Vá lá um tipo ser santo numa freguesia destas!

Em Lisboa, um sacerdote do Seminário da Luz publicou um anúncio, participando a a sua recusa em dar a comunhão aos fiéis que usam contraceptivos, recorrem à reprodução assistida ou aceitam a actual lei sobre o aborto.

O sacerdote justifica a publicação do anúncio com a «impossibilidade de contactar pessoalmente as pessoas envolvidas». Por isso, optou por dar conhecimento público de que «está impedido de dar a sagrada comunhão eucarística a todos aqueles católicos que manifestamente têm perseverado em advogar, contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes».

No futuro, o padre do Seminário da Luz deverá passar a celebrar a eucaristia acompanhado de um magistrado e um médico, ambos credenciados pelo Patriarcado.

Em Vila Nova de Cafeteira vivia um homem que era temido pelos restantes habitantes, principalmente quando bebia; ficava agressivo, embirrava com toda a gente e sempre que passava frente à Igreja, insultava São Sebastião.
O padre, preocupado com o seu rebanho, tentava aconselhá-lo, dizendo-lhe ainda que São Sebastião poderia um dia castigá-lo. O homem não queria saber da conversa do padre.
Um dia, foi encontrado morto em frente à igreja.
Quem teria a audácia, a coragem e a frieza de assassinar um homem tão temido, logo naquele local? Os habitantes concluíram que só São Sebastião poderia ter cometido tal acto.
Em assembleia popular, o Santo foi acusado, julgado e condenado a cinco anos de prisão.
Durante o período de cumprimento da pena, São Sebastião só saía para as procissões, escoltado pelas autoridades. Ao fim de cinco anos voltou para a igreja.

Hoje, São Sebastião é assistente social; anda de porta em porta a distribuir contraceptivos, bem como material informativo, fornecido pela Secção de Planeamento Familiar do Centro de Saúde de Vila Nova de Cafeteira.

livre arbítrio.. ou vontade e desejo?


Henri Toulouse-Lautrec
Alone, 1896
Musee D’Orsay, Paris

Puisqu’il le faut…

Dans le lit plein ton corps se simplifie
Sexe liquide univers de liqueur
Liant des flots qui sont autant de corps
Entiers complets de la nuque aux talons
Grappe sans peau grappe-mère en travail
Grappe servile et luisante de sang
Entre les seins les cuisses et les fesses
Régentant l’ombre et creusant la chaleur
Lèvre étendue à l’horizon du lit
Sans une éponge pour happer la nuit
Et sans sommeil pour imiter la mort.
Frapper la femme monstre de sagesse
Captiver l’homme à force de patience
Doucer la femme pour éteindre l’homme
Tout contrefaire afin de tout réduire
Autant rêver d’être seul et aveugle.
Je n’ai de cœur qu’en mon front douloureux.
L’après-midi nous attendions l’orage
Il éclatait lorsque la nuit tombait
Et les abeilles saccageaient la ruche
Puis de nos mains tremblantes maladroites
Nous allumions par habitude un feu
La nuit tournait autour de sa prunelle
Et nous disions je t’aime pour y voir.
Le temps comblé la langue au tiers parfum
Se retenait au bord de chaque bouche
Comme un mourant au bord de son salut
Jouer jouir n’était plus enlacés
Du sol montait un corps bien terre à terre
L’ordre gagnait et le désir pesait
Branche maîtresse n’aimait plus le vent
Par la faute d’un corps sourd
Par la faute d’un corps mort
D’un corps injuste et dément.

Paul Éluard (1895-1952)

U2 – segundo concerto: afinal há boatos verdadeiros!

É com imenso prazer que anunciamos, para o próximo dia 15 de Agosto de 2005, um segundo concerto da banda irlandesa, no mesmo local. Para evitar eventuais confusões, informamos desde já as condições de venda de bilhetes para o referido evento. Esperamos também que terminem assim, de uma vez por todas, as especulações e acusações de que fomos alvo enquanto entidade promotora do evento.

Serão colocados à venda 49.000 bilhetes, nos seguintes canais de distribuição:
a) ATM’s, vulgarmente apelidados de “Multibanco” – 3 bilhetes.

b) Sócios da União Desportiva Recreativa e Cultural de Santiago do Cacém, com quotas em dia e que já tenham representado a colectividade em provas a contar para um qualquer Campeonato Nacional de uma qualquer modalidade das que se praticam no clube, poderão levantar até ao próximo dia 12 de Maio uma rifa que os habilitará a um sorteio de 6 bilhetes.

c) 3.000 bilhetes na Adega Típica “A Mariquinhas”, ao Bairro Alto, que serão vendidos nos próximos dias 21 dos meses de Abril, Maio e Junho. A venda neste ponto será efectuada mediante o rebatimento de 200 pontos no seu cartão de cliente desta popular casa da noite alfacinha. Relembra ainda a gerência que neste momento decorre uma promoção que consiste no seguinte: Por cada copo de três, a partir da dúzia, os pontos valem a dobrar.

