Arquivo de 5 de Novembro, 2004

Labirintos



Posted by Hello

Aprender com a natureza a descobrir a individualidade, independentemente das mutações nela operadas, é um exercício que pode conduzir à perda da própria consciência.

Mas o que é a realidade?

XXVIII – Li hoje

Li hoje quase duas páginas

Do livro dum poeta místico,

E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,

E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem

E dizem que as pedras têm alma

E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas flores, se sentissem, não eram flores,

Eram gente;

E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;

E se os rios tivessem êxtases ao luar,

Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios

Para falar dos sentimentos deles.

Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,

É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.

Graças a Deus que as pedras são só pedras,

E que os rios não são senão rios,

E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos

E fico contente,

Porque sei que compreendo a Natureza por fora

E não a compreendo por dentro

Porque a Natureza não tem dentro;

Senão não era a Natureza.

Alberto Caeiro – O guardador de rebanhos

in poesias escolhidas por Eugénio de Andrade

Luis Figo

10 de Junho de 1995.

Após a vitória do Sporting na Final da Taça frente ao Marítimo por 2-0, Portugal vestiu-se de verde e branco.

A festa prolongou-se pela noite dentro.

A dada altura, apareceu nas Docas de Alcântara com alguns amigos.. o Luis Figo!

Por entre abraços de parabéns, o motivo principal dos copos tinha a ver com um momento especial na vida do Luis: o último jogo pelo Sporting e o início da sua aventura no estrangeiro, logo num colosso do futebol europeu, o FC Barcelona!

Tive somente ocasião de trocar um sorriso e desejar-lhe felicidades!

Esse dia, recordo-o frequentemente, desde então! Quando vejo o Luis com a camisola da Selecção Nacional – que não deve voltar a vestir, ou pelos clubes que representou em Espanha, primeiro o Barça e agora o Madrid!

Hoje, no 32º aniversário do Luis Figo, o jornal A Bola publica uma extensa entrevista, da qual aqui ficam alguns registos.

Gravada na Embaixada Portuguesa em Madrid, onde, depois de quase uma década a viver em Espanha, Luis nunca tinha entrado. É curioso!

É esta a minha homenagem ao Luis, um dos símbolos nacionais de que nos devemos orgulhar!

Parabéns, Luis!





A um mês do futuro!

Luís Figo completa hoje 32 anos de idade. É um símbolo ímpar de português de sucesso. Em toda a parte do mundo o nome de Portugal se confunde com o de Figo e há uma juventude imensa e intensa por todos os cantos da Terra que o idolatra. Casado com Helen Svedin, uma bonita modelo de nacionalidade sueca, pai de duas filhas (a terceira deverá chegar no início de Dezembro), Daniela e Martina, chegou a Barcelona há 10 anos. «O nível competitivo do futebol em Espanha e o estilo de vida deste país ajudaram a moldar o meu carácter» — confessaria, uma vez, numa das suas muitas e sempre coerentes entrevistas.

Aos 32 anos, com um riquíssimo e muito invejável palmarés desportivo, Luís Figo sabe que está no limiar de um ponto decisivo de mudança. Anunciou um interregno, que será, certamente, definitivo, da Selecção Nacional, onde atingiu, com Fernando Couto, o recorde de internacionalizações (110 !), e acaba de ouvir da boca dos responsáveis do Real Madrid a intenção de não renovar o contrato, que termina no final da época de 2005/06 (dentro de ano e meio). Luís Figo prepara-se, assim, serenamente, para decidir dos últimos anos da sua fantástica carreira e do seu futuro, para lá do futebol.



Recordar Valdano

Madrid. A cidade intensa, num trânsito nervoso. Arrefece, neste Inverno que já se anuncia. À porta de um conhecido restaurante, no Paseo de La Castellana, Luís Figo, fato Armani da sua predilecção, mantém um sorriso aberto na distribuição infindável de autógrafos aos jovens que o reconhecem e o rodeiam. Há uma intimidade juvenil e irreverente nos miúdos espanhóis. Tratam-no por Luís e por tu, numa informalidade que aproxima.

