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Pelo menos uma vez na vida deve ver-se um filme assim!

Leo Carax é um realizador iluminado e, por vezes, chega até nós um pouco da sua luz, através de grandes momentos de cinema.
É o caso do maravilhoso Les amants du Pont-Neuf!

Paris.
Pessoas sem abrigo vivem em pequenas comunidades, perto da ponte mais velha da cidade, Le Pont-Neuf.

Alex perde os sentidos numa rua movimentada e é atropelado.
De volta ao abrigo, tem como que uma visão: Michèle, uma linda mulher que dorme..
Tem um olho tapado, fruto de um processo degenerativo da visão.
Reconhece-a. É uma pintora originária de uma família burguesa, que decidiu viver na rua e dessa forma depurar a sua arte.

Alex ganha dinheiro a fazer teatro e fogo de rua.

Tornam-se amigo e amantes.

Alex tem um violento acto de ciúmes e é preso como desordeiro.
Michèle, entretanto recuperada da visão, vai visitá-lo e promete que se encontrarão na ponte, quando ele for libertado..

A violência da côr do fogo-de-artifício e do arco do violoncelo, provocam uma estranha sensação de abandono à paixão de Alex – numa explosão de luz, perante os nossos sentidos.
A ressaca da emoção é violenta!

Les amants du Pont-Neuf, de Leo Carax – 1991
Juliette Binoche – Michèle Stalens
Denis Lavant – Alex

Nada de equívocos.. este filme não é sobre boxe!

Frankie Dunn é um envelhecido manager de boxe, cuja existência atormentada pela filha ausente o leva todos os dias à igreja.
O seu amigo de longa data Eddie, que perdeu um olho no centésimo nono combate, vive no ginásio e trata da limpeza.
Maggie, uma rapariga de trinta e dois anos, procura um treinador, e crê que Frank é capaz de a ajudar a concretizar o sonho de chegar ao topo.

A narração tranquila e envolvente de Freeman, a elegância e mestria de Eastwood, como realizador, actor e autor da magnífica banda sonora, e “always protect yourself” Swank, fazem de Million Dollar Baby um dos mais belos filmes dos últimos tempos.

Esta comovente história sobre sonhos.. desfeitos.. por realizar..

Merece um grande aplauso no próximo domingo!

RealizadorClint Eastwood
Clint Eastwood – Frank
Hilary Swank – Maggie
Morgan Freeman – Eddie

Ele só queria salvar a Pátria!

No dia das eleições, num gesto de grande patriotismo, o Dr Mário Soares apelou ao voto dos portugueses, e assumiu que estava convencido que o povo daria uma vitória expressiva ao PS.

Com isto arrisca uma multa, entre 50 cêntimos e cinco euros (!), que, com o maior sorriso do mundo- diz que pagará com gosto!

Ao pretender transmitir a ideia que está senil, o Dr Mário Soares sabe que a impunidade de que goza neste país, lhe permite estas leviandades.

Se o ridículo matasse..

A sociedade por quotas declarou falência!

Vem aí a ROSA CHOQUE, S.A.!

Resultados finais

As projecções da RTP-Universidade Católica só acertaram no resultado da CDU!
Que flop!

Sondagem RTP

BE.. 10 A 14 deputados?!
Se a sondagem da RTP se confirmar, começo a ficar preocupado com o futuro..

Sondagem SIC

Estamos todos mais aliviados…
Eu já fui fazer um chichizinho!

Postais de Lisboa

Voltamos ao Chiado, local de paragem obrigatória para tomar uma bica, seja na mítica Brasileira, ou na Bénard com muito mais cachet e melhor serviço, diga-se de passagem!
Uma das recordações desta zona do coração e alma da cidade, são os bons aromas; daí valer a pena falar de um pequeno estabelecimento, que é a Casa de Cafés A Carioca.



Situada entre o Chiado e o Bairro Alto – já na Rua da Misericórdia, frente à igreja dos Italianos, desde há quase 70 anos que tem sabido escolher as melhores origens do chá e do café, refinando a arte de torrar o grão e de misturar os lotes.
Quem passa à porta, dificilmente resiste à tentação de entrar, atraído pelo forte aroma do café, que apela aos sentidos.. não é, filhinha?

