Sintra – Parque da Pena

Um dos locais de eleição das minhas paixões!

Sinto-me a caminhar sobre um colchão. O solo, forrado por espesso e fofo tapete formado por milhares (milhões?) de folhas secas, amortece cada um dos meus passos. A densa ramagem dos velhos castanheiros e carvalhos que rodeiam o trilho forma uma espécie de túnel, mergulhado numa semiobscuridade apenas entrecortada por alguns raios de sol, em caprichosos padrões de claro-escuro. As brumas em que a serra acordou envolvida já se dissiparam e o dia está agora magnífico, primaveril.

Estou na serra de Sintra, em pleno Parque da Pena, lugar de mistério e sedução, verdadeiro refúgio natural a dois passos da Vila Velha e a menos de uma vintena de quilómetros de Lisboa. Lá fora, bem perto, agita-se o turbilhão urbano, com ruídos estridentes e agressivos, contudo, aqui apenas me são dados ouvir os sons da natureza.

O Parque da Pena é como que um jardim selvagem, onde a cuidada intervenção humana se conjuga de forma harmoniosa e subtil com os já de si admiráveis espaços naturais deste trecho da serra. As paisagens construídas e as múltiplas edificações que se descobrem um pouco por todo o lado, de modo algum afectam, antes reforçam e completam, o encanto do lugar.

Desde o imponente Palácio da Pena, a coroar umas agrestes escarpas, às múltiplas fontes de águas cristalinas, aos bancos rústicos, dispostos sabiamente nos locais mais aprazíveis, às pequenas e elegantes pontes que cruzam regatos sussurrantes, tudo parece disposto em comunhão com a natureza.

O Parque da Pena é o resultado do sonho de um homem, Fernando Saxe Coburgo-Gotha, príncipe austro-húngaro que veio a ser D. Fernando II de Portugal, por casamento com a rainha D. Maria II.

Numa área um pouco superior a duzentos hectares — que inclui os terrenos circundantes do Palácio da Pena, a Tapada do Mouco e o perímetro murado do Castelo dos Mouros — Fernando II, o príncipe artista, reuniu uma tremenda variedade vegetal e paisagística, desde os escarpados rochosos das zonas mais altas, agrestes e varridos pelos ventos, até aos vales abrigados, recobertos de luxuriantes fetos tropicais. Muitas das cerca de duas mil espécies vegetais implantadas no parque vieram das mais diversas partes do mundo, de modo a recriar ambientes exóticos e contrastantes.

Vieram túias e sequóias da América do Norte, araucárias do Brasil, criptomérias do Japão, cedros do Médio Oriente, fetos da Nova Zelândia. A plantação — iniciada em 1840 e que durou várias décadas — foi dirigida pelo próprio príncipe. Todos os espaços foram cuidadosamente arquitectados, a arrumação das manchas de arvoredo meticulosamente estudada, a alternância e contraste do porte da vegetação avisadamente pensado. Percorrer os inúmeros caminhos que serpenteiam através do parque — existem no interior do Parque da Pena cerca de 72 quilómetros de caminhos e veredas — é para mim uma experiência fascinante. Apesar de já aqui ter vindo dezenas de vezes, cada visita reserva-me, invariavelmente, a descoberta de novos motivos de interesse. Coisas simples. O padrão geométrico de um tronco caído, algum recanto em que ainda não tinha reparado, um rochedo de forma singular, o voo fugaz de uma ave, um qualquer pormenor curioso — e quantas vezes efémero — o pulsar da natureza, que se renova ao longo do ano. Em cada estação este ecossistema pujante, meio selvagem meio humanizado, se renova com diferentes roupagens.

Diz-se que Richard Strauss, o compositor e chefe de orquestra alemão, após visitar a Pena exclamou: “Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia, o Egipto, e nunca, nunca vi nada que se comparasse com a Pena. É a coisa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro jardim de Klingsor — e lá no alto está o castelo do Santo Graal.” Perante tal cenário, não posso deixar de lhe dar razão.

Na Primavera são as flores, de todas as cores, das vulgares violetas às mais exóticas, trazidas de outras paragens, os rododendros, as azáleas. Pica-paus tamboreiam ruidosamente a madeira, marcando o seu território, trepadeiras, pardacentas e de bico longo e recurvado, fazem os seus números acrobáticos correndo para cima e para baixo agarradas à casca rugosa das árvores, enquanto vão debicando à procura de alimento, gaios de plumagens vistosas parecem relâmpagos de azul, voando de tronco em tronco.

Depois o Verão. O Verão no Parque da Pena traz-me reminiscências de uma catedral. Como num templo gótico, sob o denso manto das copas altas, apenas se filtra uma luz difusa e ténue, e desfrutamos aqui de uma sensação única de frescura, enquanto o sol no zénite requeima a planície circundante. Os troncos esguios evocam majestosas colunas de pedra e as pequenas clareiras, de longe em longe, como que explosões de luz e cor, fazem lembrar vitrais multicoloridos. Aproveitando o calor, surgem os insectos. Borboletas de tons brilhantes esvoaçam na luz, libélulas, de frágeis asas transparentes e enormes olhos facetados, repousam nos galhos esguios, ondulando levemente ao sabor da brisa, e se olharmos com mais atenção, por todo o lado encontraremos uma miríade de outros pequenos seres, vistosos e chamativos ou discretos e miméticos. Com sorte, ainda conseguiremos vislumbrar uma família de coelhos mordiscando a erva tenra.

As primeiras chuvas, anunciando a chegada do Outono, trazem consigo novas e profundas mudanças. É nesta altura do ano que a natureza se pinta com a sua paleta mais feérica, desde as ramagens das árvores até ao chão pejado de folhas secas, formando, por vezes, padrões de rara beleza. Despontam os cogumelos, em grande profusão e com uma variedade extraordinária. Descobrem-se fungos minúsculos, de apenas alguns milímetros de comprimento, e grandes cogumelos com perto de 20 centímetros de diâmetro, acastanhados, vermelhos-vivo, negros, amarelos, brancos, cinzentos, de quase todas as cores imagináveis. As formas são ainda mais diversas e, por vezes, bizarras: filiformes, ao feitio de pétala, lembrando diminutos corais ou pequenas esponjas, pequenos guarda-sol ou globos rugosos que libertam uma nuvem de esporos ao mais leve toque.

Quase imperceptivelmente chega o Inverno. Os regatos correm agora apressados, escondidos por entre a densa vegetação rasteira ou saltitando de pedra em pedra, em turbilhões alvos de espuma. Predominam nesta época os verdes-cinza, apenas abrilhantados pelo fulgir das camélias, em grande número nos vales abrigados.

Grandes aranhas castanhas, com motivos cruciformes no abdómem e aspecto feroz, tecem enormes teias, que resplandecem adornadas por um sem-número de gotículas deixadas pelo orvalho da manhã.

Em alguns locais vêem-se azevinhos de folhas escuras e lustrosas e frutos escarlate.

Texto de Ana Guerra

http://www.parquesdesintra.pt/default.htm

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