Antecâmara-I

Da leitura do último número da revista Nova Cidadania, cheguei ao documento que o Compromisso Portugal enviou aos partidos políticos por altura das Eleições Legislativas em Fevereiro último, e do qual constavam um conjunto de questões nas áreas económica, social, da educação, da justiça, política e do ambiente, que deveriam obter resposta nos respectivos programas eleitorais.

Deste valioso documento de reflexão – disponível no link acima, irei ao longo das próximas semanas destacar unicamente a relevância das questões colocadas – na perspectiva do CP,uma vez que o exercício de análise das Propostas perdeu actualidade!

Quem ainda tiver estômago para isso, pode ainda, no documento de 140 páginas, dissecar os seguintes tópicos:
– Propostas apresentada no programa
– Profundidade do tratamento
– Compromissos assumidos
– Adequação e eficácia das propostas

Apreciação Geral – Fevereiro de 2005

A verdade é que a situação do País é muito preocupante e que a nossa sociedade não cria actualmente riqueza suficiente para sustentar o presente Estado e o modelo social em que vivemos.

A verdade é que:
– o funcionamento do Estado e de muitos dos seus serviços, incluindo programas de protecção social, não é sustentável na sua forma actual, gerando frequentemente ineficiências, abusos e injustiças;
– as mudanças estruturais necessárias implicam a redução significativa, mas socialmente equilibrada e planeada, do número de funcionários públicos acompanhada da respectiva contenção salarial;
– é necessário abrir e flexibilizar efectivamente os mercados, incluindo o do arrendamento e laboral, nestes casos mantendo uma protecção social adequada;
– a prioridade do Estado deve-se centrar no combate à pobreza, na prestação de serviços públicos essenciais de qualidade e na igualdade de oportunidades para todos os Portugueses, assegurando-lhes uma qualificação mínima que lhes dê melhores perspectivas para o futuro;
– para além do Estado / Administração Pública, também as famílias têm incorrido em padrões de consumo baseados num crescente e excessivo endividamento que não é possível manter.

A verdade é que nos tempos mais próximos, o nível de vida dos Portugueses dificilmente irá subir, sendo provável que, em certos casos, possa mesmo diminuir, e que o desemprego venha a aumentar.

Sendo esta a verdade, é também verdade que nenhum dos partidos, provavelmente por razões eleitorais, mais ou menos compreensíveis, foi capaz no seu programa de ir tão a fundo no assumir desta verdade.

Mas se queremos ter esperança e inverter a situação, atingindo os objectivos últimos da nossa sociedade (a melhoria da qualidade de vida de todos os cidadãos, em particular dos mais desfavorecidos), sacrifícios têm que ser feitos e as reformas estruturais que o Compromisso Portugal, e outros têm defendido, terão que ser, finalmente, implementadas por forma a criar mais riqueza que sustente um novo modelo social.

Para isso, também é importante que os Portugueses comecem a valorizar mais o discurso da verdade.

Apreciação do Programa do Governo PS – Abril de 2005

São motivos de alguma preocupação o facto de o Governo:

– Não dizer claramente aos Portugueses que a atitude de optimismo e esperança que devemos ter se encontra directamente relacionado com a nossa capacidade de realizarmos as mudanças necessárias, o que implica os sacrifícios inerentes, que poderão exigir a contenção ou mesmo a redução de salários reais.

– Não apresentar uma definição clara do papel do Estado, parecendo apostar, em muitas áreas, num intervencionismo, deste que se poderá revelar excessivo. É importante que os Estado deixe de asfixiar a sociedade civil e os cidadãos e liberte estes e a iniciativa privada para novas oportunidades e desafios, mantendo as suas responsabilidades sociais.

– Não traçar, desde já, objectivos para a despesa pública nem clarificar as principais áreas onde a respectiva redução irá ser concretizada.

– Não apresentar uma estratégia geral para o financiamento do Estado.

– Não ter explicitado no programa uma aposta forte e clara numa sã concorrência, abertura e flexibilidade dos vários mercados, incluindo o laboral.

– Não explicar quais vão ser os factores diferenciadores do enquadramento em que vamos apostar para atrair mais investimento de maior qualidade.

– Não ter apresentado uma listagem das principais medidas a tomar nos primeiros cem dias.

Será importante que, a curto prazo, O Governo venha a dar resposta a estas e outras questões, de modo a transmitir à sociedade uma maior confiança na sua capacidade de prosseguir uma acção verdadeiramente reformista e estruturante, alterando significativamente a forma como o País funciona.
De facto, o País precisa de mudanças e alterações profundas, para atingirmos os objectivos últimos da nosa sociedade: aumento de qualidade de vida de todos os Portugueses, em particular ods mais desfavorecidos e a maximização das possibilidades de realização e felicidade pessoal de cada um.

Excerto do artigo Objectivos e Reformas do Governo, publicado na edição deste trimestre.
Os sublinhados nos dois textos anteriores são meus.

