Na senda de Afonso Henriques, Isabel encontrou um país sem destino

in Fugas, 10 de Novembro de 2012 | Ana Henriques (texto) e Helena Colaço Salazar (fotos)
Selecção do texto e sublinhados meus
Isabel Pessôa-Lopes, 46 anos, é astrofísica e actualmente vive em Londres. Saiu de Guimarães a 5 de Outubro, dia do seu aniversário, e chegou a Lisboa a 25
Durante três semanas, Isabel Pessôa-Lopes percorreu Portugal de castelo em castelo. Saiu de Guimarães, berço da nacionalidade, e só parou em Lisboa, no castelo de São Jorge. Sempre a pé, dormiu em quartéis de bombeiros, apanhou alguns sustos mas o que mais lhe custou foi encontrar um país deprimido e alguns monumentos degradados.
Isabel Pessôa-Lopes percorreu a pé e sozinha centenas de quilómetros por estradas e caminhos, de castelo em castelo. Do berço da nacionalidade, de onde partiu a 5 de Outubro, dia do seu aniversário, rumou à Foz do Douro, onde Afonso Henriques pediu apoio aos representantes dos cruzados para expulsar os mouros. Sempre na peugada do fundador do território portucalense, passou pelo mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no qual o rei jaz sepultado, pelas fortalezas de Soure, Pombal, Leiria, Óbidos, Alfeizerão, Santarém…
À medida que avançava sempre a pé por montes e vales na senda da reconquista, mapas do Instituto Geográfico do Exército e GPS a guiarem-lhe os passos, interrogava-se uma e outra vez: “Onde estão os homens deste país? Como deixámos Portugal chegar a este estado depois de Afonso Henriques ter batalhado uma vida inteira para o criar?”
A morar há mais de 20 anos fora do país, e neste momento com residência em Londres, a caminheira não se envergonha de dizer que chegou a chorar perante a desgraça em que encontrou a nação onde nasceu. Não é a primeira vez que atravessa o país a pé: no Verão de 2011 deu a volta a Portugal em 80 dias, pelo interior raiano e pela fronteira marítima. Testemunhou até que ponto o Estado se pode esquecer das gentes que tem por missão governar.
“Nesses 80 dias vi miséria, especialmente nas povoações mais remotas. Mas desta vez vi pessoas a passar fome. Gente bem vestida que às 7h, antes de ir trabalhar, vai para a fila de uma instituição de apoio social buscar pão e leite para poder dar o pequeno-almoço aos filhos […] Nunca se viu tantos nos cafés e nos sofás de casa, afazer coisa nenhuma. O povo vive revoltado, mas não se revolta. Estamos entregues a ineptos! […] Chegou a altura de os melhores e os mais capazes se chegarem à frente na condução dos destinos da nação.
Pedir aos cidadãos deste país que corram maratonas depois de lhes terem partido as pernas há décadas é ignorar que eles já se encontram de joelhos”. 
[…]
E se nas aldeias sem um café onde tomar uma bica que Isabel atravessava deparou com demasiada gente entregue ao seu destino, em várias das fortalezas onde esteve foi a incúria que se lhe apresentou à frente dos olhos. “O estado ruinoso do castelo de Vila Nova de Gaia é deplorável”, lamenta. Para chegar ao que resta da fortaleza de Alfeizerão, no concelho de Alcobaça, a astrofísica teve de abrir caminho à catanada, os delgados bastões de caminhada a fingirem de catana. Do monumento reconstruído por Afonso Henriques em meados do século XII para defender esta zona do litoral só chegou até nós um pedaço de muralha, agora escondido na mata. Em Pombal a caminheira encontrou portões cerrados: “Tem uma placa à porta a dizer que está fechado e vi gruas lá dentro”, sinal de obras em curso que, por sinal, já deviam ter terminado há muito tempo. […]
“Quando cheguei a Atouguia da Baleia chovia que se fartava”, recorda. Foi aqui, segundo reza a história, que aportou a frota de cruzados que ajudou o primeiro rei de Portugal a tomar Lisboa. “O que resta do castelo de Atouguia foi vendido a um particular que ali fez turismo rural. Eu nem sabia que se podiam comprar castelos!”
Mas ainda havia que esperar por chegar a Santarém para se espantar mais ainda. À falta de melhor alojamento, pernoitou na antiga Escola de Cavalaria. Não estava à espera de semelhante cenário de degradação: “São 20 hectares de terreno com pavilhões entregues ao vento, num estado de total abandono. Quando o Exército dali saiu foram roubados quilómetros e quilómetros de cabos da instalação eléctrica, e agora ninguém tem dinheiro para recuperar o recinto. É inadmissível”, observa, chamando a atenção para a colecção de enormes painéis de azulejo que ainda subsistem na velha escola, retratando velhas batalhas. […]
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