Frans Brüggen [1934-2014]: o maestro que ressuscitou a flauta de bisel

Depois de ter revelado ao mundo como a flauta de bisel podia ser um instrumento fascinante, Brüggen converteu-se num mestre que inspirou gerações de instrumentistas e num dos mais admirados maestros especializados na música do Barroco e do Classicismo.

Por Cristina Fernandes, Público de 15 Agosto 2014

Figura chave na redescoberta da flauta de bisel no século XX e brilhante maestro no âmbito do repertório barroco e clássico, o holandês Frans Brüggen (1934-2014) faz parte da geração de ouro que impôs definitivamente o movimento da música antiga interpretada em instrumentos de época de acordo com as práticas de execução históricas no panorama internacional. No próximo dia 30 de Outubro, Brüggen tencionava celebrar o seu 80.º aniversário com a Orquestra do Século XVIII, agrupamento que fundou em 1981 e que protagonizou muitas das suas inesquecíveis gravações dedicadas a compositores como Bach, Rameau, Haydn, Mozart e Beethoven, mas a morte acabaria por surpreendê-lo esta quarta-feira, em Amesterdão, a sua cidade natal.


Frans Brüggen, recorder. Anner Bylsma, violincello. Gustav Leonhardt, harpsichord. Paint, Still-Life of Books by Jan Davidsz de Heem

Pioneiros como Arnold Dolmetsch ou Wanda Landowska tinham aberto o caminho, mas foi com personalidades como Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt, Anner Bylsma, os irmãos Kuijken ou o próprio Frans Brüggen que a corrente que viria a ser designada como “interpretação historicamente informada” ganhou a partir da década de 1950 os alicerces que a fizeram explodir em múltiplas direcções. Para além dos princípios gerais que implicavam o estudo dos tratados antigos, estilos e práticas interpretativas, assim como dos contextos que deram origem às obras, vários destes músicos tiveram papéis fundamentais na reabilitação de instrumentos que tinham ficado no esquecimento ao longo de quase dois séculos ou que entretanto tinham sofrido modificações. É o caso de Leonhardt no caso do cravo ou de Bylsma no âmbito do violoncelo barroco, ambos amigos e parceiros de Brüggen em interpretações notáveis do repertório barroco. Frans Brüggen foi o primeiro músico a obter um diploma em flauta de bisel no Muzieklyceum de Amesterdão. Foi aluno de Kees Otten, que tinha sido discípulo de Karl Dolmetsch (pioneiro na redescoberta do instrumento no século XX) e especializou-se também nas versões históricas da flauta traversa, domínios que combinou com estudos no campo da musicologia na Universidade de Amesterdão.


Telemann Fantasie (Frans Brüggen on his famous Bressan Treble recorder (1967)

Durante as décadas de 1960  e 1970 acabaria por se converter na primeira estrela internacional da flauta de bisel, um instrumento que antes era visto como limitado e que ainda hoje é por vezes considerado apenas como uma ferramenta didáctica para crianças.

Brüggen não só devolveu a nobreza de estatuto à flauta de bisel como deu a conhecer ao mundo o seu fascinante repertório da Renascença e do Barroco em interpretações marcadas por uma impressionante agilidade e fluência técnica, meticulosas articulações e variedade de ataques e por uma infinidade de nuances expressivas. A preocupação pelo rigor histórico aliava-se ao seu talento artístico, bem como às capacidades pedagógicas e ao lendário entusiasmo que incutia aos seus alunos, com impacto em várias gerações de músicos. Brüggen foi professor no Real Conservatório de Haia, Erasmus Professor na Universidade de Harvard e Regents Professor na Universidade de Berkeley e interessou-se também pela música contemporânea. Chegou a fundar um grupo de vanguarda em 1972 (Sourcream) e encomendou várias obras para flauta, das quais a mais conhecida é Gesti (1966), de Luciano Berio.

