Archive for the ‘ Pablo Picasso ’ Category

Do amante

Ai, a carne é fraca, não tem discussão

E eu, que enfraqueci mulher de amigo

Evito o meu quarto, dormir não consigo

Vejo-me à noite: atento a qualquer som!

E isso advém de o seu quarto afinal

Ser contíguo ao meu.

O que me consome

É que eu ouço tudo, quando ele a come

E se não ouço, penso:

é pior o mal!

Se já tarde os três bebemos um copito

E eu noto que o meu amigo não fuma

E, quando a mira, põe olhos em bico

Encho o copo dela a deitar por fora

E obrigo-a a beber, se não colabora,

P’ra ela à noite não dar por nenhuma.

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

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ambiguidade da beleza na adolescência

Le Garçon à la Pipe

Pablo Picasso – Paris, 1905

Do Prazer dos Homens Casados

Mulheres minhas, infiéis, adoro amá-las:

Vêem meu olho em sua pelve embutido

E têm de encobrir o ventre já enchido

(Como dá gozo assim observá-las).

Na boca ainda o sabor do outro homem

Ela é forçada a dar-me tesão viva

Com essa boca a rir para mim lasciva

Outro caralho ainda no frio abdómen!

Enquanto a contemplo, quieto e alheio

Do prato do seu gozo comendo os restos

Esgana no peito o sexo, com seus gestos.

Ao escrever os versos, ainda eu estava cheio!

(O gozo ia eu pagar de forma extrema

Se as amantes lessem este poema.)

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

Cada dia sem gozo não foi teu

Foi só durares nele. Quanto vivas

Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:

Basta o reflexo do sol ido na água

De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas

Seu prazer posto, nenhum dia nega

A natural ventura!

Ricardo Reis

Cada dia sem gozo não foi teu

Foi só durares nele. Quanto vivas

Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:

Basta o reflexo do sol ido na água

De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas

Seu prazer posto, nenhum dia nega

A natural ventura!

Ricardo Reis

as pequenas palavras

De todas as palavras escolhi água

porque lágrima, chuva, porque mar

porque saliva, bátega, nascente

porque rio, porque sede, porque fonte.

De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor

porque terra, papoila, cor, semente

porque rosa, recado, porque pele

porque pétala, pólen, porque vento.

De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz

porque cantiga, riso, porque amor

porque partilha, boca, porque nós

porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus

de todas as palavras escohi dor.

Rosa Lobato de Faria

Hábitos de Amar

Não é exacto que o prazer só perdura.

Muita vez vivido, cresce ainda mais.

Repetir as mil versões prévias, iguais

É aquilo que a nossa atracção segura:

O frémito do teu traseiro há muito

A pedi-las!

Oh, a tua carne é ardil!

E a segunda é, que traz venturas mil,

Que a tua voz presa exija o desfruto!

Esse abrir de joelhos!

Esse deixar-se coitar!

E o tremer, que à minha carne sinal solta

Que saciada a ânsia, logo te volta!

Esse serpear lasso!

As mãos a buscar- me.

Tua a sorrir!

Ai, vezes que se faça:

Não fossem já tantas, não tinha tanta graça!

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso

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