Culpa Humana

 


Sarcófagos

 

Para onde vão as aneladas donzelas
que aos ombros levam as repletas ânforas
e têm o firme passo tão ligeiro;
e ao fundo uma aberta de vale
em vão esperando as belas
com a sombra de uma pérgola de vinho
e os seus cachos pendem oscilando.
O sol vai bem alto,
as pressentidas ladeiras
não têm cores: no brando
momento a natureza fulminada
expressa as suas faceiras
criaturas, mãe e não madrasta,
em leveza de formas.
Mundo que dorme ou mundo que se vangloria
de existência imutável, quem o pode dizer?,
homem que passas, dá-lhes tu
o melhor raminho do teu horto.
Depois segue: neste vale
não cabem a escuridão e a luz.
Longe daqui o teu caminho te conduz,
não há asilo para ti, estás por demais morto:
segue o caminhar das tuas estrelas.
E adeus então, aneladas pucelas,
levai aos ombros as repletas ânforas.

 

Gravura de Edvard Munch (1863-1944)
Poema de Eugenio Montale (1896-1981)

 

Postais de Aveiro

Arte Pública – Cowparade

Artista: RAF, Ana Santos, Francisco Mota e Ilda Bizarro
Localização: Av.Roma-Areeiro
Originalmente publicado no Sétima Colina.

Arte Pública – CowParade, Areeiro

Diaphanés
Artista: Catarina Flores, Rita Borges, Marisa Nunes
Localização: Av.Roma-Areeiro
Vaca Preciosa
Artista: RAF, Ana Santos, Francisco Mota e Ilda Bizarro
Localização: Av.Roma-Areeiro
Vacazul
Artista: Sofia Castro
Localização: Av.Roma-Areeiro

A minha Kahlo preferida

O acidente que marcou a sua vida.
A evocação do autocarro em que viajava.

(A)fetos. A lenta agonia na cama de hospital.
A impossibilidade de gerar vida.

As marcas de uma faca na moldura salpicada de cor de sangue;
O crime passional trazido para fora da tela.

A veracidade da inverosimilhança – fragmentos

Ora encontrar essa pequena galante de mãos dadas com tamanho imbecil – fora o mesmo do que a ver tombar morta a meus pés. Ela não deixara de ser um amor – é claro – mas eu é que nunca mais a poderia sequer aproximar. Sujara-a para sempre o homenzinho loiro, engordurara-a. E se eu a beijasse, logo me ocorreria a sua lembrança amanteigada, vir-me-ia um gosto húmido a saliva, a coisas peganhentas e viscosas.
Possuí-la, então, seria o mesmo que banhar-me num mar sujo, de espumas amarelas, onde boiassem palhas, pedaços de cortiça e cascas de melões…
Pois bem: e se as minhas repugnâncias em face do corpo admirável de Marta tivessem a mesma origem? Se esse amante que eu ignorava fosse alguém que me inspirasse um grande nojo? … Podia muito bem ser assim, num pressentimento, tanto mais que – já o confessei –, ao possuí-la, eu tinha a sensação monstruosa de possuir também o corpo masculino desse amante.

Mas a verdade é que, no fundo, eu estava quase certo de que me enganava ainda; de que era homem bem diferente, bem mais complicada a razão das minhas repugnâncias misteriosas. Ou melhor: que mesmo que eu, se o conhecesse, antipatizasse com o seu amante, não seria esse o motivo das minhas náuseas.
Com efeito a sua carne de forma alguma me repugnava numa sensação de enjoo – a sua carne só me repugnava numa sensação de monstruosidade, de desconhecido: eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos epilépticos, dos loucos, dos feiticeiros, dos iluminados, dos reis, dos papas – da gente que o mistério grifou…

In «A Confissão de Lúcio» de Mário de Sá carneiro

A Exposição do ano

O Museu Nacional de Arte Antiga acolhe a Exposição Grandes Mestres da Pintura Europeia: De Fra Angelico a BonnardColecção Rau – 18 de Maio a 17 de Setembro

Como aqui havia referido, inaugura amanhã a consensualmente considerada mais importante Exposição do ano em Portugal.

A visita, para ser perfeita, deve incluir – se possível – um almoço no magnífico jardim do Museu.

Sobre as obras expostas, ver também este, este e este posts.

Morte de São Francisco, de Bartolomeo Carducho



Cada personagem, cuidadosamente pousada no lugar certo, como num presépio.

Os gestos e as expressões dos franciscanos, profundamente humanas, na prece e no sofrimento pela perda, em absoluto contraste com a vida que se extingue.

Os pequenos adereços, a frugalidade ascética destes homens…

Em contemplação

Exposição de Fotografia – Lúmen, de André Gomes: Núcleo I

A força invisível da mão que segura o corpo contorcido de Cristo, descido da cruz.

Um corpo que se abandona, mas que nunca mais deixará de ser habitado, primeiro fóssil luminescente, em seguida luz pura.

Este corpo é já vestígio, memória. Mas é também recomeço. Indício.
Caminho para a luz. Para o que é ígneo.

 

A evocação do fogo que arde sem se ver,
como uma paixão que se derrama numa intensidade luminosa.

Semelhante paixão (ou natureza) está contida na rocha, no sílex, que, raspado, produz faúlhas nos ramos retorcidos da árvore, combustível. 

Será talvez uma oliveira, talvez não.
Se for oliveira, então evoca a luz, a imortalidade, a relação cósmica, a morte e o monte famoso.

No MNAA, até ao próximo Domingo

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Postais de Lisboa

Com a construção do Passeio Público, agora Avenida da Liberdade, o novo centro de Lisboa passa do Rossio para a Rotunda.
Em 1917, dava-se início à construção da estátua de homenagem ao Marquês de Pombal, neste palco de momentos históricos, desde os combates no dia 5 de Outubro de 1910, passando pelo funeral dos liberais Miguel Bombarda e Cândido dos Reis, até à inesquecível noite de 14 de Maio de 2000, em que Iordanov pendurou um cachecol do Sporting no pescoço do Marquês…

Foto da esquerda, 12 de Agosto de 1917 – Início dos trabalhos de construção do Monumento ao Marquês de Pombal
Foto da direita, 11 de Maio de 2006 – Conclusão dos trabalhos de pavimentação da entrada do Túnel das Amoreiras

12 de Agosto de 1917 – Lançamento da primeira pedra do Monumento ao Marquês de Pombal

Dava-se assim continuidade ao programa de expansão de Lisboa para norte e estabelecia-se uma nova centralidade, com as Avenidas Novas a constituirem-se como a Lisboa do século XX.
Ironicamente, no início do século XXI, a construção do Túnel visa descentralizar a simbólica zona do Marquês, eixo central da entrada na cidade.

13 de Maio de 1934 – Duarte Pacheco na Cerimónia da Inauguração do Monumento ao Marquês de Pombal

Foto da esquerda, década de cinquenta:
vista da Avenida Fontes Pereira de Melo com Estátua do Marquês ao fundo, a partir do ainda e sempre fantástico terraço do Hotel Eduardo VII, na esquina com a Avenida António Augusto de Aguiar.
Foto da direita, 13 de maio de 2006: obras do troço do túnel com ligação à Avenida António Augusto de Aguiar.

O milésimo post do Luminescências é dedicado à memória da Semiramis.

Imagens pb retiradas do Arquivo Municipal de Lisboa – clique para ampliar