“A Verdadeira maneira de tocar instrumentos de teclado”, por Cristiano Holtz

No próximo dia 14 pelas 19h00, a  Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves recebe Cristiano Holtz para a apresentação do seu novo CD “A Verdadeira maneira de tocar instrumentos de teclado” – Integral – de Carl Philipp Emanuel Bach. Registado em clavicórdio e em cravo.
Programa: Peças extraídas de “Dezoito Probe-Stücke em seis sonatas, Berlim 1753” e de “Seis Sonatine Nuove, Hamburgo 1786”

 

300 anos do nascimento de Carl Philipp Emanuel Bach

A emissão do Musica Aeterna dedicada aos hoje assinalados 300 anos do nascimento de Carl Philipp Emanuel Bach pode ser escutada na Antena 2 no próximo domingo 9 de Março, entre as 10h00 e as 12h00.

CLIQUE NA IMAGEM PARA OUVIR O PODCAST
Músico e compositor alemão, segundo filho de Johann Sebastian Bach e Maria Barbara Bach, Carl Philipp Emanuel Bach [8 Março 1714 – 14 Dezembro 1788] ingressou com dez anos na Escola de São Tomé em Leipzig, onde o pai em 1723 se havia tornado cantor. Continuou depois a sua educação como estudante de jurisprudência nas universidades de Leipzig, mas em 1738, depois da sua graduação, passou a dedicar-se definitivamente à música.
Foi um dos compositores mais influentes em sua geração. De 1740 a 1768 esteve em Berlim, a serviço da corte de Frederico, o Grande.
Em 1768, C.Ph.E. Bach sucedeu ao seu padrinho Georg Philipp Telemann como mestre de capela em Hamburgo, e, em consequência do seu novo ofício, passou a dedicar-se com mais atenção à música sacra. A sua obra inclui oratórias, pelo menos três volumes de canções, várias sinfonias e música de câmara. Durante o período que esteve em Berlim escreveu um conjunto de Magnifcat em que aparecem traços da influência de seu pai, uma Cantata de Páscoa e algumas cantatas seculares. Nessa época ele era um dos mais habilidosos e reconhecidos executantes de instrumentos de teclas da Europa. O clavicórdio, o instrumento da sua preferência, sofreu uma breve queda na sua popularidade na Alemanha, em meados do século XVIII, antes de ser de facto suplantado gradualmente pelo pianoforte.
Durante a segunda metade do século XVIII, a reputação de C.Ph.E. Bach permaneceu muito alta. Mozart disse a seu respeito, “Ele é o pai, nós somos os filhos”. A maior parte da formação de Haydn derivou de um estudo da sua obra. Beethoven expressou acerca dele a mais cordial admiração e respeito. Isto deve-se principalmente às suas Sonatas para cravo, que marcam uma época importante na história da forma musical.
Carl Philip Emanuel Bach participou intensamente do movimento musical de seu tempo, contribuindo para a criação de um estilo musical que se foi afastando cada vez mais do Barroco.
Considerado o fundador e precursor do estilo clássico na música erudita, C.Ph.E. Bach morreu em Hamburgo em 14 de dezembro de 1788.
Texto de Luís Ramos

Luís Serrão Pimentel e a ciência em Portugal no século XVII

EXPOSIÇÃO | 28 fevereiro – 30 abril | Sala de Exposições | Entrada livre
Luís Serrão Pimentel, homem de ciência do século XVII, foi resgatado numa exposição
NICOLAU FERREIRA, PÚBLICO DE 1 MARÇO 2014
Cosmógrafo-mor do reino, engenheiro, professor, académico, bibliófilo, vários matizes da ciência portuguesa convergem neste homem pouco estudado.
Uma exposição inaugurada ontem na Biblioteca Nacional, em Lisboa, vem levantar a poeira.