A carreira de Brüggen como flautista solista começou a ficar em segundo plano à medida que crescia o seu interesse pela direcção de orquestra, domínio onde atingiu igualmente uma elevada estatura. Um passo decisivo foi a criação da Orquestra do Século XVIII em 1981, um projecto nascido em conjunto com o musicólogo Sieuwert Verster. Formada por membros de 22 países diferentes, rapidamente atingiu grande notoriedade intenacional graças às digressões anuais e ao contrato discográfico com a Philips. Inicialmente o repertório incidia principalmente no Barroco (Purcell, Bach, Rameau), mas rapidamente se estendeu ao Classicismo (Haydn, Mozart) e aos primórdios do Romantismo (Beethoven, Schubert e Mendelssohn). As suas excelentes gravações podem também encontrar-se em etiquetas como a Harmonia Mundi e a Glossa. Juntamente com os registos como solista e músico de câmara formam um legado imponente de mais de cem discos e revelam o característico gosto de Brüggen pelo detalhe e pela transparência, mas também o seu carisma, energia e inteligência musical.

Como maestro convidado, Frans Brüggen dirigiu diversas formações de primeiro nível como Orquestra do Real Concertgebouw, a Orquestra da Idade do Iluminismo (da qual foi maestro convidado principal), a Orquestra de Câmara da Europa, Sinfónica de Birmingham, a Orquestra do Tonhalle de Zurique, e as Filarmónicas de Roterdão, Israel, Oslo, Hamburgo, Viena e Estocolmo, entre outras. Deixou também a sua marca no Coro Gulbenkian, que estabeleceu uma frutuosa colaboração com a Orquestra do Século XVIII na década de 1990, da qual resultaram diversas digressões conjuntas (com actuações na Holanda, Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Holanda, Japão e China) e gravações como a Nona Sinfonia, de Beethoven, e A Criação, de Haydn.

 

