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Pouco importa… mas é bom!

(…) Portugal não acaba de vencer o Euro, mas que importa agora isso se a delícia se mantém no olhar de cada um de nós.

Portugal não acaba de vencer o Euro mas não importa, o momento é, agora, de suprema alegria.

Que importa que aquele fantástico golo de Rui Costa (logo de Rui Costa!) não tenha conseguido iluminar de vez o caminho vitorioso dos portugueses; (…) que tenha sido obrigado a viver aqueles segundos de desespero quando a sua bola de penalidade saiu por cima da trave de James;

que importa agora ter-nos parecido mal a substituição de Luis Figo ou a infelicidade naquele toque de cabeça de Costinha que isolou Owen para o primeiro golo inglês;

que importa agora saber se Hélder Postiga não marcava um golo à muito tempo, se ele escolheu uma noite sublime para se reencontrar com o seu destino de ponta-de-lança;

que importa agora saber como a estrelinha seguiu, leal, o notável coração da equipa nacional naquele precioso momento, a escassos minutos do final do jogo, em que Sol Campbell atirou de cabeça à trave da baliza de Ricardo.

Parecia o destino a querer escrever no céu as iluminadas palavras do sucesso português.

Portugal não acaba de vencer o Euro, mas acaba de justificar a comunhão deste ideal entre os portugueses e a sua Selecção.

O que se viveu na Luz não é já a força de um enorme coração; é a força de um coração que já não cabe no País(…)

João Bonzinho, in A Bola, hoje

Tratado de Windsor na gaveta..

É curioso como nasceu o Tratado de Windsor, ou «a mais velha Aliança do Mundo»..!

A aliança política entre as duas coroas derivou da Guerra dos Cem Anos.

O motivo próximo foi a ambição partilhada pelo Rei português D. Fernando e pelo Duque de Lancaster – ambos se diziam legítimos pretendentes ao trono de Castela, daí o tratado ser básicamente contra Castela e Aragão.

O papel das tropas inglesas foi importante para dissuadir os castelhanos, embora tenham submetido a população portuguesa às maiores selvajarias, tendo inclusivamente cercado e atacado terras amuralhadas.

Perante os protestos de D. Fernando, os populares decidiram defender-se a eles próprios, infligindo pesadas baixas aos «aliados» britânicos.

Na História mais recente, não necessitámos da ajuda dos amigos ingleses para derrotar os espanhóis, assim como hoje vamos lutar com armas e dentes contra o nosso aliado ancestral..!

Vamos reescrever a História!

Vamos a eles!

Ficções.. ou do sentido da vida!

Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,

Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.

Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,

Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.

Assim tudo o que existe, simplesmente existe.

O resto é uma espécie de sono que temos,

Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

Alberto Caeiro, 1-10-1917

Realidades..

Os dias estão a ficar mais pequenos..!


Contemplas lá no alto a lua errante

Do apogeu, pouco a pouco a aproximar-se

Como alguém que se tivesse perdido

Na vastidão do céu, sem rumo andando

(Il Penseroso)

o sol voltou a brilhar…

Agora, com licença…

Vou para o Marquês de Pombal dar uso ao cachecol e à bandeira..!!!!!!!

Parabéns, Sofia!

Lembro-me, lembro-me

Da casa onde nasci,

Da pequena janela por onde o sol

Vinha espreitar pela manhã;

Nunca chegava um piscar de olhos demasiado cedo,

Nem trazia um dia demasiado longo,

Mas agora muitas vezes desejo que a noite

Me tivesse levado a respiração!

Lembro-me, lembro-me

Das rosas, vermelhas e brancas,

Das violetas e dos lírios,

Daquelas flores feitas de luz!

Dos lilases onde o tordo fazia ninho,

E onde meu irmão plantou

O laburno no dia do seu aniversário,

– A árvore ainda está viva!

Lembro-me, lembro-me

De onde costumava correr

E pensar que o ar devia ser também assim fresco

Nas asas das andorinhas;

O meu espírito, que então voava em penas,

Que está agora tão pesado,

E os lagos do Verão mal podiam refrescar

A febre da minha testa!

Lembro-me, lembro-me

Dos abetos negros e altos;

Costumava pensar que as suas copas esguias

Estavam perto, em comparação com o céu:

Era uma ignorância infantil

Mas agora não é grande alegria

Saber que estou mais longe do céu

Do que quando era menino.

Thomas Hood

duelo ao pôr do sol





Se Portugal ganhar 1-0 e a Grécia perder por 2-0, passamos nós e a Espanha!

O problema é que, para cumprir promessas eleitorais, o primeiro-ministro espanhol quer que todas as forças envolvidas em disputas internacionais regressem ao país até final do mês de Junho!

Poema de Amor de António e de Cleópatra

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen

O pé na bola ou a parábola da juventude para toda a vida

Quando se é jovem a sério, é-se jovem para toda a vida

PICASSO

Na Galilea, zurzido (e também bucólico) cata-vento da ilha de Maiorca, o espectador conheceu uma menina de três anos com cara de viúva. A criaturinha chama-se Gildarda, tal qual uma infanta goda, e tem os olhinhos próximos e pequeninos, o cabelo tristemente frouxo, as pernas curtas, o traseiro cheiinho e circunspecto, a voz de grilo, o gesto solene, a saíta plissada e a camisola cor verde alface. Gildarda, vendo bem, é um nojo de miúda. Gildarda nasceu viúva, tem já três anos de viuvez; se não recebe nem um chavo pela viuvez não é por culpa dela: os seguros sociais estão ainda na etapa do direito administrativo. Gildarda e o espectador, às vezes, brincam às cozinhas com feijões e grãos-de-bico. Gildarda é muito trabalhadeira, anda sempre bem disposta e puxa o lustro aos feijões com a ponta da combinação; então, o espectador (que não há maneira de assentar a cabeça) aproveita para lhe dar um pontapé ou para lhe deitar água nas costas. Gildarda chora, e o espectador, arrebanhando as suas últimas energias, consegue que a consciência lhe remorda um bocadinho, quase nada. Gildarda e o espectador, com as suas brincadeiras, divertem-se bastante.

Há quem nasça velho e quem morra, pasmado pelos anos, galharda ou ternamente jovem, conforme o temperamento e o ofício.No Livro dos Provérbios lê-se que a alegria da juventude é a sua força; há quem nasça tendo já abdicado sem o saber (da mesma forma que os príncipes nascem príncipes) e há quem morra com netos e como sem ter dado importância à briga. Para Cristina da Suécia, tudo o que é fraco é velho e tudo o que é forte, novo. Se calhar um dia descobre-se que o calendário não serve para medir a idade. Gildarda é uma velhinha respeitável (embalsamável) que acaba de nascer. Quando Gildarda chegar, aos seus vinte e cinco anos, à senilidade, o espectador – se Deus se dignar a tal – terá de ser procurado nos campos onde se joga à moeda, às caricas e à bola.

– Chuta, Camilo, que estamos empatados a dezoito!

Gildarda, então, gritando como uma possessa “que horror!”, “que horror!”, correrá para se refugiar na delicada sombra onde vivem, se reproduzem e morrem os misteriosos e cautelosos cogumelos do mais atroz esquecimento. Pior para ela!

Camilo José Cela, Onze Contos de Futebol, Edições Asa, pp. 9-10