Foto de Oxana Ianin

Uma maquete de Elvas, no piso de cima da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa, põe-nos no reino da construção dos fortes. Se há área que Luís Serrão Pimentel marcou foi a engenharia. Em 1680, um ano após a morte do cosmógrafo-mor, foi publicada a sua grande obra sobre engenharia de fortes, que se tornou numa espécie de “manual” da disciplina para os engenheiros do reino. Mas Luís Serrão Pimentel acabou por ser um importante aglutinador da ciência da época. É graças à sua vertente de bibliófilo, e às suas ligações europeias, que hoje é possível estudar-se o único manuscrito existente do famoso matemático português do século XVI, Pedro Nunes, ou o documento descoberto no ano passado do matemático Francisco de Melo, do início do século XVI. Uma exposição na BNP inaugurada ontem reúne, pela primeira vez, material deste homem vindo de vários acervos.
“Luís Serrão Pimentel foi um praticante de ciência de grande interesse que merece ser conhecido”, resume Henrique Leitão, historiador de ciência da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que falou ao PÚBLICO enquanto eram dados os últimos retoques aos objectos da exposição “Luís Serrão Pimentel e a ciência em Portugal no século XVII”. O historiador comissariou a mostra juntamente com Miguel Soromenho, investigador do Museu Nacional de Arte Antiga.
Na exposição de entrada livre, que estará aberta até 30 de Abril, é possível ver códices e livros daquele período relacionados com esta personagem histórica. A sua vida está dividida em três partes: a formação, o trabalho de engenharia de fortes, propagado pelas aulas de Engenharia que deu e, finalmente, a vertente bibliófila, com livros de astrónomos como Johannes Kepler ou Nicolau Copérnico, que terão feito parte da sua biblioteca.
Nos documentos, é possível observar vários desenhos de fortificações e desenhos geométricos. “A fortificação é esteticamente bonita”, diz Henrique Leitão, apontando para os desenhos. “Não se espera que ninguém venha à exposição ler os manuscritos, mas espera-se que se perceba com que tipo de ferramentas intelectuais é que se trabalhava. E aqui é a matemática – o estudo, a utilização, a prática da matemática, é isto que os manuscritos mostram.”
Luís Serrão Pimentel nasceu a 4 de Fevereiro de 1613 na freguesia de Santa Justa. O cosmógrafo-mor foi filho de Lisboa, mas foi também filho da Aula da Esfera, o curso de Físico-Matemáticas leccionado pelos jesuítas do Colégio de Santo Antão. Esta escola esteve activa em Lisboa durante 170 anos, entre finais do século XVI e meados do século XVIII, e trouxe importantes pedagogos da Europa. Do colégio de Santo Antão saíram formados milhares de alunos.
“Sem Aula da Esfera não havia Serrão Pimentel”, diz Henrique Leitão. O engenheiro receberia ainda ensinamentos do cosmógrafo-mor Valentim de Sá, tornando-se assim num “matemático muito competente” e no “grande professor de engenharia militar portuguesa do século XVII”, explica. A restauração da independência de Portugal, em 1640, teve muita influência na carreira do engenheiro. A guerra que se seguiu obrigou Portugal a construir fortificações ao longo da fronteira, principalmente no Alentejo, onde o terreno plano era um convite à entrada do exército espanhol.
“A grande modificação dos fortes da altura é por causa da artilharia”, conta Henrique Leitão. A partir de 1641, o rei D. João IV manda vir grandes engenheiros militares franceses, holandeses e da Flandres, para assistir na construção, ampliação e restauro dos fortes. É neste ambiente que Luís Serrão Pimentel, também militar, trabalhou. O engenheiro planeou e edificou a praça de Évora e acompanhou obras de fortificação de Vila Viçosa, Monsaraz, Elvas, Campo Maior, Portalegre, entre outros. “Ele é o primeiro que aparece como grande teórico e doutrinador desta disciplina.”
Na mostra isso é notório, além de vários exemplares do livro póstumo, de 1680, Methodo Lusitanico de desenhar as fortificaçoens das praças regulares, & irregulares…, estão expostos aquilo que parecem ser livros de bolso, manuscritos ainda feitos em vida. “Ele preparava versões mais pequenas do manuscrito que deixava as pessoas usar”, revela Henrique Leitão. “A especulação é que [estes códices mais pequenos] eram levados para o campo para quando se iam inspeccionar as fortificações.” Já a edição de 1680 é um livro grande, sobre engenharia militar com uma base forte matemática, “normal nos bons tratados”.
Em 1647, Luís Serrão Pimentel é nomeado cosmógrafo-mor, cargo directamente relacionado com o rei. Como tal, o engenheiro, que também estudou Náutica, tinha de fazer exames a pilotos, a cartógrafos, a construtor de instrumentos. Além de ser professor na Aula de Fortificação, uma classe criada por D. João IV, também deu aulas como cosmógrafo-mor.
“Ele tem uma influência enorme na engenharia portuguesa, não só nos homens que forma, mas os seus textos são a referência para toda a gente”, explica Henrique Leitão, que defende o estudo deste material para perceber a ramificação do impacto que o cosmógrafo-mor teve na ciência portuguesa. Para o historiador, mostrar Luís Serrão Pimentel é mostrar um exemplo para as gerações de hoje: “Não há coisa mais destruidora para um miúdo em Portugal do que ouvir dizer que os portugueses não gostam de ciência, de matemática. Enquanto não mostrarmos que houve história científica portuguesa, a história introduz um elemento perverso [na educação].”

