A Casa na árvore

Um prego pode dar mel

No Jardim do Príncipe Real cortaram a Árvore da Moda

Por Susana Neves, in Revista Tempo Livre, Inatel | Março de 2010

Enquanto em Paris, a venerável robínia (“Robinia Pseudoacacia L”.) do Cais Saint-Michel, plantada em 1601, sobrevive com o apoio de uma bengala” gigante de betão e no Kew Garden, em Londres, se designa o espécime plantado em 1762 por “Old Lion” (Velho Leão), numa das mais belas colinas de Lisboa, no histórico Jardim do Príncipe Real, concebido em 1861, as obras de “requalificação” camarárias conduziram não à promoção nem ao prolongamento da longevidade das nossas robínias, algumas centenárias, mas à sua morte precoce.

Desastroso e ignorante “restauro” este que manda abater (sem parecer prévio de quem de direito) as robínias antigas, propondo-se de seguida substitui-las por árvores jovens da mesma espécie, quando a sua antiguidade constituía a memória de um tempo em que Portugal se descobria moderno por plantar robínias nos jardins.

De facto, se a “acácia do Jorge” (filho de Camilo Castelo Branco), uma robínia plantada em frente à casa do escritor em S. Miguel de Seide, em 1871, indica a sua existência em Portugal, em 1872, no Jornal de Horticultura Prática, Jules Meil, então director dos Jardins e Passeios Públicos de Sevilha, escreve sobre a introdução de robínias ainda como uma novidade usada para corrigir «o aspecto monótono da vegetação dos nossos jardins públicos e particulares».

Uns anos mais tarde, em 1886, o artigo “Robinia Pseudo-Acacia” de M. de Freitas, publicado no Jornal de Horticultura Prática, parece indicar que o conhecimento do valor ornamental desta “Papilionaceae” ainda não estava consolidado em Portugal. O articulista descreve com minúcia o «effeito encantador» da folhagem e das flores «que derramam ao longe um odor suave», semelhante ao da «flôr da Laranjeira», observado nas robínias plantadas em «bosques», «avenidas» e «jardins públicos» parisienses, para motivar os leitores a seguirem o exemplo.

O seu entusiasmo ultrapassa, no entanto, a beleza, a qualidade melíflua das suas flores, a partir das quais se faz um «xarope para acalmar as convulsões e os vapores», destacando, sobretudo, a rentabilidade de um plantio intensivo.

Na sua perspectiva, a robínia emerge como uma super-árvore, rápida a crescer, resistente à humidade, adaptável a diferentes condições climatéricas, dotada de uma madeira fácil de cortar, «mais pesada do que a do carvalho», não corrompida pelos insectos, passível de ser utilizada na construção de mobiliário, alfaias agrícolas, rodas de dobar, cadeiras, vasilhas para o vinho ou até, seguindo o exemplo dos EUA (esta espécie provinha dos Montes Apalaches), na construção naval, «em cavernas, curvas e demais peças importantes», entre as quais, embora não o mencione, se celebrizaram em 1819 os pregos de Filadélfia.

A robínia parece de tal forma rentável que se no início a vê como um «recurso inapreciável para as regiões estéreis e deslocadas» vem depois em delírio defender a sua plantação por todo o lado: «O interesse dos proprietários, despertado pela certeza do lucro, não deve desprezar estas indicações úteis, e torna-se-lhe mister multiplicar por toda a parte esta árvore, hoje a mais preciosa de todas».

O sonho de invadir o País com robínias não parece ter alcançado êxito talvez porque, entretanto, já se dera início à exploração do Eucalipto “Globulus” e o artigo/ propaganda “Cultura das Acacias”, de William C. Tait, publicado na anterior edição do Jornal de Horticultura Prática, sobre o sucesso do cultivo «à escala industrial» das “verdadeiras” acácias, vulgo mimosas, tenha convencido de imediato os que procuravam um investimento com resultados comprovados.

Às árvores colonizadoras esta miragem de lucro fácil serve a vocação expansionista e no caso da robínia, uma verdadeira “Hidra vegetal”, qualquer ataque que se lhe faça atiça mais ainda a vontade de se propagar; lançando raízes a grandes distâncias, tece uma rede subterrânea que ajuda a fixar os solos e a faz rebentar onde menos se espera. De «árvore preciosa» a espécie proibida (Decreto Lei nº 565/99), a robínia foi, no entanto, protegida nos jardins da Capital, onde é menos ameaçadora, retomando-se em 1941, «a prática antiga» de lhe lavar o tronco no Verão para evitar que as poeiras o queimem. Um tratamento de beleza especial que os cuidadosos, e outrora existentes, jardineiros de Lisboa lhe prodigalizavam, desconhecendo, por certo, que a História da “Robinia” estava associada à História da Moda.

Jean Robin, botânico real (em sua homenagem Lineu atribuiu o nome científico à espécie), que plantou pela primeira vez esta árvore no Cais Saint-Michel, em 1601, introduzindo-a na Europa, só abria as portas do seu jardim a poucos eleitos, entre eles, ao desenhador e bordador Pierre Vallet. Os livros realizados por ambos inspiraram as novas tendências vegetalistas da moda na Corte de Marie de Médicis.

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