d) Santa Casa da Misericórdia de Vila Real – 3 bilhetes (entrar em contacto com o Padre Américo)

e) restantes bilhetes nos CTT nas seguintes condições:

1 – envio de 2 cartas de 85 gramas para o Hemisfério Sul (em alternativa 1 carta de 250 gramas para os EUA e/ou o Brasil)
2 – comprovativo da aquisição de 1 pack de 6 envelopes almofadados de variados tamanhos;
3 – apresentação de 500 TLP Card (nenhum repetido) e de 20 Credifones;
4 – apresentação de cartão de membro do “Clube de Amigos do Selo e do Postal do Séc XIX” (condições de adesão disponíveis em todas as lojas dos CTT)
5 – apresentação da Caderneta Militar de um familiar directo, que comprove a sua presença no Corpo Expedicionário Português, nas Ardenas, durante a Grande Guerra.
6 – apresentação de um “Postalito” (mascote dos CTT a lançar até ao fim do próximo mês de Março).

Para aceder ao recinto do concerto, não devem esquecer os portadores de bilhete que só serão admitidos, para o interior do mesmo, todos os que se apresentem com uma camisa Ralph Lauren, um sobretudo Burberry’s, uma saca de cimento Cimianto, um chapéu da McDonald’s,
ténis Sanjo, um azulejo da colecção “D.Duarte” da Fábrica Irmãos Alves, óculos escuros Arnette, 2 volumes de cigarros Davidoff, calças de ganga Levi’s e na altura devem apresentar o cartão de pontos da Chicco, para serem rebatidos 80 pontos.

Esperamos que desta forma se evitem mais confusões e que tudo decorra conforme os desejos de todos quantos reclamaram, justamente, mais esta oportunidade.

Muito Obrigado e um bom concerto a todos,
(assinatura ilegível)
Ritmos & Blues

Ele há coisas! Podia dar-me para pior!

Serge Gainsbourg et Jane Birkin, 1978

Ouvi O Je t’aime de manhã na rádio.. e ficou-me a voz da Jane Birkin no ouvido durante todo o santo dia!
Pode ser que funcione como terapia.. do sono..
A noite passada foi longa.. ou curta.. já nem sei! (bocejo)

– Je t’aime je t’aime
Oh oui je t’aime
– Moi non plus
– Oh mon amour
– Comme la vague irrésolue
Je vais, je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais et je viens
Entre tes reins
Et je me retiens

– Je t’aime je t’aime
Oh oui je t’aime
– Moi non plus
– Oh mon amour
Tu es la vague, moi l’île nue
Tu vas, tu vas et tu viens
Entre mes reins
Tu vas et tu viens
Entre mes reins
Et je te rejoins

– Je t’aime je t’aime
Oh oui je t’aime
– Moi non plus
– Oh mon amour
– L’amour physique est sans issue
Je vais je vais et je viens
Entre tes reins
Je vais et je viens
Je me retiens
– Non ! maintenant viens…

Uau! What a Night!


Million Dollar Baby – melhor filme


Clint Eastwood – melhor realizador


Hilary Swank – melhor actriz


Morgan Freeman – melhor actor secundário

do poeta liberal social avançado..

Scène aux quatre personnages, de pablo Picasso

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar…),

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa,
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida –
Não ser juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

Álvaro de Campos

"Terra de sonho de uma artista" – Jane Eyre vista por Paula Rêgo

Este conjunto de litografias de Paula Rêgo inspira-se na obra Jane Eyre, An Autobiography, escrita por Charlotte Brontë, e a sua narrativa revela uma concepção de um feminismo interior violento.

O drama psicológico nas suas gravuras é alimentado, por um lado, pelo grito de revolta das suas paisagens mentais libertadoras e por outro pela realidade social, sombria e lúgubre.


Mr. Rochester
da série Jane Eyre, 2002
Litografia 89,5 x 67 cm


Loving Bewick
da série Jane Eyre, 2002
Litografia 87,5 x 63 cm


Night, 2002
Litografia 73 x 54 cm


Scoolroom
da série Jane Eyre, 2002
Litografia 62,5 x 88 cm

circula por aí que vai haver segundo concerto..

Fnac Chiado

8:00 – inscrição na lista de canditatos ao papelinho mágico. O voluntário explica-me que há cerca de 600 bilhetes, cada pessoa pode adquirir 4 e o meu nº de inscrição é o 320! Ah! Eles esperam receber mais bilhetes. Decido ficar.

9:00 – Saí da fila para comprar o Público e A Bola – vá-se lá saber porquê..