Na altura em que foi fundada, em 1936, estava vocacionada a servir chás, cafés e mercearias finas, para alimentar os bons vícios de uma elite aristocrática e burguesa, entretida a acompanhar à distância a guerra civil espanhola.
Era a época da Lisboa romântica e elegante, esta em que A Carioca rivalizava com A Brasileira, onde afluiam políticos, artistas, intelectuais..
Os teatros de S. Carlos, da Trindade e o Grémio Literário alimentavam então as tertúlias, sempre com as livrarias por perto; entre um café ou chá se alimentava o espírito com que se ia comentando a situação política ou as aventuras dos fidalgos.



Hoje de manhã, a caminho da Fnac do Chiado, não resisti a entrar e pedi ao sr Gonçalves que me deixasse tirar uma foto à atracção principal da loja – o velho moinho de café, da marca Hobart, em vermelho garrido, com chaminé de alumínio, junto ao qual os lotes de café são guardados em sacos de sarapilheira.
O processo de moagem faz-se através de dois grandes discos de pedra no seu interior”, explicou-me.
O balcão de madeira, perpendicular à porta de entrada, tem atrás de si um armário com dez caixas em madeira para chá, ornamentadas com figuras chinesas em alto relevo.
Por cima, está uma balança típica, os boiões de rebuçados.. e as minha gomas preferidas!

Na montra, bules e chaleiras alternam com cafeteiras de loiça inglesa, máquinas de balão, etc.
A Carioca comercializa os melhores Robustas de Angola, em especial o Amboím, todos os Robustas da Costa do Marfim e do Uganda; As famosas arábicas de Timor, os melhores lotes da América do Sul – Brasil, Colômbia e Costa Rica.
Todos os produtos são embalados em papel com a marca da casa, registada em 1945.

Morra o Dantas, morra! Pim!

Se os indecisos se abstiverem só mais um bocadinho, conseguem esta coisa extraordinária: ultrapassar a Coligação PPD-PSD/CDS-PP, e assim a Abstenção passa a ser a segunda força viva do nosso país!
Eh pá, vá lá! Indecidam-se!

Após o país entrar em choque, Sua Seneridade oferecerá aos livres abstencionistas um cocktail Absolut Shock-Tech, com sumo de laranjas – dissolvidas pelo próprio, nos jardins do Palácio de Belém!
A bem do regime..

Seguir-se-á um After-Hours, onde a Irmandade dos Vermelhitas – ao som de Vangelis, assistirá ao gesto simbólico de ver frei Paulo e frei Santana depositar o acordo pré-nupcial na Torre do Tombo!

E depois, quando acordarmos, avistaremos o Novo Mundo!
Ao longe!
Pim-pam-pum!

pp: os quadros foram retirados daqui!

Lisboa e o Tejo.. e tudo!


Posted by Hello Clique na imagem para ampliar

Nada me prende a nada.
Quero cincoenta coisas ao mesmo tempo.
Anceio com uma angustia de fome de carne
O que não sei que seja –
Definidamente pelo indefinido…
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessarias.
Correram cortinas por dentro de todas as hypotheses que eu poderia ver da rua.
Não ha na travessa achada o numero de porta que me deram.

Accordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exercitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida…

Comprehendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tedio que é até do tedio arroja-me á praia.

Não sei que destino ou futuro compete á minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do Sul impossivel aguardam-me naufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra cousa, nem cousa nenhuma…
E, no fundo do meu espirito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos ultimos da alma, onde memóro sem causa
(E o passado é uma nevoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longinquas
Onde supuz o meu ser,
Fogem desmantelados, ultimos restos
Da ilusão final,
Os meus exercitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cohortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infancia pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligadas por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fóra de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo –,
Transeunte inutil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruido dos ratos e das tabuas que rangem
No castello maldito de ter que viver…

Outra vez te revejo.
Sombra que passa atravez de sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho magico em que me revia identico,
E em cada fragmento fatidico vejo só um bocado de mim –
Um bocado de ti e de mim!…

Álvaro de Campos
Lisbon Revisited (1926)

Não se seguiu o texto publicado em Contemporânea, em Junho de 1926, por excessivamente defeituoso, mas o testemunho dactilografado que lhe parece ter servido de base.

Teresa Rita Lopes, Álvaro de Campos – Livro de Versos (Edição Crítica). Lisboa, Editorial Estampa – 3ª edição, 1997.