Musica Aeterna – 450 anos sobre o nascimento de Galileu

Emissão do Musica Aeterna, destinado a comemorar os quatrocentos e cinquenta anos do nascimento de Galileu Galilei [15 de Fevereiro de 1564 – 15 de Fevereiro de 2014], físico, matemático e astrónomo de importância fundamental na revolução científica do século XVII, acompanhado de poesia, traduzida por Vasco Graça Moura, de Dante Alighieri extraída da “Divina Comédia”, versando a chegada ao céu da Lua e a teoria das manchas lunares e das influências celestes, e repertório de Giorgio Mainerio, Giulio Caccini, Luca Marenzio, Claudio Merulo, Andrea Gabrieli, Girolamo Frescobaldi, Benedetto Ferrari, Claudio Monteverdi, Emilio de’Cavalieri, Jacopo Peri, Carlo Gesualdo, Gregorio Allegri, Marco da Gagliano, Giovanni Rovetta e Francesco Cavalli, todos contemporâneos de Galileu na Península Itálica dos séculos XVI e XVII.

“Mede o que é mensurável e torna mensurável o que não o é!”

Os 450 anos do nascimento de Galileu Galilei

Clique na imagem para ouvir o programa

Os santos da capela do Museu de Lamego estão a sair dos seus nichos

O Museu de Lamego está a restaurar a Capela de S. João Evangelista, um dos tesouros da arte barroca neste museu que foi construído sobre o antigo paço episcopal da cidade. O trabalho já revelou algumas surpresas, entre as quais desenhos escondidos do edifício original.
Por Sérgio C.Andrade, Público de 10 Fev 2014 | Fotos de Bárbara Raquel Moreira
Santa Clara e S. Miguel, Santa Quitéria e Santo Inácio de Antioquia, Santa Úrsula e S. Lourenço Justiniano, Santa Rosa de Lima e S. Tiago… Não é uma ladainha, nem uma procissão – é o início, apenas, da enumeração das 19 esculturas devocionais que por estes dias podemos admirar, dispostas um pouco ao acaso, sobre uma banca, numa das salas do Museu de Lamego.
A comandar esta espécie de exército da imaginária cristã destaca-se, maior do que os restantes, a escultura de S. João Evangelista. Ele é, afinal, o motivo deste desalojamento temporário das imagens dos seus nichos na capela barroca que lhe é dedicada, e que é uma das três estruturas montadas – e em exposição – no referido museu desde a década de 1930.
Desde Dezembro e, previsivelmente, até à Páscoa, duas salas do edifício estão transformadas num estaleiro para a realização do restauro deste que é um dos tesouros do Museu de Lamego (ver caixa). Há escadas e plataformas, bancas de madeira e barras de metal, berbequins e capacetes, chaves-de-fendas e pincéis, além de um sistema de roldanas e uma máquina parecida com um aspirador, que nos dizem ser “um exaustor de químicos”.
Foi com ela que, depois de retiradas dos nichos, as esculturas foram sujeitas a uma primeira intervenção de limpeza, seguida da fixação e conservação da pintura.