Não será assim por muitos mais anos e Luís Figo parece sentir prazer neste estatuto de herói vivo de tanta gente. É cedo para abordar a nostalgia mas vale a pena lembrar Valdano quando disse: «A partir dos 30 anos o fim pode chegar a qualquer momento e cada um compensa como pode a dor de não jogar.»

— Luís, como vai ser esta ponta final anunciada de uma carreira tão brilhante?

— Não sei como vai ser mas admito que se tivesse 25 anos não me importaria com isso o que me importo agora. Tenho mais um ano e seis meses de contrato e tenho 32 anos. Sei que está a chegar o momento de tomar decisões.

Primeira opção é ficar em Madrid

— Sair do Real Madrid é certo…

— Durante o mês de Dezembro falarei com o Real Madrid para saber o que realmente pensa e explicarei, igualmente, a minha posição.

— Qual é a sua posição?

— Tenho a minha posição muito clara na minha cabeça mas a prioridade é a de saber, quanto antes, o que o Real Madrid deseja de mim. Não posso decidir, apenas, por aquilo que quero, ou desejo. Tenho uma família e tenho de pensar e decidir em função dela.

— Que vai dizer aos responsáveis do Real? Que quer, finalmente, ir para Inglaterra?

— Serão eles a saber primeiro mas serei franco e honesto, como sempre fui. O meu contrato termina em 2006 mas terei, nessa altura, 33 anos. Serão manifestamente diferentes as oportunidades e o tipo de contrato que poderei fazer no final desta época ou o que poderei fazer dentro de mais um ano e meio…

— E se o Real Madrid admitisse prolongar-lhe o contrato por mais um ano, até 2007, isso agradava-lhe?

— É apenas uma suposição. É verdade que o clube tem procedido assim com muitos outros jogadores mas a mim ainda não me disse nada. Se acontecesse, claro que me agradava, porque a primeira opção é ficarem Madrid. Se o clube não pensar assim, pois que me dê oportunidade para decidir o melhor possível do meu futuro.

A força das mulheres

— Às vezes, pensando de si para si, não sente que, depois de tudo o que fez no Real Madrid e depois de ter sido o primeiro símbolo do sucesso da era galáctica, o clube foi um tanto ou quanto cruel para consigo?

— Sinceramente, nunca foi do meu género fazer juízos sobre as decisões de outros . Cada um tem as suas razões para decidir como acha que deve decidir para um melhor futuro…

— Futuro que, cada vez menos, deverá passar pelo famigerado regresso ao Sporting?

— Nunca escondi que gostaria de regressar ao Sporting, onde me sinto particularmente acarinhado, mas a vida não me tem dado essa oportunidade e também os sportinguistas sabem que nunca regressaria, sem estar nas melhores condições, só para terminar a carreira. Não seria honesto com quem tantas provas me tem dado de carinho e admiração. No entanto, nunca se sabe o que pode acontecer no futuro. Um dia, mesmo que seja depois de terminar a minha carreira de futebolista, desejarei regressar a Portugal e, de repente, o Sporting até poderá estar no caminho. É imprevisível.

— Pelo menos ficamos a saber que pensa voltar a viver em Portugal…

— Pensar, penso. É, naturalmente, o meu desejo, mas não tenho a certeza de que será assim. Eu e a minha mulher vivemos em Espanha há 10 anos, temos cá os nossos amigos, a nossa vida, e as nossas filhas sempre viveram neste país. Sei que desejo regressar mas não quero nem posso ser egoísta. A seu tempo tudo se decidirá e, não se esqueça, as mulheres mandam sempre muito…



Ao meu país nunca direi nunca mais!

Não há sinais de arrependimento da decisão tomada quanto à pausa na Selecção Nacional. Nem, tão-pouco, sinais de nostalgia. Luís Figo não quer, porém, reconhecer que fica por aqui. Deixa uma margem mínima que o separa da impossibilidade de algum dia voltar mas todo o discurso nos leva a concluir que não voltará.

No entanto, se o pressionamos e lhe pedimos que assuma, em definitivo, esse adeus anunciado, recusa dizer que acabou e deixa uma justificação que, em boa verdade, nos desarma: «Sabe, eu amo o meu país e por isso ao meu país e à minha família nunca serei capaz de dizer não, nunca serei capaz de dizer nunca mais.»

