão, por isso hoje é melhor irem para casa!”

Grande festa, não há aulas!

Claro, não há regresso de eléctrico, mas sim a pé. Jardim da Estrela com eles!

Chego a casa já perto do meio-dia. A dona Cândida, mãe galinha, pergunta aflita “onde é que andaste?”

A seguir ao almoço, com a promessa de não me afastar de casa e não ir para além do jardim, tenho de alimentar a curiosidade.

Subo a Rua das Flores, pois a Rua do Alecrim está num alvoroço, e, chegado ao largo Camões, parece que vem tudo abaixo, com o tremendo barulho dos tanques que sobem a Rua da Misericórdia em direcção ao Carmo.



Por aqui não! Passo entre as igrejas do Chiado – a Brasileira ainda não sonha com Pessoa, subo a Serpa Pinto e.. Pum! Pum!, tiros de espingardas!

Espera aí, que isto não é para mim!

Desato a correr rua abaixo e só paro no Cais do Sodré. Meio desiludido por não ver o epicentro da coisa, ainda com vontade de voltar lá, mas algo mais forte me leva de volta a casa.

Da minha janela, vejo barcos da Marinha fundeados no meio do rio.

Acompanho a Revolução pela rádio e pela televisão.

Lembro-me do Spínola, por causa do monóculo, e do Américo Tomaz, conhecido pelo corta-fitas.

Pássaro das Ilhas

Pássaros das ilhas: no vosso voo

há uma vontade,

há uma arte secreta e uma divina ciência,

graça de eternidade.

As vossas evoluções, academia expressiva,

sinais sobre o azul,

levam ao Oriente fantasia, ao Ocidente ânsia viva,

paz ao Norte e ao Sul.

Eis perante os vossos olhos

a glória das rosas e a inocência dos lírios,

eis perante as vossas asas líricas as brisas de Ulisses,

os ventos de Jasão:

Almas doces e herméticas que ante o eterno problema

sois, em número veloz,

o mesmo que a rocha, o furacão, a gema,

o arco-íris e a voz.

Pássaros das ilhas, oh, pássaros do mar!

vossos voos, sendo

bênção, dos meus olhos, são problemas divinos

da minha meditação.

E com as asas puras do meu desejo abertas

para a imensidade,

imito os vossos círculos em busca das portas

da Verdade única.

Rubén Dario

In, O Mar na Poesia da América Latina (Antologia)

Tradução de José Agostinho Baptista