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Onde Nascem Os Sonhos

A estrela



Eu caminhei na noite

Entre silêncio e frio

Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram

Da minha estrela julguei que eu a julgara

Verdadeira sendo ela só reflexo

De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa

Sinal de perfeição em minha fronte

Mas vi quando no vento me humilhava

Que a coroa que eu levava era de um ferro

Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei

«Minha pureza me cerca e me rodeia»

Porém meu pensamento apodreceu

E a pureza das coisas cintilava

E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito

Em monstruosa voz se transformaram

Disse às pedras do monte que falassem

Mas elas como pedras se calaram

Sozinha me vi delirante e perdida

E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra

De desmedidos gestos me cercava

Silêncio e medo

Nos confins desolados caminhavam

Então eu vi chegar ao meu encontro

Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: «Vem connosco

Se também vens seguindo aquela estrela»

Então soube que a estrela que eu seguia

Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram

Grandes brumas miragens nos mostraram

Grandes silêncios de ecos vagabundos

Em direcções distantes nos chamaram

E a sombra dos três homens sobre a terra

Ao lado dos meus passos caminhava

E eu espantada vi que aquela estrela

Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima

de uma rua sem cor e sem beleza

Onde a luz tinha a cor que tem a cinza

Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava

Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão

Entre o agiota e o templo profanado

Onde a rua é mais triste e mais sozinha

E onde tudo parece abandonado

Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: «Quanto deserto

Atravessei para encontrar aquilo

Que morava entre os homens e tão perto»



Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (1962)

Bloggers & Associados

Estamos no Natal, altura do ano em que o ritual da troca de prendas se confunde com os rituais religiosos!

Na impossibilidade de concretização do primeiro, uma vez que o segundo tem para mim valor meramente simbólico..

A todos os companheiros de viagem que têm tido a generosidade e simpatia de enriquecer o Luminescências, desejo aquilo que de bom quero para mim!

No Natal, não almejo uma rosa

nem desejo neve sobre a alegria de Maio.

Apraz-me em cada estação o que lhe pertence.




William Shakespeare

Se me esqueço de alguém nesta short list, desculpem qualquer coisinha!


Bairro Alto

Faz esta semana vinte anos que deixei o Bairro Alto.

Desde então, tenho assistido à progressiva recuperação deste bairro tão especial, cuja história se inicia no século XVI.

Foi talvez o primeiro onde as regras da arquitetura foram aplicadas de forma sistemática, numa lógica de uma cidade planeada, com ruas paralelas e, principalmente, perpendiculares ao rio, de modo a que os seus habitantes pudessem ter sol durante grande parte do dia..

É interessante ver durante a manhã o modo como as ruas estreitas aguardam calmamente que os raios de sol vão iluminando as varandas cheias de flores e roupa branca.



Posted by Hello

Quando deixei o Bairro Alto, ainda havia “meninas” na zona próxima do Jardim S Pedro de Alcântara, as tascas tinham como clientes os residentes na zona e o estacionamento era um caos – sempre pensei que se um dia houvesse um incêndio, o bairro transformar-se-ia numa gigantesca tocha, pois é óbvio que nenhum carro de bombeiros conseguiria entrar..

Com o desfiar dos anos, fui assistindo à vinda de novos habitantes. O Frágil trouxe novas caras, e essas caras novos hábitos (como os graffiti nas paredes dos prédios)

Hoje, o bairro conta com mais de duas centenas de restaurantes, as tascas tornaram-se espaços in, albergam miúdos que comem sardinhas no pão e bebem garrafas de litro de cerveja.

As mercearias como a que havia no r/c do meu prédio deram lugar a lojas de roupa, de ténis, de material de bodyboard, de piercings, e por aí adiante.



Posted by Hello

No prédio em frente havia um alfarrabista.

Mais tarde instalou-se lá o mítico El Dorado.. e hoje é uma loja de roupa infantil.

É curioso olhar para a mescla de culturas existentes hoje em dia no Bairro Alto.. e verificar como um dos bairros históricos de Lisboa não perdeu a sua identidade…

E está muito mais bonito!

perspectivas e realidades.. do menino com olhos de gigante!