Christoph Willibald Gluck – 300 anos do nascimento

CHRISTOPH GLUCK (2 de julho de 1714 – 15 de novembro de 1787)
Compositor alemão nascido na Baviera, Christoph Willibald Gluck exerceu com as suas óperas uma importante influência no seu contemporâneo Wolfgang Amadeus Mozart.
Conheceram-se e encontraram-se várias vezes, mas consta que Gluck nunca deu a Mozart a receita das suas óperas.
O jovem Gluck teve o primeiro contacto com a música na escola que frequentou em Kamnitz.
Em 1732, foi estudar para Praga, mas não é certo se terá frequentado a universidade onde teria cultivado o seu conhecimento das línguas francesa e italiana, mas uma coisa era certa, a música atraiu-o cada vez mais. Em Praga dedicou-se à música instrumental. Foi também um excelente cantor, e muito provavelmente entrou em contacto com a ópera que então se produzia para a aristocracia. Ganhou algum dinheiro tocando órgão em várias igrejas, ao mesmo tempo, deu aulas de canto e violoncelo.
Aos 22 anos, Gluck saiu de Praga e mudou-se para Viena, onde o jovem príncipe Ferdinand Philipp Lobkowitz o contratou como músico de câmara. Continuou os seus estudos musicais e ouviu muita ópera italiana. No ano seguinte, o príncipe Melzi ouviu falar do talento de Gluck e convidou-o a acompanhá-lo a Milão. Foi lá que se tornou músico de câmara do príncipe Melzi, bem como discípulo do compositor italiano Giovanni Battista Sammartini, de quem se tornou um amigo muito próximo.
A primeira ópera de Gluck, “Artaserse”, foi apresentada em Milão, em 1741. O libreto foi produzido por Pietro Metastasio e a obra foi dedicada ao governador de Milão, Conde Traun. A primeira apresentação foi bem recebida pelo público, embora no ensaio tenha sido criticamente julgada.
Em 1745, Gluck, acompanhado do príncipe Lobkowitz, foi para Inglaterra. No caminho, visitaram Paris, onde se familiarizou com a ópera francesa, e conheceu a obra de Rameau.
Gluck viu as suas óperas apresentadas em Londres, entre 1745-46, onde conheceu Handel e a sua música. Ao fim de várias viagens, Gluck instalou-se em Viena em 1752, como Konzertmeister da orquestra do príncipe de Saxe-Hildburghausen, e depois como mestre de capela. Também fez apresentações de óperas cómicas no Teatro da Corte. Em 1759 conseguiu um posto de trabalho assalariado no Teatro da Corte e, logo depois foi-lhe concedida uma pensão real.
Em 1760 conheceu o poeta Ranieri Calzabigi e o coreógrafo Angiolini, e com eles escreveu um bailado, “Don Juan” (1761), que incorpora um novo grau de unidade artística. No ano seguinte, compôs a ópera “Orfeo ed Euridice”, a primeira das suas “óperas de reforma”.
Em 1781 Gluck sofreu um derrame cerebral que o paralisou parcialmente. No ano seguinte, organizou uma apresentação especial de “Die Entführung” de Mozart, que estava ansioso para ouvir. Convidou nessa altura Mozart para jantar, e em 1783, assistiu a um concerto onde Mozart improvisou variações sobre um tema de “La Rencontre imprevue”. Notavelmente, as relações de Gluck, com Mozart eram amigáveis, mas reservadas, já que Gluck foi apadrinhado por Antonio Salieri, adversário natural de Mozart.
Leopold e Wolfgang disseram ter desconfiado de Gluck desde a sua primeira visita a Viena, em 1768, e quando Mozart foi para Paris em 1778, Leopold deu-lhe instruções para evitar Gluck.
Gluck foi amplamente reconhecido como o decano dos compositores vienenses que realizou reformas importantes na ópera. Embora as reformas na ópera não tenham sido exclusivamente suas, vários outros compositores, tais como Jommelli e Traetta, lhe imprimiram uma influência francesa.
Gluck teve como objetivo realizar a abertura relevante para o drama e a orquestração adequada para as palavras, ao quebrar o contraste entre recitativo e ária. A sua importância histórica reside no estabelecimento de um novo equilíbrio entre música e drama, na grandeza, no poder e na clareza com que projetou essa visão.
Christoph Gluck morreu em Viena, no outono de 1787.
Texto de Luís Ramos, Antena 2

“A Verdadeira maneira de tocar instrumentos de teclado”, por Cristiano Holtz

No próximo dia 14 pelas 19h00, a  Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves recebe Cristiano Holtz para a apresentação do seu novo CD “A Verdadeira maneira de tocar instrumentos de teclado” – Integral – de Carl Philipp Emanuel Bach. Registado em clavicórdio e em cravo.
Programa: Peças extraídas de “Dezoito Probe-Stücke em seis sonatas, Berlim 1753” e de “Seis Sonatine Nuove, Hamburgo 1786”

 

300 anos do nascimento de Carl Philipp Emanuel Bach

A emissão do Musica Aeterna dedicada aos hoje assinalados 300 anos do nascimento de Carl Philipp Emanuel Bach pode ser escutada na Antena 2 no próximo domingo 9 de Março, entre as 10h00 e as 12h00.