Pois bem:

Pese embora o sentimento generalizado de que os sinais de confiança transmitidos por quem nos desgoverna se traduzam em medidas do género:
– para pequenos remédios, como a contenção da despesa pública, o Estado tem grandes males, como a OTA e o TGV;
– para grandes desígnios como o défice, nos são pedidos pequenos esforços como o aumento dos impostos;

Continuo a acreditar que um dia destes eles vão acordar e perceber que o verdadeiro papel do Estado deverá passar pela promoção de serviços de qualidade nas áreas da educação, da saúde, da justiça;
Estado que acredite na sociedade civil e promova efectivamente o progresso económico, um sistema fiscal competitivo, enfim.. generalidades que – ainda que discretamente, levem as pessoas e as empresas a dar o seu melhor nas actividades que exercem, contribuindo assim para o progresso social e bem estar individual.

Lisbon Revisited

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Para bem ver e estimar uma paisagem, é preciso estar fora dela?!
José Rodrigues Miguéis

Há sempre um ângulo possível para fazer bonecos, em Lisboa!
Neste caso, não foi fácil, pois dentro dos Armazéns do Chiado não é permitido utilizar câmaras, vá-se lá saber porquê!
A ideia inicial era fazer uma foto panorâmica; porém, como dava muito nas vistas levantar-me, os registos foram obtidos sentado – enquanto me debatia com uma picanha sofrível e uma caipirinha daquelas que também não fazem história, de forma que tive de colar três fotos para simular o efeito pretendido.
Fica a intenção..

Postal de férias


Posted by Picasa Roman bridge in Tavira, Algarve

Soube há pouco tempo que o rio que divide a cidade das 37 igrejas (um dos meus locais de eleição no Algarve) se chama Séqua até chegar à Ponte Romana, e daí até à foz adopta o nome de Gilão.

Não fôra..


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O ar quente na cara, durante a travessia de barco para chegar à praia..

A água estupidamente morna do Sotavento..

O divinal arroz de marisco da dona Maria do Carmo..

As ostras e as amêijoas da tasca junto à igreja em Cacela Velha..

.. e a Ria Formosa não teria o mesmo encanto..

nem ao pôr-do-sol..

Desculpa, mas já tinha as férias marcadas!

Sabes.. tenho um compromisso inadiável com os ventos dispersos pelo mar do sul!

Prometo que volto..
Um dia destes!

Cárcere



Edvard Munch

Self Portrait – Between Clock and Bed

Um terror já esquecido me atormenta,
Da humanidade inteira a dor me oprime;
Vive ela atrás desta muralha bolorenta,
E uma doce ilusão foi o seu crime!
Hesitas em ir até ela!
Tens medo de voltar a vê-la!
Anda! Teu temor faz que a morte mais se anime!

in FAUSTO, de Johann W. Goethe

Do encantamento da razão cognitiva, estética, ética..

Em artigo da Seara Nova, António Sérgio escreveu:
“Ainda rapazinho de escola, sucedia-me estudar, não me lembro em que livro, a teoria das equações. No final, tive uma espécie de visão de conjunto do todo harmonioso que acabara de ler. Dir-se-ia que tudo se concentrava agora – como se houvesse atravessado uma lente convexa – num foco luminoso que sentia em mim ( sempre vi a ciência e a filosofia na atitude de um artista e de um gourmet ).
Era um sentimento de perfeita música, de beleza clara; era a graça aural de uma luz plena. E isto aflorava precisamente de um simples e pedestre exercício de conceptualizar e julgar.”

Para além do papel de espectadores do mundo, temos a obrigação de utilizar a reflexão crítica enquanto exercício intelectual – função essencial para conciliar a razão e a intuição..
Mesmo que não constitua alívio para o sofrimento da existência, é importante refletir sobre a natureza das coisas, possuam ou não uma ética.

Minimum Maximum

Embora tendo já conhecimento da novidade, foi com algum desapontamento que verifiquei que, deste duplo cd ao vivo, nenhuma das faixas foi retirada do concerto do Coliseu de Lisboa no ano passado.
Anyway, não deixa de ser um acontecimento – até pelos aplausos, que fazem recordar o excitante concerto ao vivo – este Minimum Maximum dos pais da Pop Electrónica, que resume cerca de trinta anos da música dos Kraftwerk.
Por cerca de 21 euros, no sítio do costume!
Fica o alinhamento, bem como os locais dos registos:

Disc 1
01. The Man-Machine (Warsaw)
02. Planet Of Visions (Ljubljana)
03. Tour De France Etape 1 (Riga)
04. Chrono (Riga)
05. Tour De France Etape 2 (Riga)
06. Vitamin (Moscow)
07. Tour De France (Paris)
08. Autobahn (Berlin)
09. The Model (London)
10. Neon Lights (London)

Disc 2
01. Radioactivity (Warsaw)
02. Trans Europe Express (Budapest)
03. Metal On Metal (Budapest)
04. Numbers (San Francisco)
05. Computer World (Moscow)
06. Home Computer (Warsaw)
07. Pocket Calculator (Moscow)
08. Dentaku (Tokyo)
09. The Robots (Moscow)
10. Elektro Kardiogramm (Tallinn)
11. Aero Dynamik (Riga)
12. Music Non Stop (Moscow)

Glorious Day


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Gonna make my move
Gonna make it stay
Gonna make it last
Nevermind the past
Living for today..