Aconteceu-me

Eu vinha de comprar fósforos
e uns olhos de mulher feita
olhos de menos idade que a sua
não deixavam acender-me o cigarro.
Eu era eureka para aqueles olhos.
Entre mim e ela passava gente como se não passasse
e ela não podia ficar parada
nem eu vê-la sumir-se.
Retive a sua silhueta
para não perder-me daqueles olhos que me levavam espetado
E eu tenho visto olhos !
Mas nenhuns que me vissem
nenhuns para quem eu fosse um achado existir
para quem eu lhes acertasse lá na sua ideia
olhos como agulhas de despertar
como íman de atrair-me vivo
olhos para mim!
Quando havia mais luz
a luz tornava-me quase real o seu corpo
e apagavam-se-me os seus olhos
o mistério suspenso por um cabelo
pelo hábito deste real injusto
tinha de pôr mais distância entre ela e mim
para acender outra vez aqueles olhos
que talvez não fossem como eu os vi
e ainda que o não fossem, que importa?
Vi o mistério!
Obrigado a ti mulher que não conheço.

Almada Negreiros

Receita de Natal

Especialmente dedicada às meninas:


In Memorian

Morreu a Diva!



Renata Tebaldi (1922-2004)

L’amore!.. cantado pela Diva!

La mamma morta, na voz de Maria Callas, é daquelas interpretações em que não é necessário gostar de ópera para nos emocionarmos.

Recordo a interpretação de Tom Hanks em Filadélfia, quando traduz para o seu advogado, Denzel Washington, o amor expresso naquelas palavras.

De ficar sem fôlego!

Andrea Chenier, de Umberto Giordano



Acto III



A Sala de tribunal do Tribunal Revolucionário, 24 de julho de 1794.

Mathieu tenta junto da multidão angariar doações para a causa. As pessoas não respondem até que aparece Gérard, o criado. Ele chama as pessoas para darem o que podem, até mesmo os filhos. Uma mulher cega aparece com um menino jovem. Diz-lhe que este é seu o neto e tudo o que tem no mundo. Implora para que Gérard o leve.

A multidão dispersa e chega L’Incredibile, o espião. Diz a Gérard que Chenier, o poeta, havia sido detido e que em breve também a jovem e nobre Maddalena terá o mesmo destino.

Apesar da indignação que sente pelas cínicas palavras que acaba de ouvir, Gérard obedece e denuncia Andrea para salvar Maddalena, que vem procurar o poeta, seu amado.

A amizade que o une a Andrea vale menos que o amor que nutre pela donnina innamorata.

Maddalena diz que morrerá a gritar o seu Amor nas ruas. Se o preço da vida de Chenier implica que o seu corpo seja de Gérard.. que assim seja.

Maddalena
conta como a sua família desapareceu num incêndio e como ficou só; fala sobre a morte de sua mãe e como trás a desgraça a todos os que a amam..

Porto sventura a chi bene mi vuole!

Grita que aquele Amor é vida. Um anjo chegou para a proteger, mas o beijo que recebeu era o beijo da morte.

Corpo di moribonda è il corpo mio!

Prendilo, dunque!… Io son già morta cosa!…

Maddalena oferece o seu corpo moribundo a Gérard.

La mamma morta (canta Maria Callas) – clique para ouvir



Maddalena:



La mamma morta

m’hanno alla porta

de là della stanza mia;

moriva e mi salvava!…

poscia – a notte alta – io con la Bersi errava,

quando, ad un tratto, un livido bagliore

guizza e rischiara innanzi a’ passi miei

la cupa via!

Guardo!… Bruciava il loco di mia culla!

Così fui sola!… E intorno il nulla!

Fame e miseria!…

Il bisogno e il periglio!…

Caddi malata!…

E Bersi, buona e pura,

(ed a narrarlo mancan le parole)


di sua belezza ha fatto un mercato,

un contratto per me!

Porto sventura

a chi bene mi vuole!