Na exposição que inaugura a 18 de Maio as esculturas retiradas dos nichos poderão ser vistas em todo o seu esplendor, isoladamente
Estas imagens e as pinturas que, no final da semana passada, já tinham sido removidas dos caixotões do tecto, vão ser transportadas para Lisboa para o laboratório da Detalhe, a empresa que ganhou o concurso público para a execução da obra. A parte estrutural da capela será tratada, in-loco, no museu, já que não obriga a tantos cuidados.
“Este trabalho exige técnicos especializados e um cuidado extremo, tanto na desmontagem como no tratamento das peças”, explica Luís Sebastian, director do Museu de Lamego, no decorrer da visita em que guiou e explicou ao PÚBLICO o programa dos trabalhos.
A seu lado, Pedro Martins Santos, que dirige a equipa da Detalhe, diz que esta é uma operação igual a tantas outras que a empresa vem desenvolvendo por todo o país desde que foi fundada em 1998. Mas o trabalho que está agora a fazer em Lamego tem uma particularidade, que é a de poder ser acompanhado pelo público que visita o museu.
“Ainda ontem passou por aqui um grupo escolar, de miúdos pequenos muito curiosos, e que já sabiam o que é uma térmita e o que ela faz à madeira”, conta este técnico de restauro, que vê neste trabalho ao vivo um motivo acrescido de interesse. “Temos que estar preparados para responder.”

A desmontagem de elementos permitiu descobrir pinturas decorativas do antigo paço episcopal
Depois do levantamento das esculturas e da desmontagem do tecto, aquando da visita do PÚBLICO, uma equipa de três técnicos terminava a remoção das paredes da capela. Uma acção que reservaria uma surpresa: por trás da estrutura lateral do retábulo despontaram, naturalmente gastas pelo tempo, pinturas decorativas do antigo paço episcopal, transformado em museu na sequência da implantação da República.
“Quando fazemos este género de intervenções, surgem sempre surpresas, especialmente em edifícios que tiveram várias modelações e várias fases construtivas. Desta vez, foi a descoberta das pinturas”, comentou Luís Sebastian, chamando também a atenção, na parede oposta, para a descoberta de “estruturas em ‘gaiola pombalina’, um sistema de construção inventado e difundido por todo o país após o Terramoto de 1755”. Trata-se de uma quadrícula em madeira, com uma cruz de reforço no meio, preenchida com pedra miúda, tijolo e argamassa, com o objecto de garantir maior consistência e segurança às paredes.
Antigo paço episcopal
O Museu de Lamego foi instalado, no final da primeira década da I República, no antigo Paço Episcopal da cidade. No final dos anos 1920, foi aí depositada grande parte do espólio do antigo Convento das Chagas, desactivado na sequência da lei de extinção das ordens religiosas em 1834, e que entretanto entrou em ruínas (a última freira morreu em 1906).
Entre esse espólio estavam três capelas e um altar-retábulo que foram instalados e musealizados em diferentes salas do edifício, na década de 1930, por decisão da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (a extinta DGEMN). É o caso da Capela de S. João Evangelista e das de S. João Baptista e da Sra. da Penha de França, e ainda do Altar do Desterro. Todos eles foram incrustados e adaptados em salas do edifício existente – no caso da Capela de S. João Baptista, por exemplo, foi mesmo necessário rebaixar o chão para a estrutura caber no espaço.
Luís Sebastian estava convencido de que a instalação do museu tinha feito desaparecer a totalidade do velho paço episcopal, construído no século XVIII – à excepção da capela privada do bispo, com a sua decoração barroca, que se mantém como uma das atracções do museu. Mas a intervenção agora em curso está a mostrar que algumas coisas foram mantidas e aproveitadas, designadamente paredes e decorações.
“Isto é importante para se conhecer a história do edifício, além de que é gratificante podermos recuperar a memória do que foi o paço episcopal”, nota o director do museu. E acrescenta que uma situação como esta levanta sempre questões novas. No imediato, obriga a registar documentalmente, e a estudar e conservar, as pinturas encontradas – o que significa sempre o deslizar dos prazos da intervenção. “Depois, é preciso decidir o que é que vamos privilegiar”, diz Sebastian. Mas acrescenta que, neste caso em particular, “a decisão é pacífica: o retábulo tem que voltar a ser remontado, o que significa voltar a esconder os desenhos”. E ressalva que fica assim “aberta a possibilidade de uma geração futura optar por fazer o contrário”. “Trabalhar mal, seria não deixar esta opção em aberto; a reversibilidade das decisões é essencial neste domínio”, explica ainda o director.