Percebe-se que tem tudo a ver com questões de princípio. Figo sabe que só voltará se lhe pedirem para voltar e se sentir que isso faz sentido. Tanto ele como nós sabemos que estamos a falar de algo muito improvável.

— Quando vê jogar a Selecção não sente que a sua decisão foi prematura?

— Acho, sinceramente, que foi uma boa decisão e tomada na altura certa. Uma decisão natural, depois do desgaste de muitos e muitos anos e mantendo-me eu, aos 32 anos, num nível de exigência muito elevado no Real Madrid. Tenho aproveitado o tempo de paragem para os jogos das selecções para descansar e para estar mais perto da minha família.

— Viu os dois últimos jogos, com o Liechtenstein e com a Rússia?

— Vi só o jogo com a Rússia e gostei do que vi. Foi um jogo raro em que fizemos golo sempre que atirámos à baliza.

— Em compensação, aquele empate…

— Há sempre um dia mau. Na Selecção nem sequer é estranho. É da tradição fazermos grandes resultados contra grandes equipas e resultados menos bons contra pequenas equipas.

— Quando estava a ver o jogo com a Rússia não lhe apeteceu estar lá dentro?

— Acho que é da minha personalidade. Quando tomo uma decisão nunca a lamento. Por isso a resposta à pergunta é não, não lamento. O que não implica que sempre que jogue a Selecção Nacional não continue a identificar-me com a equipa.

— Diz que foram muitos anos de desgaste. Foi, portanto, uma questão de cansaço…

— Diria, antes, de saturação.

— Saturação de jogar?

— Não, saturação de ser sempre responsabilizado por tudo o que de mau acontecia nos piores momentos. Era sempre visto como um género de cabeça-de-turco. A partir de certa altura comecei a achar que não valia a pena tanto sacrifício, tanta dedicação. Não fazia sentido.

— Aquele episódio na Suécia, em que deu a cara numa reivindicação de toda a equipa, foi decisivo?

— Foi apenas um caso. Fiz o que fiz em nome da equipa e não em nome individual; mas confesso que há coisas que me revoltam imenso…

— A questão das promessas por cumprir…

— Não podes dar a tua palavra e não cumprir com o que prometes. Poucas coisas me revoltam mais que isso…

— Mas essa tal saturação não dava, ao menos, para mais um jogo e para bater o recorde de internacionalizações? Assim ficou com os mesmos jogos que Fernando Couto…

— Nunca joguei na Selecção para andar a bater recordes de internacionalizações, ou de golos, ou do que quer que seja, e muito menos em competição com os meus melhores amigos. A minha relação com o Fernando é de irmão.

— E a sua relação com Scolari?

— É uma óptima relação.

— Falou com ele quando decidiu esta pausa na Selecção?

— Claro que falei com ele. Tenho respeito e admiração pelo mister. Como treinador e também como pessoa.

— E tem esperança nesta Selecção?

— Portugal está no bom caminho. Tem um treinador fantástico e tem um grupo de jogadores jovens de grande qualidade.

— Já conhecia Scolari?

— Não o conhecia mas fiquei muito bem impressionado. Cultiva boas relações com os jogadores, é frontal, como eu, tem espírito ganhador e sabe dar muito valor à força da coesão do grupo de trabalho.

— Quando o Rui Costa anunciou também o adeus à Selecção foi para si uma surpresa ou sabia o que se ia passar?

— Não foi surpresa, não. Eu e o Rui somos grandes amigos, de há muito tempo, e a verdade é que tínhamos falado bastante sobre este assunto. Eu sabia já que ele ia abandonar e sabia que, tal como eu, ele também se sentia desgastado.

— Vejamos se entendemos claro. Tanto no seu caso como no de Rui Costa pode dizer-se que este abandono tem muito a ver com o facto de se sentirem algo injustiçados ou incompreendidos pelo esforço e pelos sacrifícios feitos em prol da Selecção Nacional?

— Não diria incompreensão ou injustiça mas é verdade que sempre que surgiam situações menos agradáveis na Selecção as responsabilidades eram imputadas a três ou quatro jogadores mais velhos. Acontece uma, duas, três, quatro vezes, o desgaste vai-se acumulando, mas não se pode dizer que essa tivesse sido a razão fundamental. Mesmo assim, chega um momento em que pesamos se vale a pena o sacrifício.