(Ad un tratto, nelle pupille larghe di Maddalena si effonde una luce di suprema gioja, una gran luce profonda come riflesso di splendore misterioso.)

Fu in quel dolore

che a me venne l’amore!…

(Maddalena rimane in silenzio meditabonda – un dolcissimo sorriso sulle labbra)

Voce gentile piena d’armonia

che mi sussurra: “Spera!”


e dice: Vivi ancora! Io son la vita!

Ne’ miei occhi è il tuo cielo!

Tu non sei sola! Le lacrime tue

io le raccolgo!… Io sto sul mio cammino

e ti sorreggo il fianco

affaticato e stanco!…

Sorridi e spera ancora!… Son l’amore!

Intorno è sangue e fango?… Io son divino!…

Io sono il paradiso!… Io son l’oblio!

Io sono il dio

che sovra il mondo scende da l’empireo,

muta gli umani in angioli,

fa della terra il ciel!…

Io son l’amore!

Io son l’amore!

L’amore!




(Ed essa pure, come già Gérard, rimane per un momento silenziosa, affannata da quel ricordo tumultuoso. – E poi con voce piena di immensa tristezza balbetta:)

L’angiol tremante allor le labbra smorte

della mia bocca bacia… E or vi bacia la morte!…

(un desolato singhiozzo la costringe ad interrompere, poscia affannosamente riprende:)

Corpo di moribonda è il corpo mio!

Prendilo, dunque!… Io son già morta cosa!…

L’amore!.. cantado pela Diva!

La mamma morta, na voz de Maria Callas, é daquelas interpretações em que não é necessário gostar de ópera para nos emocionarmos.

Recordo a interpretação de Tom Hanks em Filadélfia, quando traduz para o seu advogado, Denzel Washington, o amor expresso naquelas palavras.

De ficar sem fôlego!

Andrea Chenier, de Umberto Giordano



Acto III



A Sala de tribunal do Tribunal Revolucionário, 24 de julho de 1794.

Mathieu tenta junto da multidão angariar doações para a causa. As pessoas não respondem até que aparece Gérard, o criado. Ele chama as pessoas para darem o que podem, até mesmo os filhos. Uma mulher cega aparece com um menino jovem. Diz-lhe que este é seu o neto e tudo o que tem no mundo. Implora para que Gérard o leve.

A multidão dispersa e chega L’Incredibile, o espião. Diz a Gérard que Chenier, o poeta, havia sido detido e que em breve também a jovem e nobre Maddalena terá o mesmo destino.

Apesar da indignação que sente pelas cínicas palavras que acaba de ouvir, Gérard obedece e denuncia Andrea para salvar Maddalena, que vem procurar o poeta, seu amado.

A amizade que o une a Andrea vale menos que o amor que nutre pela donnina innamorata.

Maddalena diz que morrerá a gritar o seu Amor nas ruas. Se o preço da vida de Chenier implica que o seu corpo seja de Gérard.. que assim seja.

Maddalena
conta como a sua família desapareceu num incêndio e como ficou só; fala sobre a morte de sua mãe e como trás a desgraça a todos os que a amam..

Porto sventura a chi bene mi vuole!

Grita que aquele Amor é vida. Um anjo chegou para a proteger, mas o beijo que recebeu era o beijo da morte.

Corpo di moribonda è il corpo mio!

Prendilo, dunque!… Io son già morta cosa!…

Maddalena oferece o seu corpo moribundo a Gérard.

La mamma morta (canta Maria Callas) – clique para ouvir



Maddalena:



La mamma morta

m’hanno alla porta

de là della stanza mia;

moriva e mi salvava!…

poscia – a notte alta – io con la Bersi errava,

quando, ad un tratto, un livido bagliore

guizza e rischiara innanzi a’ passi miei

la cupa via!

Guardo!… Bruciava il loco di mia culla!

Così fui sola!… E intorno il nulla!

Fame e miseria!…

Il bisogno e il periglio!…

Caddi malata!…

E Bersi, buona e pura,

(ed a narrarlo mancan le parole)


di sua belezza ha fatto un mercato,

un contratto per me!