Le Petit Prince – Antoine de Saint-Exupery

Chapitre XV

La sixième planète était une planète dix fois plus vaste. Elle était habitée par un vieux Monsieur qui écrivait d’énormes livres.

– Tiens! Voilà un explorateur! S’écria-t-il, quand il aperçut le petit prince.
Le petit prince s’assit sur la table et souffla un peu. Il avait déjà tant voyagé!
– D’où viens-tu? Lui dit le vieux Monsieur.
– Quel est ce gros livre? Dit le petit prince. Que faites-vous ici?
– Je suis géographe – Dit le vieux Monsieur.
– Qu’est-ce un géographe?
– C’est un savant qui connaît où se trouvent les mers, les fleuves, les villes, les montagnes et les déserts.
– Ca c’est intéressant – dit le petit prince. Ca c’est enfin un véritable métier! Et il jeta un coupd’oeil autour de lui sur la planète du géographe. Il n’avait jamais vu encore une planète aussi majestueuse.

– Elle est bien belle, votre planète. Est-ce qu’il y a des océans?
– Je ne puis pas le savoir – dit le géographe.
– Ah! (Le petit prince était déçu.) Et des montagnes?
– Je ne puis pas le savoir – dit le géographe.
– Et des villes et des fleuves et des déserts?
– Je ne puis pas le savoir non plus – dit le géographe.
– Mais vous êtes géographe!
– C’est exact – dit le géographe, mais je ne suis pas explorateur. Je manque absolument d’explorateurs. Ce n’est pas le géographe qui va faire le compte des villes, des fleuves, des montagnes, des mers et des océans. La géographie est trop important pour flâner. Il ne quitte passon bureau. Mais il reçoit les explorateurs. Il les interroge, et il prend note leurs souvenirs. Et si les souvenirs de l’un d’entre eux lui paraissent intéressants, le géographe fait une enquète sur la moralité de l’explorateur.
– Pourquoi ça?
– Parce qu’un explorateur qui mentait entraînerait des catastrophes dans les livres de géographie. Et aussi un explorateur qui boirait trop.
– Pourquoi ça? fit le petit prince.
– Parce que les ivrognes voient double. Alors le géographe noterait deux montagnes, là où il n’yen a qu’un seule.
– Je connais quelqu’un, dit le petit prince, qui serait mauvais explorateur.
– C’est possible. Donc, quand la moralité de l’explorateur paraît bonne, on fait une enquète sur sa découverte.
– On va voir?
– Non. C’est trop compliqué. Mais on exige qu’il en rapporte de grosses pierres.
Le géographe soudain s’émut.
– Mais toi, tu viens de loin! Tu es explorateur! Tu vas me décrire ta planète!

Et le géographe, ayant ouvert son régistre, tailla son crayon. On note d’abord au crayon les récits des explorateurs. On attend, pour noter à l’encre, que l’explorateur ait fourni des preuves.

– Alors? interroge a le géographe.
– Oh! chez moi, dit le petit prince, ce n’est pas très intéressant, c’est tout petit. J’ai trois volcans. Deux volcans en activité, et un volcan éteint. Mais on ne sait jamais.
– On ne sait jamais, dit le géographe.
– J’ai aussi une fleur.
– Nous ne notons pas les fleurs, dit le géographe.
– Pourquoi ça! C’est pas joli!
– Parce que les fleurs sont éphémères.
– Qu’est ce que signifie: “éphémère”?
– Les géographies, dit le géographe, sont les livres les plus précieux de tous les livres. Elles ne se démodent jamais. Il est rare qu’une montagne change de place. Il est très rare qu’un océan se vide de son eau. Nous écrivons des choses éternelles.
– Mais les volcans éteints peuvent se réveiller, interrompit le petit prince. Qu’est -ce que signifie “éphémère”?
– Que les volcans soient éteints ou soient éveillés, ça revient au même pour nous autres, dit le géographe. Ce qui compte pour nous, c’est la montagne. Elle ne change pas.
– Mais qu’est-ce que signifie “éphémère”? Répéta le petit prince qui, de sa vie, n’avait renoncé à une question, une fois qu’il l’avait posée.
– Ça signifie “qui est menacé de disparition prochaine”.
– Ma fleur est menacée de disparition prochaine?
– Bien sûr!

– Ma fleur est éphémère – se dit le petit prince, et elle n’a que quatre épines pour se défendre contrele monde! Et je l’ai laissée toute seule chez moi!

Ce fut là son premier mouvement de regret. Mais il reprit courage:
– Que me conseillez-vous d’aller visiter? Demanda-t-il.
– La planète Terre, lui répondit le géographe. Elle a une bonne réputation…

Et le petit prince s’en fut, songeant à sa fleur.