Enquanto longe divagas

I

Enquanto longe divagas

E através de um mar desconhecido esqueces a palavra

– Enquanto vais à deriva das correntes

E fugitivo perseguido por inomeadas formas

A ti próprio te buscas devagar

– Enquanto percorres os labirintos da viagem

E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombas

– Enquanto tacteias e duvidas e te espantas

E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida

Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras

E as vozes da casa te invocam e te seguem

Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar

E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado

– Enquanto naufragas e te afundas e te esvais

E na praia que é teu leito como criança dormes

E devagar devagar a teu corpo regressas

Como jovem toiro espantado de se reconhecer

E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos

E devagar recuperas tua mão teu gesto

E teu amor das coisas sílaba por sílaba

II

O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono

É como ave no ar veloz detida

Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso

III

Pois no ar estremece tua alegria

– Tua jovem riqueza de arbusto –

A luz espera teu perfil teu gesto

Teu ímpeto tua fuga e desafio

Tua inteligência tua argúcia teu riso

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso

Sophia de Mello Breyner Andresen

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