Porto sventura

a chi bene mi vuole!

(Ad un tratto, nelle pupille larghe di Maddalena si effonde una luce di suprema gioja, una gran luce profonda come riflesso di splendore misterioso.)

Fu in quel dolore

che a me venne l’amore!…

(Maddalena rimane in silenzio meditabonda – un dolcissimo sorriso sulle labbra)

Voce gentile piena d’armonia

che mi sussurra: “Spera!”


e dice: Vivi ancora! Io son la vita!

Ne’ miei occhi è il tuo cielo!

Tu non sei sola! Le lacrime tue

io le raccolgo!… Io sto sul mio cammino

e ti sorreggo il fianco

affaticato e stanco!…

Sorridi e spera ancora!… Son l’amore!

Intorno è sangue e fango?… Io son divino!…

Io sono il paradiso!… Io son l’oblio!

Io sono il dio

che sovra il mondo scende da l’empireo,

muta gli umani in angioli,

fa della terra il ciel!…

Io son l’amore!

Io son l’amore!

L’amore!




(Ed essa pure, come già Gérard, rimane per un momento silenziosa, affannata da quel ricordo tumultuoso. – E poi con voce piena di immensa tristezza balbetta:)

L’angiol tremante allor le labbra smorte

della mia bocca bacia… E or vi bacia la morte!…

(un desolato singhiozzo la costringe ad interrompere, poscia affannosamente riprende:)

Corpo di moribonda è il corpo mio!

Prendilo, dunque!… Io son già morta cosa!…

À descoberta da Turquia.. (falta muito?!)

Caso as reuniões bilaterais conducentes ao início do processo de adesão da Turquia à União Europeia se eternizem – visto Ankara não querer abrir mão da recusa em reconhecer os cipriotas, o período previsto para o processo estar concluído pode transformar-se num gigantesco flop.

O presidente francês bem vai avisando:

Je suis convaincu que l’Union européenne et la Turquie parviendront à un mariage à l’issue des négociations, mais la route sera longue et difficile.

Je suis tout à fait certain de la force des idées que porte l’Europe..

Je ne mets pas en doute le fait que compte tenu des dispositions actuelles des Turcs, de leur histoire, de leur culture, nous arriverons au terme de ce chemin commun à un mariage qui sera favorable aux deux parties..

Tout le monde admet que ce processus durera probablement dix ou quinze ans.

Se este cenário se complicar, nessa altura, a chamada Reconciliação de Civilizações e as trocas culturais que imagino.. não deverão passar de uma miragem..!

Temos pena!

Soneto dum coito mediano

Os princípios morais ligados ao simbolismo da sexualidade são apenas uma questão de reflexo condicionado, fruto das regras e valores que ditam as diferenças culturais entre indivíduos do mesmo grupo.
A sua partilha deve tender para os tornar naturais, deixando assim, na minha perspectiva, de ser relevante a questão moral. Resta pois a questão estética e o seu simbolismo.
Identificar os traços que permitem definir uma obra como arte fazem parte de um processo cognitivo, com o qual aprendo a caracterizar a natureza simbólica de uma obra, se tem ou não valor estético.
Este caminho é solitário e mais difícil, pois consiste no desafio de saber justificar o meu juízo de valor sobre se um texto ou uma imagem são ou não obscenos, são ou não arte.
Vamos lá, então:

Scène bacchique au Minotaure, 1933

Até poder ter-te onde já canta
Espero que sejas a última jogada
E um pouco mais húmida que a outra, amada
(Ai, ainda é a esperança que na cova nos planta!)
Vejo que vai dar. Espero: devagar
Pensar nisso é doravante sina
Boa: menos amor, menos vaselina
E ela dá-me agora o coiro a suar
Com um cavalo, ai, foste conferir-me
Há cinco minutos, estou-me a cagar!
E enquanto cismo, para digerir e vir-me
Não sou o Emílio, que estás a chamar
Estou-me nas tintas, da mais alta gama
Com suor do rosto me faço a cama

Poema de Bertolt Brecht, gravura de Pablo Picasso