9:30 – Primeira contagem desde que cheguei; quem não responde, é excluido.

10:00 – Começa a subida ao calvário.
Para entreter, fiz um concurso: a quem adivinhasse que música tocava no meu celular, oferecia um cafezinho.
Ensaio: Apocalyptica. Acertou um rapaz que deve gostar de Metallica.
Segue-se a música da banda sonora de Kill Bill… demorou mais tempo, mas um rapaz que tinha vindo de Cascais porque lhe disseram que a loja do Cascais-Shopping não iria ter bilhetes para a relva – só em Lisboa, acertou. Vamos lá tomar um café.
Afinal, em Lisboa também não há bilhetes para a relva!

10:30 – O Benfica não jogou um carapau, diz um benfiquista.. A lagartagem é que deve estar contente. Eu ficava contente era se chegasse a minha vez e ainda houvesse bilhetes!
Mas ontem foi difícil. A equipa já está em Alcochete, a ser recuperada por um psicólogo e duas massagistas tailandesas! Depois de ensurdecerem o Ricardo, atirarem 2 isqueiros do F C Porto, 4 baralhos de cartas e uma foto do Sabry.. deve ser dura, a vida de jogador de futebol!
Porra, que está um frio do catarino!

11:00 – O consumo de cerveja começa a diminuir e começam a aparecer umas sandes e uns sumos. Os mais descrentes começam a abandonar a fila, que não pára de aumentar.
Fluxos migratórios, digo eu!

11:15 – Já só há bilhetes de 81 euros. Nova debandada. Pode ser que venham mais bilhetes. És mesmo troll!

11:45 – Algumas pessoas trocam telefonemas, para cruzar informação com outros pontos de venda. Não estou a gostar do que ouço..
Mas esta malta não tem mais que fazer do que estar numa fila e largar 80 euros para ver os U2?!

12:45 – O último bilhete foi vendido ao senhor com mau aspecto que tinha o nº 194.
O pessoal começa a andar em círculos, como os maluquinhos do nº 53 da Avenida do Brasil..
Retiro-me discretamente, pago quase 9 euros de estacionamento e vou almoçar. Cansado!

Depois de ver em Alvalade Zooropa em 93 e PopMart em 97, para que é que eu ainda quero ver U2? Devo estar taralhoco!

Se houver segundo espectáculo, peço o saco-cama emprestado à minha filha..

Pelo menos uma vez na vida deve ver-se um filme assim!

Leo Carax é um realizador iluminado e, por vezes, chega até nós um pouco da sua luz, através de grandes momentos de cinema.
É o caso do maravilhoso Les amants du Pont-Neuf!

Paris.
Pessoas sem abrigo vivem em pequenas comunidades, perto da ponte mais velha da cidade, Le Pont-Neuf.

Alex perde os sentidos numa rua movimentada e é atropelado.
De volta ao abrigo, tem como que uma visão: Michèle, uma linda mulher que dorme..
Tem um olho tapado, fruto de um processo degenerativo da visão.
Reconhece-a. É uma pintora originária de uma família burguesa, que decidiu viver na rua e dessa forma depurar a sua arte.

Alex ganha dinheiro a fazer teatro e fogo de rua.

Tornam-se amigo e amantes.

Alex tem um violento acto de ciúmes e é preso como desordeiro.
Michèle, entretanto recuperada da visão, vai visitá-lo e promete que se encontrarão na ponte, quando ele for libertado..

A violência da côr do fogo-de-artifício e do arco do violoncelo, provocam uma estranha sensação de abandono à paixão de Alex – numa explosão de luz, perante os nossos sentidos.
A ressaca da emoção é violenta!

Les amants du Pont-Neuf, de Leo Carax – 1991
Juliette Binoche – Michèle Stalens
Denis Lavant – Alex

Nada de equívocos.. este filme não é sobre boxe!

Frankie Dunn é um envelhecido manager de boxe, cuja existência atormentada pela filha ausente o leva todos os dias à igreja.
O seu amigo de longa data Eddie, que perdeu um olho no centésimo nono combate, vive no ginásio e trata da limpeza.
Maggie, uma rapariga de trinta e dois anos, procura um treinador, e crê que Frank é capaz de a ajudar a concretizar o sonho de chegar ao topo.

A narração tranquila e envolvente de Freeman, a elegância e mestria de Eastwood, como realizador, actor e autor da magnífica banda sonora, e “always protect yourself” Swank, fazem de Million Dollar Baby um dos mais belos filmes dos últimos tempos.

Esta comovente história sobre sonhos.. desfeitos.. por realizar..

Merece um grande aplauso no próximo domingo!

RealizadorClint Eastwood
Clint Eastwood – Frank
Hilary Swank – Maggie
Morgan Freeman – Eddie