— Falou de um grupo jovem, de qualidade, que vos sucede. Acha que lhes conseguiram transmitir algo de especial?

— O melhor que lhes transmitimos foi a importância para a Selecção do espírito de grupo. Por isso todos eles, sem excepção, foram sempre muito bem recebidos pelos mais velhos.

— Mesmo no caso de Deco, apesar da naturalização…

— O Deco foi muito bem recebido, como todos, e se disser o contrário mente.



Não perdi uma final, perdi toda uma carreira

É possível que os portugueses jamais esqueçam a final do Europeu. Mas uns não deixarão de sofrer mais que outros sempre que o cabeceamento de Charisteas, colocando a bola no fundo da baliza de Portugal, lhes aflore o pensamento.

Figo, por razões óbvias, é um dos que se mostram incapazes de disfarçar a tristeza, a desilusão, por a vitória no Europeu ter sido desviada para a Grécia. Uma perda que, confessa, para si é irreparável.

A final do Europeu que os portugueses desejavam ter festejado em apoteose mas que acabou por ter gregos a comemorá-la talvez tenha sido o tema que Figo mostrou mais dificuldade em abordar. Percebe-se porquê.

— Porque um profissional de futebol reage aos bons e maus momentos como qualquer outro ser humano, como é que se sentiu depois de ter acabado a final?

— O que é que eu senti?… Senti que tinha perdido um momento único, uma oportunidade que não se vai repetir.

— A de Portugal estar outra vez na final de um Europeu? É que este foi em casa…

— Portugal pode chegar a outra final de um Europeu ou de um Mundial, quando digo que se tratou de uma oportunidade que não se vai repetir estou a dizê-lo em termos pessoais.Em90 minutos não perdi uma final, perdi toda uma carreira que fiz na Selecção principal do meu país. Lutei durante mais de uma década para poder orgulhar-me de ter ganho um Europeu ou um Mundial e vou acabar a minha carreira sem ter atingido esse objectivo tão importante para mim.



Europeu em crescendo

— Sofreu uma grande decepção?

— Igual à de todos os portugueses. Tivemos, ao longo de todo o Europeu, um país inteiro a apoiar-nos, a incentivar-nos, mesmo nos momentos mais complicados para a Selecção Nacional, sempre a empurrar-nos para a vitória, sempre a confiar em nós, portanto, quando atingimos a final, naturalmente que nem um único português admitia que o nome de Portugal não passasse a constar da lista dos vencedores do Europeu.

— Quando é que o grupo de trabalho sentiu pela primeira vez que podia chegar à final?

— Portugal realizou um Europeu em crescendo, no que à condição física diz respeito, e isso foi muito importante para nós. Depois do jogo com a Espanha, um jogo vital para as nossas aspirações, tivemos consciência de que podíamos chegar longe, até ganhar a final. Seguiram-se os jogos a eliminar, ou seja, aí, caso falhássemos, já não podíamos recuperar, mas com um país inteiro a apoiar-nos também tínhamos consciência de que muito dificilmente não chegaríamos à final.

— Portugal a jogar em casa, um país mobilizado no apoio à sua Selecção, não acha que outra ocasião assim dificilmente voltará a acontecer?

— Ter todos os factores reunidos a nossa favor… não, acho que Portugal não volta a ter uma oportunidade destas. O que não quer dizer, repito, que não possa chegar à final de um Europeu ou de um Mundial organizado noutro país.

Jogar para ganhar

— Agora que já passou um tempo significativo sobre esse jogo, pode dizer quais foram as razões que proporcionaram a vitória da Grécia?

— Não conseguimos ganhar, só isso.

— Portugal perdeu com a Grécia no jogo de abertura, meses antes, em jogo de preparação, já tinham empatado, depois viu-se como os gregos eliminaram a França e a República Checa e não se encontrou uma estratégia para a derrotar…

— Portugal não podia entrar no jogo como a Grécia o fez, que foi para não perder. Era mesmo o que faltava a Selecção Nacional entrar numa final de um Europeu organizado por Portugal com uma táctica defensiva, para não perder, repito, Portugal só podia jogar para ganhar, já chegava a Grécia com o seu sistema defensivo na esperança de um golo lhe cair do céu. O que é que poderia ter acontecido se as duas selecções tivessem optado por jogar para não perder? Portugal jogar à defesa, nessa final? Impensável!

