Estátua Falsa

 

Só 
de oiro falso os meus olhos se douram; 
Sou esfinge sem mistério no poente. 
A tristeza das coisas que não foram 
Na minh alma desceu veladamente. 

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia, 
Gomos de luz em treva se misturam. 
As sombras que eu dimano não perduram, 
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia. 

Já não estremeço em face do segredo; 
Nada me aloira já, nada me aterra: 
A vida corre sobre mim em guerra, 
E nem sequer um arrepio de medo! 

Sou estrela ébria que perdeu os céus, 
Sereia louca que deixou o mar; 
Sou templo prestes a ruir sem deus, 
Estátua falsa ainda erguida no ar … 

 

 

poema de Mário de Sá Carneiro, 1913
gravura de Tamara de Lempicka, 1923

  1. No trackbacks yet.

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 1.468 outros seguidores