CLIQUE NA IMAGEM PARA OUVIR O PODCAST
Músico e compositor alemão, segundo filho de Johann Sebastian Bach e Maria Barbara Bach, Carl Philipp Emanuel Bach [8 Março 1714 – 14 Dezembro 1788] ingressou com dez anos na Escola de São Tomé em Leipzig, onde o pai em 1723 se havia tornado cantor. Continuou depois a sua educação como estudante de jurisprudência nas universidades de Leipzig, mas em 1738, depois da sua graduação, passou a dedicar-se definitivamente à música.
Foi um dos compositores mais influentes em sua geração. De 1740 a 1768 esteve em Berlim, a serviço da corte de Frederico, o Grande.
Em 1768, C.Ph.E. Bach sucedeu ao seu padrinho Georg Philipp Telemann como mestre de capela em Hamburgo, e, em consequência do seu novo ofício, passou a dedicar-se com mais atenção à música sacra. A sua obra inclui oratórias, pelo menos três volumes de canções, várias sinfonias e música de câmara. Durante o período que esteve em Berlim escreveu um conjunto de Magnifcat em que aparecem traços da influência de seu pai, uma Cantata de Páscoa e algumas cantatas seculares. Nessa época ele era um dos mais habilidosos e reconhecidos executantes de instrumentos de teclas da Europa. O clavicórdio, o instrumento da sua preferência, sofreu uma breve queda na sua popularidade na Alemanha, em meados do século XVIII, antes de ser de facto suplantado gradualmente pelo pianoforte.
Durante a segunda metade do século XVIII, a reputação de C.Ph.E. Bach permaneceu muito alta. Mozart disse a seu respeito, “Ele é o pai, nós somos os filhos”. A maior parte da formação de Haydn derivou de um estudo da sua obra. Beethoven expressou acerca dele a mais cordial admiração e respeito. Isto deve-se principalmente às suas Sonatas para cravo, que marcam uma época importante na história da forma musical.
Carl Philip Emanuel Bach participou intensamente do movimento musical de seu tempo, contribuindo para a criação de um estilo musical que se foi afastando cada vez mais do Barroco.
Considerado o fundador e precursor do estilo clássico na música erudita, C.Ph.E. Bach morreu em Hamburgo em 14 de dezembro de 1788.
Texto de Luís Ramos

Luís Serrão Pimentel e a ciência em Portugal no século XVII

EXPOSIÇÃO | 28 fevereiro – 30 abril | Sala de Exposições | Entrada livre
Luís Serrão Pimentel, homem de ciência do século XVII, foi resgatado numa exposição
NICOLAU FERREIRA, PÚBLICO DE 1 MARÇO 2014
Cosmógrafo-mor do reino, engenheiro, professor, académico, bibliófilo, vários matizes da ciência portuguesa convergem neste homem pouco estudado.
Uma exposição inaugurada ontem na Biblioteca Nacional, em Lisboa, vem levantar a poeira.

Foto de Oxana Ianin

Uma maquete de Elvas, no piso de cima da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa, põe-nos no reino da construção dos fortes. Se há área que Luís Serrão Pimentel marcou foi a engenharia. Em 1680, um ano após a morte do cosmógrafo-mor, foi publicada a sua grande obra sobre engenharia de fortes, que se tornou numa espécie de “manual” da disciplina para os engenheiros do reino. Mas Luís Serrão Pimentel acabou por ser um importante aglutinador da ciência da época. É graças à sua vertente de bibliófilo, e às suas ligações europeias, que hoje é possível estudar-se o único manuscrito existente do famoso matemático português do século XVI, Pedro Nunes, ou o documento descoberto no ano passado do matemático Francisco de Melo, do início do século XVI. Uma exposição na BNP inaugurada ontem reúne, pela primeira vez, material deste homem vindo de vários acervos.
“Luís Serrão Pimentel foi um praticante de ciência de grande interesse que merece ser conhecido”, resume Henrique Leitão, historiador de ciência da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que falou ao PÚBLICO enquanto eram dados os últimos retoques aos objectos da exposição “Luís Serrão Pimentel e a ciência em Portugal no século XVII”. O historiador comissariou a mostra juntamente com Miguel Soromenho, investigador do Museu Nacional de Arte Antiga.
Na exposição de entrada livre, que estará aberta até 30 de Abril, é possível ver códices e livros daquele período relacionados com esta personagem histórica. A sua vida está dividida em três partes: a formação, o trabalho de engenharia de fortes, propagado pelas aulas de Engenharia que deu e, finalmente, a vertente bibliófila, com livros de astrónomos como Johannes Kepler ou Nicolau Copérnico, que terão feito parte da sua biblioteca.
Nos documentos, é possível observar vários desenhos de fortificações e desenhos geométricos. “A fortificação é esteticamente bonita”, diz Henrique Leitão, apontando para os desenhos. “Não se espera que ninguém venha à exposição ler os manuscritos, mas espera-se que se perceba com que tipo de ferramentas intelectuais é que se trabalhava. E aqui é a matemática – o estudo, a utilização, a prática da matemática, é isto que os manuscritos mostram.”
Luís Serrão Pimentel nasceu a 4 de Fevereiro de 1613 na freguesia de Santa Justa. O cosmógrafo-mor foi filho de Lisboa, mas foi também filho da Aula da Esfera, o curso de Físico-Matemáticas leccionado pelos jesuítas do Colégio de Santo Antão. Esta escola esteve activa em Lisboa durante 170 anos, entre finais do século XVI e meados do século XVIII, e trouxe importantes pedagogos da Europa. Do colégio de Santo Antão saíram formados milhares de alunos.
“Sem Aula da Esfera não havia Serrão Pimentel”, diz Henrique Leitão. O engenheiro receberia ainda ensinamentos do cosmógrafo-mor Valentim de Sá, tornando-se assim num “matemático muito competente” e no “grande professor de engenharia militar portuguesa do século XVII”, explica. A restauração da independência de Portugal, em 1640, teve muita influência na carreira do engenheiro. A guerra que se seguiu obrigou Portugal a construir fortificações ao longo da fronteira, principalmente no Alentejo, onde o terreno plano era um convite à entrada do exército espanhol.
“A grande modificação dos fortes da altura é por causa da artilharia”, conta Henrique Leitão. A partir de 1641, o rei D. João IV manda vir grandes engenheiros militares franceses, holandeses e da Flandres, para assistir na construção, ampliação e restauro dos fortes. É neste ambiente que Luís Serrão Pimentel, também militar, trabalhou. O engenheiro planeou e edificou a praça de Évora e acompanhou obras de fortificação de Vila Viçosa, Monsaraz, Elvas, Campo Maior, Portalegre, entre outros. “Ele é o primeiro que aparece como grande teórico e doutrinador desta disciplina.”
Na mostra isso é notório, além de vários exemplares do livro póstumo, de 1680, Methodo Lusitanico de desenhar as fortificaçoens das praças regulares, & irregulares…, estão expostos aquilo que parecem ser livros de bolso, manuscritos ainda feitos em vida. “Ele preparava versões mais pequenas do manuscrito que deixava as pessoas usar”, revela Henrique Leitão. “A especulação é que [estes códices mais pequenos] eram levados para o campo para quando se iam inspeccionar as fortificações.” Já a edição de 1680 é um livro grande, sobre engenharia militar com uma base forte matemática, “normal nos bons tratados”.
Em 1647, Luís Serrão Pimentel é nomeado cosmógrafo-mor, cargo directamente relacionado com o rei. Como tal, o engenheiro, que também estudou Náutica, tinha de fazer exames a pilotos, a cartógrafos, a construtor de instrumentos. Além de ser professor na Aula de Fortificação, uma classe criada por D. João IV, também deu aulas como cosmógrafo-mor.
“Ele tem uma influência enorme na engenharia portuguesa, não só nos homens que forma, mas os seus textos são a referência para toda a gente”, explica Henrique Leitão, que defende o estudo deste material para perceber a ramificação do impacto que o cosmógrafo-mor teve na ciência portuguesa. Para o historiador, mostrar Luís Serrão Pimentel é mostrar um exemplo para as gerações de hoje: “Não há coisa mais destruidora para um miúdo em Portugal do que ouvir dizer que os portugueses não gostam de ciência, de matemática. Enquanto não mostrarmos que houve história científica portuguesa, a história introduz um elemento perverso [na educação].”