A Capela de São João Baptista é um dos aspectos singulares do Museu de Lamego
Três fases do barroco
As três capelas (e o altar) do Museu de Lamego, para além da beleza e do valor patrimonial de cada um, são expressão da evolução da linguagem do barroco no país. “Esteticamente, temos a sorte de que cada uma das capelas corresponde a um período da produção da talha dourada portuguesa, como a sistematizou o historiador americano Robert Smith.” A afirmação é de Alexandra Braga, historiadora de arte e técnica superior do museu, que nos guiou cronologicamente neste percurso estético. A capela de S. João Baptista documenta um primeiro período do barroco, de estilo maneirista; a de S. João Evangelista é de “uma fase de transição, em estilo híbrido, de passagem do estilo maneirista para o nacional” – nota Alexandra Braga –, sendo a capela de N. Sra. da Penha de França “verdadeiro estilo nacional”, com um barroco “profusamente ornamentado com folhas de videira, parras, cachos, aves”, num regresso aos excessos decorativos do manuelino. O Altar do Desterro já revela características rococó.

Nas capelas do museu pode estudar-se a evolução da talha dourada em Portugal
Para lá da sua relevância estética, o Museu de Lamego é “um caso raro, excepcional mesmo, no país” de uma instituição que instalou integralmente as capelas que recebeu de um anterior convento, diz Anísio Franco, conservador do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).
Se em vários museus do país – como o próprio MNAA – é possível encontrar exemplos de capelas musealizadas, o Museu de Lamego tem a particularidade de ter estes quatro exemplares, que expressam, no seu conjunto, o “conceito de arte total que marcou o barroco”. “Enquanto, por todo o país, muitas dessas capelas foram desmanteladas e vendidas ao desbarato, o que aconteceu em Lamego é exemplar do ponto de vista da salvaguarda do património”, acrescenta Anísio Franco, elogiando também a decisão de se estar agora a restaurar as capelas.
Luís Sebastian diz que o objectivo do museu e da Delegação Regional da Cultura do Norte, que o tutela, é intervir nos outros três retábulos, mas que isso só poderá ser feito quando houver condições financeiras – a actual intervenção está orçada em 25 mil euros, verba que inclui a comparticipação de fundos europeus.
“O ideal seria fazermos um faseamento das intervenções, mas isso seria irrealista no actual estado do país. Temos que ir trabalhando aos poucos, consoante o dinheiro e as oportunidades de financiamento”, acrescenta o director.

Os nichos foram cuidadosamente aspirados
O que está já agendado, e que decorre da intervenção agora em curso na Capela de S. João Evangelista, é aproveitar a circunstância de as imagens terem sido retiradas dos seus nichos para a realização de uma exposição que vai reunir não só estas 19 esculturas em madeira de castanho, mas também todas as que integram os outros retábulos do museu. “Trata-se de retirar as esculturas do seu contexto habitual, em que quase passam despercebidas, e permitir que elas se afirmem na sua individualidade”, diz Sebastian, acrescentando que, ao todo, serão perto de 40 as imagens. A exposição abre no Dia Internacional dos Museus, 18 de Maio, e fecha a 22 de Junho.