— Mas tornou-se funesta a forma como Portugal jogou, sabendo que a Grécia não dava mais que aquilo…

— Sabíamos que era fundamental para nós marcar primeiro, o que podia significar para as nossas aspirações estarmos em vantagem no marcador, mas, infelizmente para nós, isso não aconteceu, felicidade para eles, que conseguiram um golo num lance de bola parada. É futebol…

Dívida por pagar

— Quando sofreram o golo sentiram que o jogo estava arrumado?

— Volto a dizer: pela forma como a Grécia estava a jogar tínhamos perfeita consciência de que era importantíssimo para nós marcar primeiro, como também não desconhecíamos, bem pelo contrário, que, se fosse ela a fazê-lo, tudo ficaria mais complicado para nós.

— A frustração dos portugueses é ainda maior quando se sabe que a Grécia, em três jogos da fase de apuramento para o Mundial, nem uma vitória tem, até perdeu com a Albânia…

— Uma competição nada tem a ver coma outra. No Europeu a Grécia conseguiu chegar à final, ganhou-a. Queríamos estar no lugar dela, não conseguimos. Foi uma oportunidade única. Mas ninguém lamenta mais que nós, jogadores.

— Essa dívida já não consegue o Figo pagá-la aos portugueses?

— Infelizmente, não.



Servir o Sporting, nunca servir-me dele

O Sporting é tema obrigatório de qualquer entrevista com Figo. Embora se mostre invariavelmente avesso a falar do futuro, reconhece no entanto ser-lhe muito difícil regressar a Alvalade como jogador. Mas, ainda assim, não fecha a porta à possibilidade de voltar à casa que o viu crescer para o futebol para desempenhar outras funções. Uma certeza, porém, deixa expressa: se regressar ao Sporting é para o servir e nunca para se servir dele.

Não sorri facilmente mas a satisfação aparece quase sempre a iluminar-lhe o rosto quando fala do Sporting.

— Começa a desenhar-se mais nitidamente a impossibilidade de regressar ao Sporting como jogador…

— Ninguém conhece o futuro.

— Mas, neste momento, é essa a ideia, porque tem 32 anos de idade, mais ano e meio de contrato com o Real Madrid, e, ao que parece, outro projecto em estudo, o qual não passará por Portugal.

— Colocada a questão dessa maneira…

— Se já não for possível o regresso como jogador, admite fazê-lo para desempenhar outras funções?

— Outras funções?

— Em Julho último, por ocasião do jogo All Stars, Tomás Aires, antigo vice-presidente do clube, afirmou-nos que o Figo podia ser um excelente presidente para o Sporting. É possível?

— Neste momento não.

— E quando terminar a sua carreira de jogador?

— Uma coisa tenho muito clara para mim: só regressarei ao Sporting se for uma mais-valia para o clube, regressarei apenas na condição de o poder servir, nunca para me servir dele. Mas não sei qual vai ser o meu futuro.

— E a sua experiência ao mais alto nível no mundo do futebol certamente seria muito importante para o Sporting. Não tem essa opinião?

— Talvez, talvez…

— Enveredar pela carreira de treinador já disse que nunca, mas quanto a continuar no futebol, desempenhando outras funções, aí não diz o mesmo?

— Não, claro que não. Vejo-me mais como um executivo que propriamente sentado no banco a dirigir uma equipa.

— Portanto, será mais provável o regresso a Alvalade como dirigente que como jogador?

— Se tivermos em atenção como as coisas estão a acontecer e o que tenho intenção de ainda vir a fazer como jogador, se calhar o meu regresso ao Sporting será mais provável noutra função que não naquela que agora desempenho.

— Um dado parece indesmentível: os sportinguistas nunca esconderam o desejo de vê-lo de novo no clube.

— E eu nunca fechei as portas ao meu regresso ao Sporting. Vamos ver o que o futuro nos reserva.


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