Musica Aeterna – 450 anos sobre o nascimento de Galileu

Emissão do Musica Aeterna, destinado a comemorar os quatrocentos e cinquenta anos do nascimento de Galileu Galilei [15 de Fevereiro de 1564 – 15 de Fevereiro de 2014], físico, matemático e astrónomo de importância fundamental na revolução científica do século XVII, acompanhado de poesia, traduzida por Vasco Graça Moura, de Dante Alighieri extraída da “Divina Comédia”, versando a chegada ao céu da Lua e a teoria das manchas lunares e das influências celestes, e repertório de Giorgio Mainerio, Giulio Caccini, Luca Marenzio, Claudio Merulo, Andrea Gabrieli, Girolamo Frescobaldi, Benedetto Ferrari, Claudio Monteverdi, Emilio de’Cavalieri, Jacopo Peri, Carlo Gesualdo, Gregorio Allegri, Marco da Gagliano, Giovanni Rovetta e Francesco Cavalli, todos contemporâneos de Galileu na Península Itálica dos séculos XVI e XVII.

“Mede o que é mensurável e torna mensurável o que não o é!”

Os 450 anos do nascimento de Galileu Galilei

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Os santos da capela do Museu de Lamego estão a sair dos seus nichos

O Museu de Lamego está a restaurar a Capela de S. João Evangelista, um dos tesouros da arte barroca neste museu que foi construído sobre o antigo paço episcopal da cidade. O trabalho já revelou algumas surpresas, entre as quais desenhos escondidos do edifício original.
Por Sérgio C.Andrade, Público de 10 Fev 2014 | Fotos de Bárbara Raquel Moreira
Santa Clara e S. Miguel, Santa Quitéria e Santo Inácio de Antioquia, Santa Úrsula e S. Lourenço Justiniano, Santa Rosa de Lima e S. Tiago… Não é uma ladainha, nem uma procissão – é o início, apenas, da enumeração das 19 esculturas devocionais que por estes dias podemos admirar, dispostas um pouco ao acaso, sobre uma banca, numa das salas do Museu de Lamego.
A comandar esta espécie de exército da imaginária cristã destaca-se, maior do que os restantes, a escultura de S. João Evangelista. Ele é, afinal, o motivo deste desalojamento temporário das imagens dos seus nichos na capela barroca que lhe é dedicada, e que é uma das três estruturas montadas – e em exposição – no referido museu desde a década de 1930.
Desde Dezembro e, previsivelmente, até à Páscoa, duas salas do edifício estão transformadas num estaleiro para a realização do restauro deste que é um dos tesouros do Museu de Lamego (ver caixa). Há escadas e plataformas, bancas de madeira e barras de metal, berbequins e capacetes, chaves-de-fendas e pincéis, além de um sistema de roldanas e uma máquina parecida com um aspirador, que nos dizem ser “um exaustor de químicos”.
Foi com ela que, depois de retiradas dos nichos, as esculturas foram sujeitas a uma primeira intervenção de limpeza, seguida da fixação e conservação da pintura.

Na exposição que inaugura a 18 de Maio as esculturas retiradas dos nichos poderão ser vistas em todo o seu esplendor, isoladamente
Estas imagens e as pinturas que, no final da semana passada, já tinham sido removidas dos caixotões do tecto, vão ser transportadas para Lisboa para o laboratório da Detalhe, a empresa que ganhou o concurso público para a execução da obra. A parte estrutural da capela será tratada, in-loco, no museu, já que não obriga a tantos cuidados.
“Este trabalho exige técnicos especializados e um cuidado extremo, tanto na desmontagem como no tratamento das peças”, explica Luís Sebastian, director do Museu de Lamego, no decorrer da visita em que guiou e explicou ao PÚBLICO o programa dos trabalhos.
A seu lado, Pedro Martins Santos, que dirige a equipa da Detalhe, diz que esta é uma operação igual a tantas outras que a empresa vem desenvolvendo por todo o país desde que foi fundada em 1998. Mas o trabalho que está agora a fazer em Lamego tem uma particularidade, que é a de poder ser acompanhado pelo público que visita o museu.
“Ainda ontem passou por aqui um grupo escolar, de miúdos pequenos muito curiosos, e que já sabiam o que é uma térmita e o que ela faz à madeira”, conta este técnico de restauro, que vê neste trabalho ao vivo um motivo acrescido de interesse. “Temos que estar preparados para responder.”

A desmontagem de elementos permitiu descobrir pinturas decorativas do antigo paço episcopal
Depois do levantamento das esculturas e da desmontagem do tecto, aquando da visita do PÚBLICO, uma equipa de três técnicos terminava a remoção das paredes da capela. Uma acção que reservaria uma surpresa: por trás da estrutura lateral do retábulo despontaram, naturalmente gastas pelo tempo, pinturas decorativas do antigo paço episcopal, transformado em museu na sequência da implantação da República.
“Quando fazemos este género de intervenções, surgem sempre surpresas, especialmente em edifícios que tiveram várias modelações e várias fases construtivas. Desta vez, foi a descoberta das pinturas”, comentou Luís Sebastian, chamando também a atenção, na parede oposta, para a descoberta de “estruturas em ‘gaiola pombalina’, um sistema de construção inventado e difundido por todo o país após o Terramoto de 1755”. Trata-se de uma quadrícula em madeira, com uma cruz de reforço no meio, preenchida com pedra miúda, tijolo e argamassa, com o objecto de garantir maior consistência e segurança às paredes.
Antigo paço episcopal
O Museu de Lamego foi instalado, no final da primeira década da I República, no antigo Paço Episcopal da cidade. No final dos anos 1920, foi aí depositada grande parte do espólio do antigo Convento das Chagas, desactivado na sequência da lei de extinção das ordens religiosas em 1834, e que entretanto entrou em ruínas (a última freira morreu em 1906).
Entre esse espólio estavam três capelas e um altar-retábulo que foram instalados e musealizados em diferentes salas do edifício, na década de 1930, por decisão da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (a extinta DGEMN). É o caso da Capela de S. João Evangelista e das de S. João Baptista e da Sra. da Penha de França, e ainda do Altar do Desterro. Todos eles foram incrustados e adaptados em salas do edifício existente – no caso da Capela de S. João Baptista, por exemplo, foi mesmo necessário rebaixar o chão para a estrutura caber no espaço.
Luís Sebastian estava convencido de que a instalação do museu tinha feito desaparecer a totalidade do velho paço episcopal, construído no século XVIII – à excepção da capela privada do bispo, com a sua decoração barroca, que se mantém como uma das atracções do museu. Mas a intervenção agora em curso está a mostrar que algumas coisas foram mantidas e aproveitadas, designadamente paredes e decorações.
“Isto é importante para se conhecer a história do edifício, além de que é gratificante podermos recuperar a memória do que foi o paço episcopal”, nota o director do museu. E acrescenta que uma situação como esta levanta sempre questões novas. No imediato, obriga a registar documentalmente, e a estudar e conservar, as pinturas encontradas – o que significa sempre o deslizar dos prazos da intervenção. “Depois, é preciso decidir o que é que vamos privilegiar”, diz Sebastian. Mas acrescenta que, neste caso em particular, “a decisão é pacífica: o retábulo tem que voltar a ser remontado, o que significa voltar a esconder os desenhos”. E ressalva que fica assim “aberta a possibilidade de uma geração futura optar por fazer o contrário”. “Trabalhar mal, seria não deixar esta opção em aberto; a reversibilidade das decisões é essencial neste domínio”, explica ainda o director.

A Capela de São João Baptista é um dos aspectos singulares do Museu de Lamego
Três fases do barroco
As três capelas (e o altar) do Museu de Lamego, para além da beleza e do valor patrimonial de cada um, são expressão da evolução da linguagem do barroco no país. “Esteticamente, temos a sorte de que cada uma das capelas corresponde a um período da produção da talha dourada portuguesa, como a sistematizou o historiador americano Robert Smith.” A afirmação é de Alexandra Braga, historiadora de arte e técnica superior do museu, que nos guiou cronologicamente neste percurso estético. A capela de S. João Baptista documenta um primeiro período do barroco, de estilo maneirista; a de S. João Evangelista é de “uma fase de transição, em estilo híbrido, de passagem do estilo maneirista para o nacional” – nota Alexandra Braga –, sendo a capela de N. Sra. da Penha de França “verdadeiro estilo nacional”, com um barroco “profusamente ornamentado com folhas de videira, parras, cachos, aves”, num regresso aos excessos decorativos do manuelino. O Altar do Desterro já revela características rococó.

Nas capelas do museu pode estudar-se a evolução da talha dourada em Portugal
Para lá da sua relevância estética, o Museu de Lamego é “um caso raro, excepcional mesmo, no país” de uma instituição que instalou integralmente as capelas que recebeu de um anterior convento, diz Anísio Franco, conservador do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA).
Se em vários museus do país – como o próprio MNAA – é possível encontrar exemplos de capelas musealizadas, o Museu de Lamego tem a particularidade de ter estes quatro exemplares, que expressam, no seu conjunto, o “conceito de arte total que marcou o barroco”. “Enquanto, por todo o país, muitas dessas capelas foram desmanteladas e vendidas ao desbarato, o que aconteceu em Lamego é exemplar do ponto de vista da salvaguarda do património”, acrescenta Anísio Franco, elogiando também a decisão de se estar agora a restaurar as capelas.
Luís Sebastian diz que o objectivo do museu e da Delegação Regional da Cultura do Norte, que o tutela, é intervir nos outros três retábulos, mas que isso só poderá ser feito quando houver condições financeiras – a actual intervenção está orçada em 25 mil euros, verba que inclui a comparticipação de fundos europeus.
“O ideal seria fazermos um faseamento das intervenções, mas isso seria irrealista no actual estado do país. Temos que ir trabalhando aos poucos, consoante o dinheiro e as oportunidades de financiamento”, acrescenta o director.

Os nichos foram cuidadosamente aspirados
O que está já agendado, e que decorre da intervenção agora em curso na Capela de S. João Evangelista, é aproveitar a circunstância de as imagens terem sido retiradas dos seus nichos para a realização de uma exposição que vai reunir não só estas 19 esculturas em madeira de castanho, mas também todas as que integram os outros retábulos do museu. “Trata-se de retirar as esculturas do seu contexto habitual, em que quase passam despercebidas, e permitir que elas se afirmem na sua individualidade”, diz Sebastian, acrescentando que, ao todo, serão perto de 40 as imagens. A exposição abre no Dia Internacional dos Museus, 18 de Maio, e fecha a 22 de Junho.

Dezoito tesouros nacionais no Museu de Lamego

O Museu de Lamego tem no seu espólio 18 peças que fazem parte da lista dos tesouro nacionais, que agrega o que de melhor as colecções públicas têm para oferecer no que toca ao património móvel. Entre elas há uma arca tumular do século XIV e painéis de azulejos do século XVII, mas os dois conjuntos que merecem uma atenção especial são as pinturas de Grão Vasco e a colecção de tapeçarias flamengas.
De Vasco Fernandes (1475-1542), o nome maior da pintura portuguesa do século XVI, o museu tem cinco obras – Criação dos animais, Anunciação, Visitação, Circuncisão e Apresentação no templo – do políptico de 20 que o bispo de Lamego, D. João de Madureira, encomendou ao pintor viseense para a sé catedral da cidade. As pinturas que restaram da colecção inicial deram entrada no paço episcopal em 1912, tendo depois sido integradas no museu.
Da colecção de tapeçarias flamengas, quatro representam o mito de Édipo e, noutra sala, duas têm por tema O templo de Latona e O julgamento do paraíso. Segundo o Museu de Lamego, estas obras deverão ter sido encomendadas pelo bispo D. Fernando Meneses de Vasconcelos (1513-1540) para a residência episcopal, sendo os cartões que lhes deram origem possivelmente da autoria do pintor flamengo Bernard van Orley e a produção atribuída à oficina de Pieter van Aelst, em Bruxelas.

Pormenor de Visitação, de Grão Vasco
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