​As águias-de-bonelli voltaram à serra da Estrela. Como é que sabemos isso?​

Plataforma GeObserver reúne online informações sobre a serra, que antes estavam dispersas ou eram mesmo desconhecidas. A identificação de espécies é apenas uma das várias funções do projecto​

Por Marisa Soares, in Público de 23-11-2013
​Os últimos registos da presença da águia-de-bonelli (Hieraaetus fasciatus) na serra da Estrela tinham quase 20 anos. Desde então pensava-se que esta espécie, que em Portugal está em risco de extinção, já nem existisse naquela zona. Mas agora sabe-se que há pelo menos um casal — e parece estar a reproduzir-se.
A descoberta foi possível através do GeObserver, um sistema de informação geográfica que reúne numa plataforma online informações recolhidas por quem visita o Parque Natural da Serra da Estrela — sobre fauna, flora, clima, condições das estradas em dias de neve e dos trilhos pedestres — e que antes estavam dispersas, ou eram mesmo desconhecidas.
Qualquer pessoa pode “alimentar” a plataforma, registando as suas observações no site, com fotografias e pormenores sobre o local e a espécie encontrada. “A maioria dos registos é feita no Verão, cerca de 80 por mês, e no Inverno a participação desce”, explica Paulo Silva, fundador e coordenador do projecto, que arrancou em Agosto de 2012. Os dados são depois analisados e validados por uma equipa de mais de 20 técnicos, de biólogos a meteorologistas, especialistas em Geografia ou Informática, entre outros, que colaboram voluntariamente com o GeObserver.
Foi assim que se descobriram as águias-de-bonelli. “Começámos a receber alguns registos, com fotos. O sistema cruzou os registos e detectou a zona onde a espécie poderia estar. Visitámos o local e detectámos o casal, com um ninho nas escarpas. Só não conseguimos ver se já tinha crias”, conta Paulo Silva.
O GeObserver nasceu no ano passado pelas mãos deste engenheiro de software de 37 anos, natural de Manteigas. Paulo Silva integra a associação Amigos da Serra da Estrela (ASE), que planeava criar um sistema para reunir dados recolhidos pela própria associação — a segunda organização não-governamental de ambiente mais antiga do país, criada em 1982. “Tive a ideia de fazer uma coisa diferente e com o apoio do Instituto Politécnico de Setúbal, onde estudava, conseguimos criar esta plataforma”, explica Paulo Silva.​
Desde então o projecto não parou. Através dos dados submetidos na plataforma foi possível começar já a desenhar o mapa da biodiversidade do parque, mediante a identificação de animais e respectivas rotas migratórias, plantas e fungos. “O sistema vai desenhando as manchas nos locais onde as espécies são avistadas”, diz o coordenador. Dentro de três anos o mapa deve estar concluído, embora sempre sujeito a actualizações.
A equipa criou também, em colaboração com o centro de estudos climáticos da Universidade Federal do Acre (Amazonas, no Brasil), um algoritmo que indica o risco de incêndio florestal. Em vias de conclusão está ainda um mapa sobre a produção de oxigénio no parque, fundamental para calcular o risco de propagação do fogo e a produção de biomassa. “Vamos tentar cooperar com equipas de bombeiros e protecção civil da região, para poderem utilizar esta ferramenta na época de incêndios”, adianta o coordenador.
Aos visitantes é dada também a oportunidade de denunciarem atentados ambientais, como lixeiras, árvores ilegalmente abatidas ou animais feridos. Quem circula na serra, a pé ou de carro, tem informação actualizada sobre a previsão de queda de neve, estradas interrompidas e estado dos trilhos pedestres. O projecto, que foi um dos finalistas da última edição dos Green Project Awards, não tem fins lucrativos.
Funciona com base em apoios e parcerias com a ASE, o Centro de Interpretação Ambiental da Serra da Estrela, o Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens, o portal Naturdata, a Quercus e o Instituto Politécnico de Setúbal. O próximo passo é replicar o sistema em Portugal e nos países da CPLP.

águia-de-bonelli

Pensava-se que a águia-de-bonelli (Hieraaetus fasciatus), que em Portugal está em risco de extinção, já nem existia na serra da Estrela
Conhecer a serra de tenda às costas
Para divulgar e incentivar a defesa da biodiversidade da serra da Estrela, o GeObserver e as associações Amigos da Serra da Estrela e Aldeia vão organizar o I Acampamento de História Natural, de 7 a 11 de Abril de 2014. Os alunos do secundário e superior são os principais destinatários do acampamento, mas qualquer um se pode inscrever. “Os participantes serão divididos em três grupos – fauna, flora e geografia – e cada um terá um orientador”, explica Paulo Silva, um dos coordenadores do GeObserver. “Em Abril, as temperaturas favorecem a observação de espécies de fauna e flora”, explica. Confirmada está a presença de especialistas como Alexandre Nieuwendam, do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, e Fernando Romão, naturalista, fotógrafo de natureza e especialista em lepidópteros (insectos, como borboletas). A organização lançou uma campanha de crowdfunding [financiamento colectivo] para angariar 1500 euros, para comprar material informático, de fotografia e cartografia para apoio na geo-referenciação durante o acampamento.
Novo livro é hoje lançado sobre a águia-real no Gerês
Há quase 30 anoss que o ambientalista Miguel Dantas da Gama observa as águias-reais do Parque Nacional da Peneda-Gerês(PNPG). E partilha, agora, o resultado desse acompanhamento, num livro que é lançado às 18h, na Fnac do Mar Shopping, em Matosinhos.
Foi nos primeiros anos do caminho, iniciado em 1986, que Dantas da Gama decidiu que haveria de fazer um livro com as suas idas, quase semanais, à Peneda-Gerês, para observar as últimas águias-reais que nidificavam no parque nacional. Cerca de 27 anos depois, e quatro anos após o desaparecimento do último elemento do casal que acompanhou, o fundador do Fapas – Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens lança a obra Uma Longa Caminhada com as Águias-Reais da Peneda-Gerês.
Não é o livro de um cientista. Nem o autor, um engenheiro electrotécnico que, fora do emprego, dedicou uma parte considerável do seu tempo a percorrer caminhos de cabras pelas várias serras do parque, pretendeu que o fosse. Em todo o caso, ao partilhar notas de campo, fotografias, estatísticas sobre distribuição de ninhos por todo o PNPG e sobre observações – suas e de outros, em Portugal e também no parque vizinho do Xurés, na Galiza -, Dantas da Gama produziu um contributo importante para o conhecimento da ecologia do último casal de águias-reais, que ficou reduzido a uma fêmea imponente em 2003., que deixou de vigiar a presença deste observador em 2009.
Esta obra editada pela Fapas e pela Canhões de Pedra,faz parte de uma triologia de maior folêgo, e segue-se ao livro de Miguel Dantas da Gama Árvores do Parque Nacional da Peneda-Gerês, de 2011. Fruto, também ele, das mais de mil caminhadas atrás da Aquila chrysatos. Todo este trabalho de acompanhamento, do qual resultaram nove volumes de anotações, dará origem, a seguir, a uma obra geral sobre o parque, sobre as paisagens, caminhos e descaminhos deste território que o autor conhece como poucos.
Texto de Abel Coentrão
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