Dezoito tesouros nacionais no Museu de Lamego

O Museu de Lamego tem no seu espólio 18 peças que fazem parte da lista dos tesouro nacionais, que agrega o que de melhor as colecções públicas têm para oferecer no que toca ao património móvel. Entre elas há uma arca tumular do século XIV e painéis de azulejos do século XVII, mas os dois conjuntos que merecem uma atenção especial são as pinturas de Grão Vasco e a colecção de tapeçarias flamengas.
De Vasco Fernandes (1475-1542), o nome maior da pintura portuguesa do século XVI, o museu tem cinco obras – Criação dos animais, Anunciação, Visitação, Circuncisão e Apresentação no templo – do políptico de 20 que o bispo de Lamego, D. João de Madureira, encomendou ao pintor viseense para a sé catedral da cidade. As pinturas que restaram da colecção inicial deram entrada no paço episcopal em 1912, tendo depois sido integradas no museu.
Da colecção de tapeçarias flamengas, quatro representam o mito de Édipo e, noutra sala, duas têm por tema O templo de Latona e O julgamento do paraíso. Segundo o Museu de Lamego, estas obras deverão ter sido encomendadas pelo bispo D. Fernando Meneses de Vasconcelos (1513-1540) para a residência episcopal, sendo os cartões que lhes deram origem possivelmente da autoria do pintor flamengo Bernard van Orley e a produção atribuída à oficina de Pieter van Aelst, em Bruxelas.

Pormenor de Visitação, de Grão Vasco

10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte

Por Mário Lopes, in Público de 23 Jan 2014
O álbum de rock progressivo editado em 1978 vai ser interpretado dia 11 de Abril na Aula Magna.
Em 1977, José Cid, então estrela da rádio e televisão com passado de destaque na história da pop portuguesa através da sua carreira com o Quarteto 1111, apareceu na sua editora com uma ideia. Queria gravar um álbum nos antípodas das suas canções que iam então escalando os topes e fazendo o caminho na inscrição na memória colectiva. Um álbum conceptual inspirado no rock progressivo dos Pink Floyd, King Crimson ou dos Genesis, história de redenção pós-apocalíptica contada ao sabor do som do Mellotron, um dos sintetizadores que fez o som da música de então.
10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, assim se intitulou o álbum, gravado com Zé Nabo, na dupla função de baixista e guitarrista, com o guitarrista Mike Sergeant ou o baterista Ramon Galarza, e editado em 1978. À época, vendeu menos de mil exemplares. Passo a passo, porém, foi ganhando lugar de culto na melomania do progressivo (nacional e não só). Passo a passo, tornou-se uma espécie de mito na carreira de Cid – o álbum que gera mais curiosidade, o álbum que seria reeditado em 1994 pela editora especializada Art Sublime, crescendo em reconhecimento até surgir em listas de melhores de sempre na imprensa internacional.
10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte - José Cid
Mais de três décadas depois da edição, 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte vai ganhar nova vida. Em palco. Soubemo-lo quarta-feira, em post publicado no Facebook do cantor. Marque-se então a data: dia 11 de Abril, na Aula Magna, José Cid apresentará não só as canções nele contidas, como Mellotron, o Planeta Fantástico, mas também o anterior, porta de entrada naquela estética musical, Onde Quando Como Porquê (Cantamos Pessoas Vivas), editado em 1975, creditado ainda ao Quarteto 1111 e baseado num texto de José Jorge Letria. Cid aproveitará ainda para revelar algumas das canções que farão parte de Vozes do Além, um prometido novo álbum que recupera o género em que 10.000 Anos Entre Vénus e Marte foi composto.

Rainer Maria Rilke – dar vida à matéria

Torso arcaico de Apolo

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

Rainer Maria Rilke [4 Dez 1875 – 29 Dez 1926] – Tradução de Manuel Bandeira
Piero della Francesca - Resurrection, 1463Piero della Francesca [c.1415-1492] – Resurrection, 1463

 

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 2.656 outros seguidores

%d bloggers like this: